O MAPA (A saga do anadel) Capítulo IV .O almogárave.. por Carlos Loures

 

Escrevo estas linhas no ano de 1561 da era de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nasci nesta cidade em 1488. Meu pai, Lourenço, viveu a aventura que vos narrarei em 1487, antes de ter casado com minha mãe, Débora, uma judia muito bela na sua juventude e mesmo depois. Tendo visto o caminhar do seu corpo e do seu rosto pela densa teia dos tempos, desde a linda jovem que me embalava junto do perfumado seio até à serena dama encanecida que me dava sábios conselhos, sempre me lembro de a achar muito bela. Por esta via, dizia meu avô Jacob Levi, com o ar solene de quem concede uma dignidade, elevada tença ou sinecura, eu ainda venho a ser hebraico, pois a condição de filho de Moisés se transmite pela linhagem materna. No entanto, não fui circuncisado e recebi o baptismo cristão na igreja de Santo António. Nunca tendo sido dado a grandes religiosidades, ao contrário do que indica a minha condição, para o mal e para o bem, sempre estive ligado à Santa Madre Igreja, desde o sacramento baptismal e dos bancos da escola catedral até agora, até à fria solidão desta cela no convento de São Francisco de Enxobregas. Escrevo para que certos factos não se percam no voraz turbilhão da memória do tempo. Escrevo para me libertar de fantasmas que me povoam sonhos e pesadelos. Pintando-lhes os feios rostos com as tintas pálidas do meu verbo, julgo exorcizá-los, e talvez deixam de me atormentar. Escrevo para me interrogar e tentar encontrar respostas – o que se passa no mundo? Por que muda o que é superficial, permanecendo imutável o que é importante e profundo?

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            Meu avô, Lopo, foi um debuxador de cartas de marear e de portulanos, com alguma nomeada, deixando, entre a sua obra, sobretudo um atlas ainda hoje muito consultado por pilotos e capitães, pois além de fiáveis cartas e portulanos, inclui conselhos sobre a arte de bem utilizar os velhos e os novos instrumentos de navegação – o astrolábio, que antes se chamara anel graduado, o báculo de Jacob ou virga visoris, que deram lugar à balestilha, a agulha de marear e a bússola, o kamal, também conhecido por tábuas ou tavoletas da Índia… Não terá grandes novidades, mas possui o grande mérito de, num único livro, conter a informação e o saber que mais de um século de navegações permitiram que os Portugueses acumulassem. O que não é pequena vantagem. Terá nascido por volta de 1443 e a minha história começa quando tinha dezasseis anos e, na Torre Albarrã, aprendia a difícil profissão de copista. Meu pai sempre me elogiou, com tal vivacidade e emoção, a sua inteligência e bondade e de tal colorida forma o fez que quase tenho a sensação de que o conheci. Minha avó, a bela Matilde, ainda me embalou. Meu bisavô, Simão, era, na descrição de meu pai, um homem discreto, também copista e foi um dos ajudantes do insigne mestre Fernão Lopes, que, como se sabe, ocupou o elevado cargo de guardador-mor dos reais arquivos. Terá nascido cerca do ano de 1415, e casou com minha bisavó Branca Maria, que morreu quando eu tinha cinco anos e da qual apenas guardo uma recordação difusa – uma velhinha de rosto emoldurado por uma pulcra coifa engomada.

            Não conheci o meu avô Lopo, pois morreu relativamente jovem antes de eu ter nascido. Todos nós, de Simão até à minha insignificante pessoa, estudámos na escola-catedral, sem que nunca tenha passado pelas nossas cabeças vir a ser ordenados clérigos ou a obter grau académico. Quando nos admitiam no seio do seu ninho de saber, era para que aprendêssemos o que era indispensável para depois servirmos no Tombo. Esta benevolência tinha origem, não só no facto de sermos vizinhos da Sé, como, principalmente, num serviço que Bartolomeu, o almogárave, único analfabeto desta modesta linhagem, prestou a um sábio cónego, responsável perante o cabido pelo funcionamento do colégio que na Sé funcionava, homem que ali pontificava nos seus tempos de juventude, salvando-lhe, ao que se dizia, senão a vida pelo menos a clerical reputação, pois de negócio de saias se tratava – terá assumido culpa que ao cónego pertencia. História esta que não vos contarei, para que o honrado nome do bondoso mestre-escola, há muito finado, não sofra maior beliscadura do que o vago enunciado que aqui faço do seu honrado trato com Bartolomeu à sua memória possa causar. O que interessa salientar é que o único analfabeto desta longa cobra geracional que vem dos tempos dos cercos castelhanos até agora e que é a vida da nossa família desde que aqui arribou vinda da vila de Foz Côa, garantiu por mais de cem anos a ilustração e saber dos seus vindouros. Proeza que só um destemido almogárave poderia realizar. Este meu trisavô, todos na família o conhecemos por o almogárave ou por o terrível Bartolomeu, como também gostava de ser chamado. Nasceu por alturas do grande assédio a Lisboa posto pelos Castelhanos e foi criado num clima de insano ódio aos nossos vizinhos que combateu com valentia nas hostes do Condestável que invadiram território de Castela. Casou com Mafalda, uma jovem que conheceu durante as actividades guerreiras e que ousadamente raptou na vila de Condeixa. Mafalda morreu no ano em que deu Simão à luz. Levou-a o mesmo surto de peste que matou D. Filipa de Lencastre, no Verão de 1415.

Voltando à minha pessoa, digamos que sou um monge franciscano, não muito conceituado entre os seus irmãos, pois quando passo no claustro ou entro no refeitório, a minha nuca vê o gesto que fazem de levar os dedos à testa, aludindo ao meu juízo ou talvez à falta dele. Abrigo-me entre as pedras da cela, protegido das troças e dos trabalhos rudes que fiz enquanto a velhice não chegou e com ela o reumatismo e outras aquisições penosas. Bebo pequenos goles de água fresca do meu gomil de Talavera, escrevo e leio, desde o toque das matinas ao das completas. A idade libertou-me da penitência de cavar a almuinha do convento, tratando de hortaliças, de ervilhas, de feijões e de favas, trabalho que o irmão superior entendeu ser o mais adequado a um devorador de livros. Não escrevo para os meus contemporâneos – isso seria, nos tempos que vivemos, ajudado pela minha meia-ascendência hebraica, um atalho para a fogueira. Os Levis de Alfama eram ali uma conhecida família de honrados mercadores e talvez tivessem algo de comum com os Levis da Palestina, de que nos fala o Antigo Testamento, vindos da linhagem de Jacob e de Lia que só tinha direito a habitação e pastoreio nas chamadas «cidades levíticas». Nem sei se escrevo para alguém. Talvez o faça apenas para mim e quando chegar ao fim da tarefa, tenha um insólito ataque de sensatez e destrua estas laudas, queimando-as. Antes que sejam elas a queimar-me… Logo se verá, como costumava dizer o cego.

 

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