

Percorríamos então a geografia mais exposta, os pontos vulneráveis acentuados mais e mais pelo estio, esta ardência ou desamor sobre o rosto. Nem podíamos articular palavra, Mariana a meu lado humedecendo os lábios com a língua, enquanto eu, emudecido e atento à sinalização da estrada, me interrogava donde me vinha este gosto a sal-gema na garganta, a sensação de vertigem ou temor de vertigem. E quando dei por mim, falava Mariana da paisagem insólita, dos campos de trabalho arados com amargura, esta cúpula de fogo sobre o sangue e a sombra extraviada pela usura da colheita. Tínhamos atravessado o território de Reguengos, as cicatrizes da extensa e calcinada planície, quando comentei:
«Aqui no sul, o sol-a-sol é a maior sujeição».
Por um tempo, não trocámos mais palavra. E foi quando tal atmosfera se abatia sobre nós, já depois de Serpa, que nos apareceu Ivo – só mais tarde saberíamos que era este o seu nome -. Era um tipo estranho ali, com roupagens urbanas, mas via-se que alguma coisa devia à cor local, fosse o que fosse, o olhar resistente ou a maneira firme como pedia boleia, sem falsas desculpas. Ia para Aljustrel, sua terra de origem, onde aprendera os ofícios da monda ou do restolho, a arte de obedecer aos feitores com manhas inevitáveis.
Dizem que o alentejano é reservado, duma severa economia de palavras. Mas Ivo não usava dessa secura, mostrava-se tímido apenas o essencial para não parecer ousado, mas via-se que algo nele mudara recentemente, como quem de súbito reconhece toda a história, a sua própria história, o passado de névoa, suas linhas de força, e então sente que tem de justificar-se numa torrente desmedida e ingénua que não tinha aprendido ainda a dominar. Ivo não era também completamente assim, falava-nos de si com as cautelas evidentes, mas, desde o início, pôs a descoberto a sua origem mais rural sob o fato de um qualquer pronto-a-vestir.
É certo que se sentira muito mais confiante quando lhe revelámos a nossa infância coincidente, os feixes de trigo que atáramos e desatáramos sobre as eiras, sob a explosão solar, repartindo a escola e o restolho, as arestas vivas contundindo-nos a carne, e o ardor intolerável quando à noite mergulhávamos os pés doridos na água quente e salgada. Ivo tivera, contudo, uma experiência mais amarga:
«Livros nunca os vi senão quando já era homem e pensei fazer a terceira e a quarta. Mas tudo isto às escondidas do meu pai, que não suportava a ideia de ver-me perder tempo com os livros».
«Mas, então, não havia escola?», interrogara Mariana.
O olhar ficou parado, por momentos vimo-lo como que a mergulhar em qualquer coisa que doía, ou assim nos parecia, até que a voz lhe surgiu tocada pela emoção:
«Dos sete aos oito frequentei-a, de facto. Mas nessa altura fecharam-na, diziam que tinha poucos alunos e que nem dava para posto escolar ou coisa do género. Só sei que um belo dia deixou de haver professora e a escola mais próxima ficava nos confins do mundo».
«E o que faziam então?», ficou no ar a pergunta.
«Até aos doze brincava com os outros rapazes mas havia dias em que já ia para os campos trabalhar. E mal fiz os treze, era um fedelho a espigar, já eu trabalhava para os outros, nos ranchos da malta, puseram-me o nome de Serôdio…»
«Porquê Serôdio?», observara eu, reparando na ironia da alcunha para quem tão precocemente conhecera na carne afrontas e humilhações, o peso da exploração no meio de tanta escassez e incomodidade.
«Por eu ser o mais novo do grupo. Então gozavam comigo e quando se tratava de ir à água, arranjar gravetos para as sardinhas ou o toucinho do almoço, lá estava eu caído. Era sempre o Serôdio, assim uma espécie de pau para toda a obra, e, como se não chegasse o serviço que me cabia, ainda inventavam partidas que nem lembravam ao diabo. Vingavam-se das que tinham sofrido quando estavam no meu lugar. Eram danados…».
E agora sim, Ivo sentia-se muito mais afoito. E foi quando se lhe desatou a memória, o itinerário do Sul, de Aljustrel para o Norte, a convivência com os arrozais dos latifundiários de Alcácer, o seu eito em ponta, sempre à frente, e as vozes de protesto que lhe chegavam surdas, confundidas no sol. Desbaratara o sangue sem glória nem prestígio. Nesse tempo de enganos, reconhecera-o mais tarde, nessa recente alteração que se lhe notava, tinham-lhe acontecido coisas estranhas, de que agora corava só de imaginá-las. Um dia, por exemplo, em que se plantava o arroz, chegara o patrão acompanhando o feitor, e todo o grupo redobrara de esforços, como era habitual. Mas Ivo não tolerava esse artifício e prevenira os companheiros: «que só trabalhavam bem quando viam os patrões, mas que puxassem, que quando o patrão abalasse era a sua vez de puxar». E na tarde em desespero, o suor alagava-lhe então os poros como cal viva sobre o corpo castigado. Envolvia-o um zumbido ardoroso, fosse o ruído do calor ou o sangue desmedido, os lábios tensos de não gritarem a raiva acumulada noite e noite, na frustração da força cheia de febre e de estigmas.
«Toda a gente passou por isso», disse-lhe. «Não vale a pena castigar a memória…»
«Mas como se pode ficar tão cego?». E os olhos de Ivo ficaram muito abertos, como se estivesse ouvindo as lamentações amargas e as palavras lhe queimassem a lembrança.
«Meu amigo, é o que se passa quando à nossa volta tudo se organiza para a exploração mútua, para o que vulgarmente se chama o vencer na vida. Há os que vencem à custa dos vencidos…».
E foi o tempo do sal, o carregar dos barcos nas marinhas do Sado, em Monte Novo de salmoura, canastras e canastras sobre as costas já batidas, não sem algum alarme, no exercício de subsistir. E subsistir era um verbo conjugado com concessões de modos, os carregadores sem ódio nem descanso arrumando o sal nos barcos de pequeno calado, aportados às praias desfeitas em cloreto que abria buracos redondos na planta do pé. Ivo nunca experimentara essa sensação de necrose lenta e nítida, apenas disfarçada sob a gase e o colódio, mas qui e ali a carne não resistia aos golpes incisivos e finos dos cristais corrosivos.
Tinham aparecido os carregadores de Aveiro, experimentados e curtidos pelo sal do Norte. Alardeavam uma prática que ofendia, queriam justificar o exílio no Sul com glória e cabedal. Não conviviam com a gente de Ivo, nem partilhavam da sua insubmissão, decretada que fora a resistência ao ritmo degradante de forçados. Os homens de Alcácer resistiam, pretendiam acertar um compasso ajustado ao salário vencido, mas, guiado por uma força atávica, Ivo sentira de novo a febre, aquela raiva de nervos a dominar-lhe o sangue, uma asfixia nos centros nervosos que o impelia para a obstinada sujeição. Enchia barcos e barcos, ignorava-lhes as rotas, o capital acumulado, mas media-lhes o côncavo até odiá-los por tanto sal absorvido.
E foi depois de tudo isto, no tempo do alarme mais assíduo e das represálias dolosas que se lhe seguiram, amados e desamados os provérbios do trigo, depois de tudo isto, repita-se, fosse acaso ou decisão amadurecida, Ivo transporta o seu tumulto disponível, seu corpo causticado e até aí interdito. Arranjara trabalho numa estação de serviço e depressa se habituara ao atavio branco, aos contadores automáticos da gasolina. Deixara Monte Novo sem azedume mas a transbordar de sal ácido, uma mágoa que lhe anavalhava, fibra a fibra, a doença do passado, o que poderia ter sido, o que agora se lhe apresentava no imediato de sobreviver. Mas não fizera tábua rasa da gíria das herdades, e ali estava em Aljustrel, com seus cinco dias de férias e o seu quê de camponês lá dentro, mas com o saber acumulado duma dura, longa e dolorosa experiência de vida.
(Inédito,1969)

Gostei, meu caro Manuel. Despeja as gavetas e atira-nos com os inéditos que tens com fartura, os leitores, a começar, por mim, agradecerão.