
No dia 2 deste mês celebrámos o aniversário de António Maria Lisboa (1928.1953), um grande poeta surrealista que morreu muito jovem. Hoje. dia 9 do mesmo mês, nasceu outro grande poeta surrealista – Mário Cesariny de Vasconcelos (1923-2006) que, tendo vivido mais tempo, nos legou uma obra mais extensa e também de uma invulgar qualid0ade.
Cesariny foi, indubitavelmente, a grande figura do movimento que, em todo o caso, nos proporcionou poetas como Pedro Oom, Mário Henrique Leiria e o mais carismático de todos – Luiz Pacheco.
Quer o surrealismo, quer o neo-realismo, surgiram em Portugal por volta do final dos anos 30, quando a Guerra Civil de Espanha e a II Guerra Mundial flagelavam o mundo e. mais do que nunca, punham em causa o carácter humano da espécie, a infinita misericórdia que dizem ser característica da divindade, a solidariedade entre os trabalhadores… essas coisas.
Há na comunidade literária (não só, mas principalmente) uma tentação entomologística para classificar os escritores, agrupando-os em tendências, em espécies, cravando-lhes alfinetes com a designação. Por vezes aparecem casos que confundem os entomologistas – Manuel da Fonseca, que os neo-realistas consideram como muito seu, usou com frequência uma linguagem surreal e Mário Henrique Leiria, surrealista com as quotas em dia, tem obras de um realismo feroz – «O Teodolito», de Luiz Pacheco, faz doer como poucos adeptos de Breton são capazes de fazer.A grande literatura assimilou o realismo das situações romanescas transpondo-as numa linguagem que muito deve ao surrealismo.
Atenção: estamos a falar de literatura – na ciência política, um pulha fascista não se transforma num revolucionário par le pouvoir d’un mot.
