O MAPA (A saga do anadel) – Capítulos 1 a 10 – por Carlos Loures

Informação aos leitores

Algumas deficiências de paginação, com períodos repetidos e outros em falta, leva-nos a repetir a publicação dos  dez primeiros capítulos, permitindo uma leitura sequencial do romance. Apresentamos os nossos pedidos de desculpa por esta desagradável anomalia.

O Hortelão de palavras -Capítulo 1

Antelóquio

Olho, como se de um perigoso inimigo se tratasse, o maço de laudas brancas pousado na minha frente antes de começar a desdobrar perante vós os retalhos desta manta que, no seu conjunto, procurará formar uma história – coisas que venho narrar, em estilo de confidência, sem prosápias de literato. Antes de iniciar a tarefa, manda a cortesia que me apresente a vossas mercês, visto que se tiverdes a benevolência de me ler, não tardará muito até que sejamos íntimos. Chamava-me Jacinto de Mateus. Este era o nome que usava na vida secular, que decorreu de forma monótona até ter completado a idade de vinte e oito anos. Nessa altura decidi-me, feitas as contas a um amor puro e ardente, mas com um desenlace funesto, como geralmente acontece com os grandes amores, cuja história, por irrelevante, não quero desvelar nesta crónica, decidi-me, dizia, a abandonar a respeitável, mas, nem por isso mais interessante, profissão de escrivão público e judicial que exerci durante anos e recolhi-me no convento de São Francisco de Enxobregas, onde recebi o nome de irmão Vicente. Frei Vicente de Enxobregas, é como sou conhecido entre os amigos laicos. Troquei o cinzento da vida de escrivão, pelo burel castanho do hábito.

Escolhi este nome em honra do mártir padroeiro de Lisboa e cujo branco casario se desenrola para lá da janela onde colho a dádiva da luz necessária para escrever estas linhas. As minhas primeiras palavras são, pois, votadas a Lisboa. É uma homenagem à minha terra, e uma arteirice de mau cronista, pois enquanto discorro sobre pormenores, vou acumulando ânimo para enfrentar as laudas virgens cuja vista me aterroriza e para me lançar à faina de cronicar mais de cem anos da vida da família. Prometi a mim mesmo refrear a veia palratória e não vos servir já no começo uma dose de minudências, lendas, rumores e coisas sem interesse narrativo, fazendo-vos adormecer antes de lerdes o que tem afinal alguma importância. Vamos à crónica. Mas antes de começar, quero falar um pouco mais sobre Lisboa, cidade que é berço desta história e um dos seus cenários.

Nós, os que cá nascemos, sabemos que a alma da cidade sobrevive na sua luz, no brilho quase tangível que incide sobre as casas e as transforma num amálgama de palpitante carne. O que nada tem a ver com a melancolia que escorre das endechas dolentes que por aí gemem em tavernas e salões, por vezes acompanhando as mesuras e reverências com que se bailam baixas e tordiões. Talvez seja o contrário e essas endechas mais não sejam do que o reflexo, ou a simples sombra da incandescente e prateada luz que banha a cidade. Digamos, para tudo tentar conciliar, que as endechas são a sombra taciturna de uma luminosa deusa jubilatória. Porém, deixemos os devaneios do meu já senescente cérebro e voltemos ao que interessa, à nave chamada Lisboa. No brasão de armas mais antigo que se conhece da cidade, figura um navio com dois corvos, um postado à ré e outro à proa. El-rei D. Manuel ordenou que o brasão passasse a ser um escudo partido, arvorando de um lado as armas reais e, do outro, em cima, um navio. Em baixo, a esfera armilar, simbolizando o guia que tem orientado as nossas navegações. Mais tarde, voltou a ser apenas de um galeão com as vergas em funeral e ladeado por dois corvos, pois um douto arcebispo de Lisboa disse avisadamente: «Temos de tornar Lisboa ao Santo Mártir por padroeiro seu, e por armas a nau, em que o santo lhe foi trazido, com os dois corvos, que vieram seguindo, em memória dos quais perseveraram sempre nesta sé outros semelhantes». Teve nestas palavras razão o arcebispo: e assim voltaram os dois simpáticos corvos a pousar no brasão de armas da nossa cidade.

            Outra curiosa lenda sobre Lisboa, se de lenda se trata, é a que nos conta Damião de Góis – sábio e honrado varão que tenho o privilégio e a honra de conhecer em pessoa e de muito estimar e admirar – na sua Descrição da Cidade de Lisboa (Urbis Olisiponis Descriptio), fala-nos sobre tritões e sereias, dizendo que, segundo Plínio em Naturalis Historiæ, tinha sido visto e ouvido em determinada gruta um tritão a cantar com uma concha, apresentando-se com o aspecto tradicionalmente atribuído aos tritões. Diga-se que o aspecto que lhes era conhecido seria o de possuírem escamas espalhadas por quase todo o corpo. Segundo Góis, ainda «nos nossos dias» existem homens-marinhos, habitantes da área litoral, que apresentam esses vestígios da sua antiga raça. As sereias eram também frequentemente avistadas. Refere ainda que nos Antigos Arquivos do Reino, de cuja chefia estava nessa altura o douto Damião encarregado, existia ainda um manuscrito de um contrato celebrado entre el-rei D. Afonso, o terceiro de tal nome, e Paio Peres, mestre da Ordem dos Cavaleiros de São Tiago, segundo o qual se determina o imposto a pagar pela referida Ordem pelas sereias e outras espécies animais pescadas nas suas praias. Daqui, acrescenta Damião, «se deduz obviamente que as sereias eram então frequentes nas nossas águas, visto que sobre elas se promulgou uma lei». De tágides, ninfas do Tejo, nos falaram André de Resende e outros jovens poetas, como esse talentoso Luís Vaz, vate de que tanto agora e mui justamente se fala. Lisboa, era terra de muitos e variados prodígios.

Quanto aos corvos, aves geralmente consideradas de mau agouro, talvez por serem negras, mas que os lisboetas carinhosamente adoptaram e passaram a tratar por «vicentes», podemos vê-los às portas de algumas das muitas tavernas da cidade, crocitando as suas filosofices ou dizendo uma ou outra palavra, inconveniente ou mesmo inocentemente obscena. Quando decorre a nossa história, antes da subida ao trono do venturoso primo e cunhado do príncipe perfeito, as armas da cidade eram ainda, portanto, a nave e os dois corvos. Era, aliás, por ser tempo de navegações, época muito dada à simbologia de barcas, galeões e naus. Não esqueçamos que, por estes anos, em finais da era de Quatrocentos, o erudito Sebastian Brant, natural de Estrasburgo, escrevia o longo poema satírico A Nave dos Loucos (Das Narrenschiff, que, na edição em latim, aparecida anos depois, se chamava Stultifera Navis). Havemos de voltar a este tema.

Barca de desvairadas gentes – Capitulo 2

É na barca chamada Lisboa que começa a nossa narrativa. Prometo, para já, não regressar aos santos, a loucos, corvos, sereias, tágides e tritões, pois sobre essas matérias estamos, de momento, conversados. A nossa história fala de interesses, paixões e impulsos bem pouco pertencentes ao território da magia e da santidade e bem mais ligados aos áridos desertos da maldade, da intriga e, porque não dizê-lo, por vezes também às mansas planícies do amor e dos impulsos generosos, paisagens que, embora escassas, caracterizam igualmente a espécie humana. Uma boa parte daquilo que ides ler, se para tal vos chegar a paciência, baseia-se em textos deixados por meu bisavô Simão, copista do Real Arquivo do Tombo, pelo meu avô Lopo, que começou a profissão de copista e calígrafo, tendo depois optado pela de emérito desenhador de portulanos e cartas de marear, e pelas histórias que meu pai, Lourenço, anadel do alcaide-mor de Lisboa, me contou em saborosos serões da nossa velha casa de Alfama. Menos dado à escrita do que os seus antecessores, muitas vezes me narrou, com colorida emoção, as suas aventuras, sobretudo as que viveu em Veneza durante o tribulado assunto do mapa secreto. Deixou-me, no entanto, alguns documentos que foram úteis no encadear dos acontecimentos (como cópias das cartas e relatórios do legado e espião veneziano, Francesco Dandolo, bem como informes do espia castelhano). Regista ainda a memória do meu trisavô Bartolomeu, conhecido na família por «o almogárave» e que, não sabendo ler nem escrever, nunca se coibia de repetir memórias dos tormentosos tempos das guerras com Castela. Eis como uma família sem empáfias de nobreza, logra manter historiado, sem interrupções de monta, o fio da sua vida ao longo de quase cento e cinquenta anos, desde o reinado do mestre de Avis, até agora, ao alvor daquilo a que chamam a Idade Nova.

O gosto pela leitura e pela escrita, salvou os varões da minha modesta família de perder a sua história. Do meu trisavô, o almogárave, até mim, tabelião com banca junto do largo do Pelourinho, acotovelando-me com colegas e corretores de mercadorias, vem um caudal de pequenos episódios, de errâncias e de imobilidades, de glórias e lazeiras, que são também um pouco da história do nosso Reino. Quando, perante os montes de papéis deixados por meu bisavô e por meu avô e as notas e apontamentos que fui tomando nas conversas com meu pai, me aventurei a escrever esta narração, para que a verdade não fique para todo o sempre sepultada na minha cabeça, em cujos muitos e nebulosos corredores tantas ideias se perdem e transviam, mudando, por vezes, subitamente de rumo ou caindo em traiçoeiros alçapões que, sob os trôpegos pés do meu pensamento, sem aviso se abrem, quando meti mãos a esta tarefa, vi logo que me estava a meter num grande sarilho. Porque entre os apontamentos do calígrafo, as notas do debuxante de mapas – onde, nuns e noutras, de quando em vez, irrompia a figura incandescente do almogárave – relendo o registo sobre as conversas com o anadel do alcaide-mor de Lisboa, os relatórios dos espias,  o frade se viu perante um molho de retalhos que era preciso transformar, como já vos disse, numa manta sob a qual se abrigasse do frio da mentira, se não toda, pelo menos alguma verdade. Entre cada um dos textos que meu bisavô e meu avô me legaram, escritos nas suas bem desenhadas letras, e cada uma das seroais narrativas de meu pai por mim anotadas, havia lapsos, um ou outro hiato, que tive de colmatar com leituras, com a consulta de mestres que foram tornando públicas as suas descobertas.

Em alguns casos – porque não confessá-lo – recorri mesmo às douradas linhas da imaginação para cerzir estes pedaços da história que me propus contar. Farei, por certo, muitas vezes a figura de profeta do dia seguinte, pois incluo aqui em eras de alguma escuridão – e, de certo modo, todas o são! – Luzes que chegaram depois, trocando assim a ordem aos tempos. Mas vamos, então, à história.

Ah! Só mais uma nota – quando peço a palavra nas reuniões em que debatemos alguma questão, logo se agitam, qual seara batida pelo vento, as tonsuradas cabeças dos irmãos e um vendaval de murmúrios se levanta. Mais jovens do que eu, quase todos, dizem, para me tentar comprar, que possuo um elevado poder de oratória e, como poucos, o condão de, logo na primeira frase, sintetizar tudo o que em seguida exponho e desenvolvo, quanto a eles, com demasiadas e demoradas minúcias. O que eles querem, bem eu sei: que me fique pela primeira frase e os dispense da arenga que com que sempre os fustigo em seguida. Por isso me gabam a primeira frase, com a esperança de que ela dita, logo me cale. Nunca lhes faço a vontade – cansado de semanas de silêncio, falo, falo, até a voz me falecer e ver que a maioria dos irmãos já adormeceu. Mas não vos vou molestar mais com este prólogo, para mais a vós que não sois frades da minha ordem. Se quiserdes, passai este antelóquio adiante. Não me ofenderei. Porém, vou já terminá-lo, pois não vá, como já tantas vezes me aconteceu noutras edificações oratórias, ficar maior o pórtico do que a catedral.

Negócio no Paraíso-Capítulo 3

Lisboa, noite de quarta-feira, 23 de Agosto de 1485.

 Estamos no final de um dia muito quente e no princípio de uma típica noite de Verão – Lua cheia que começa a subir num céu pálido a poente, onde ainda se vislumbram tons de avermelhado e de ouro, o sangue dourado dos últimos despojos do crepúsculo. Os astros vão acendendo-se aos poucos, tremeluzindo, como que temerosos. Dentro das modestas casas de morar, faz demasiado calor para se poder ficar no seu interior. Os palácios, com as suas espessas paredes de pedra, esses sim, conservam a frescura, mas, apesar disso, bebe-se hidromel em jardins de murmurantes fontes, lêem-se poemas, canta-se a capella, prendadas donzelas executam trechos em rabecas, flautas duplas, saltérios, moços oferecem flores ou furtivos beijos a moças… em suma, poeta-se, canta-se e namora-se… Por isso, a esmagadora parte da população da cidade, aquela que não vive em palácios, está na rua, à porta de suas casas, conversando com os vizinhos, bebendo água, vinho tinto, branco ou bastardo, aguardente… Os homens jogam aos dados e bebem sentados nos degraus das soleiras, as mulheres trocam informações domésticas, tecem pequenas intrigas, jovens trocam furtivos beijos, fala-se, canta-se e namora-se. Há ainda crianças acordadas, brincando, correndo pelas ruas e travessas iluminadas pelo luar nascente e por archotes de resina. São mais de sessenta mil almas distribuídas por cerca de quatrocentas ruas, dentro da muralha nova, com as suas trinta e cinco portas e postigos, por onde se entra e sai de Lisboa. A cidade recusa-se a adormecer, pois o calor é muito. Como se um impiedoso dragão de fogo a bafejasse.

Na Travessa da Porta de Santo Antão, na passagem para a Rua da Mancebia, há duas tavernas. Numa delas, a de pior reputação e que é conhecida pelo poético nome de Paraíso, alfurja frequentada por um ou outro mesteiral, por homens dos que andam nas naus, mas sobretudo por indivíduos desocupados ou ocupados em inconfessáveis tarefas e, claro, pelas mancebas que sempre fazem destes antros o seu habitat de negócio, entram dois homens que logo se vê não ser animais daquela floresta. São ambos relativamente jovens, entre os vinte e os vinte e cinco anos. Um deles, franzino, estatura meã, cabelo cortado curto quase à moda antiga, à camorro, como aqui costumamos dizer. Está vestido com asseio, mas com simplicidade: um saio branco de tecido leve descendo sobre um calção de chamalote pardo e uns borzeguins de cabedal atacados até ao joelho. Na cabeça um capeirão pontiagudo. É o vestuário próprio de um aprendiz ou oficial de um mester modesto. O outro, de rosto trigueiro, um pouco mais robusto, mas também de estatura meã, usa os cabelos escuros, compridos, limpos e bem penteados. Está trajado de forma mais elaborada, embora sóbria: um mantel de cambraia negra rematado por um cabeção, com qual oculta parte do rosto, vestido sobre uma camisa de cetim branco, calções cinzentos de balão sobre meias de seda negra e botinas. Um chapéu de duas abas em feltro preto completa um vestuário caro que, em suma, denuncia alguém pertencente a uma classe profissional elevada – talvez um advogado, um tabelião, um secretário, um escrivão, um contador.

            As conversas param no tugúrio que tresanda ao sebo das velas, a corpos mal lavados, a comida requentada, a vinho – o característico odor da miséria e do desprezo pelas convenções impostas por quem domina. Jogadores de dados, mancebas, simples bebedores, mesteirais e homens dos que andam nas naus, param para ver aqueles dois seres, ali completamente deslocados. Que quererão? O de roupa mais modesta, vai à frente abrindo caminho. O outro segue-o, ocultando o rosto unindo com uma das mãos os bicos do cabeção – para esconder as feições ou para se proteger do mau cheiro? O da frente pára junto de uma mesa onde três homens, falam em voz baixa, bebendo vinho por canecas de barro e comendo favas cozidas que tiram, à vez, com colheres de uma escudela de estanho colocada no centro da mesa. Um pão grande que vão cortando com facas bem afiadas completa a frugal refeição. O rapaz do cabelo à camorro pára e diz com um sorriso:

            – Boas noites!

            Os outros olham os recém-chegados. Um mais velho, encorpado, de olhos cinzentos, cabelo crespo e castanho claro e com uma cicatriz que, como um rio de leito avermelhado, lhe percorre o rosto da testa ao queixo, crava a sua faca no tampo da mesa, marcando, com este gesto desnecessariamente agressivo, uma pausa na ceia e faz-lhes sinal para se sentarem enquanto limpa os dentes com uma unha. É Estevão Nunes, antigo sapateiro que se dedica actualmente a pequenos delitos (às vezes não tão pequenos quanto isso…), mais conhecido pela alcunha de Gato Pardo. Os dois comparsas, um magro e de cabelo alourado e sujo que se chama Gaspar e o outro quase calvo e mais gordo cujo nome é Fernão (e que não atingiram importância criminal para ter alcunhas), com a deferência que se deve a bons clientes, vão a uma mesa vizinha buscar escanos desocupados para os dois jovens visitantes. A curiosidade em redor parece ter cessado. Os olhos desviam-se prudentemente, as conversas reatam-se, pois as pessoas que ali estão sabem que a curiosidade não é hábito salutar – além de ser uma falta de educação, constitui um perigo. Por outro lado, deve respeitar-se a confidencialidade de um negócio alheio. Afinal, ali também existem algumas convenções. Quando todos os cinco estão sentados, o Gato Pardo vai directo ao assunto e pergunta:

            – Para quando é o trabalho? – O jovem do cabelo curto é quem responde, depois de um olhar para o companheiro:

– Sexta-feira, depois das Trindades – e completa – pagamos agora metade e o restante logo que esteja terminado, como combinámos. Estevão Nunes abana a cabeça numa negativa:

            – Não. O valor que disseste terá de ser um pouco aumentado – acrescenta após uma pausa – Estivemos a ver o local, soubemos melhor de quem se trata e há dificuldades de que não falaste e que, portanto, não estavam previstas….

            – Quanto? – É sempre o do cabelo curto quem fala, o outro apenas escuta.

            – Por menos de cinco mil cruzados, não fazemos o trabalho – o tom é de desafio, preparado para o regateio.

            – Tanto? – O do cabelo curto olha para o companheiro. Este baixa a cabeça num assentimento – Está bem. Mas só trago os dois mil que combinámos – tínhamos falado em quatro mil.

            – Dás-me os três mil no fim – dá uma casquinada – Somos todos pessoas sérias – Fernão e Gaspar, que têm ambos uma expressão de idiotia, talvez defeito de geração, ou provocada pelo excesso de bebida, riem-se – Tu não me ias enganar. Sabes que isso era muito mau para a tua saúde – Mais risos alvares de bocas desdentadas.

            O do cabelo comprido, com o rosto encoberto a partir do nariz, olha-os com fria dureza, continuando sem proferir uma palavra. Os olhos escuros captam a luz das velas e devolvem-na em virotões de uma impiedosa crueldade. Aos poucos as risadas esfriam. Como se a quente noite de Estio tivesse sido atravessada por um sopro de frio gélido. Com a mão livre, sempre segurando as pontas do cabeção e sem deixar de fitar os três homens, o jovem moreno chama o outro que quase encosta o ouvido à sua boca. Quando se debruça, sobressai no pescoço, por debaixo do mantel, uma espécie de colar ou corrente de ouro de onde pendem numerosas medalhas com efígies de santos, crucifixos… Segreda algo que não conseguem captar, até porque lhes parece que as palavras são proferidas numa língua estrangeira, talvez em toscano, dirá mais tarde, em audição de juízo, o Gato:

            – Este senhor diz que qualquer erro ou inconfidência da vossa parte será punido com muita, muitíssima severidade – faz uma pausa e conclui – Porém, se o trabalho for executado com perfeição e a seu contento, podem contar com mais quatro mil cruzados, seis mil no total.

            Os três comparsas entreolham-se satisfeitos. «Ainda se fazem bons negócios, nestes tempos de crise», pensam. Os dois jovens saem do Paraíso. Só o do capeirão se despede com um aceno. Nas ruas, a noite caiu, finalmente e com ela vem alguma frescura. Sob um céu estrelado, a cidade pode agora adormecer.

A abóbada celeste é órbita sem fim,

Cidade de prodígios- capítulo 4

Lisboa, fim da tarde de sexta-feira, 25 de Agosto de 1485.

 Cidade prodigiosa, Lisboa é como uma jovem mulher – de carne aureolada por uma claridade azul, branca ou rósea, consoante a admiramos pela manhã, pela tarde ou pelo crepúsculo – mirando-se, galante e indolente, reclinada, sobre o brilhante espelho do rio. É, na minha opinião, mais sedutora e bela se, observada desde a Banda d’Além, a vemos ao meio-dia, iluminada por uma incandescente luz branca, gravada a talhe-doce e tecida em alvo cetim, de contornos bordados a linha de ouro e prata. Contudo, sendo uma donzela, a cidade é também em termos heráldicos, como sabemos, uma nave ladeada por dois corvos – um pousado à ré e outro alapado à proa. Nave cuja tripulação é feita pelas gentes que percorrem as ruas, becos, pátios, largos, travessas, medinas e aljamas. É precisamente nesta cidade e perto da aljama ou judiaria, junto da Porta do Mar, a S.João, que a nossa narrativa tem o seu começo.

Porém já não é meio-dia, o tal mágico momento em que a urbe fica resplandecente de tão branca. Estamos num fim de tarde do Verão do ano de 1485 e a sombra rósea do crepúsculo vai descendo sobre a cidade com uma subtil asa de veludo. O debuxante de portulanos e cartas de marear Lopo de Mateus está na sua oficina no beco do Mancelos debruçado sobre a mesa de trabalho. Nicolau, o jovem e aplicado aprendiz, que saiu há mais de uma hora, logo a seguir ao toque das Trindades, deixou-lhe os vasos de barro já com as cores preparadas, depois de ter esmagado os pigmentos no almofariz e os haver misturado na habitual emulsão de água, claras e gemas de ovo, servindo de cola. Pusera-lhe também um pouco de cobalto, para que a secagem se venha a fazer sem problemas. Cuidadosamente, cobriu os vasos com panos, para que a pureza das tintas não seja contaminada e alterado o seu brilho.

O mapa encomendado por um piloto está quase pronto. Falta só o elemento final: já desenhou a compasso o círculo da rosa-dos-ventos, marcando-lhe as 32 divisões da circunferência do horizonte, e colorindo-a com as tintas que Nicolau lhe deixou preparadas. Agora falta apenas colocar um pouco de ouro sobre a flor-de-lis que colocou por de trás da rosa náutica que ilustra o canto inferior direito da carta, dando-lhe orientação e permanente sentido, transformando-a num valioso instrumento de navegação. São horas de cear, Matilde vai ralhar-lhe pela certa, mas não pode deixar o mapa por acabar, pois o cliente vem buscá-lo no dia seguinte, logo pela manhã. Na verdade, gastou muito, mas não demasiado tempo conversando com o seu grupo de amigos. Pensa que gastou e não que perdeu. O grupo de amigos e as suas discussões, deixam-no cada dia, senão mais sábio, menos ignorante, pensa também enquanto corta a folha de ouro, à medida do desenho, decalcando-a sobre o pergaminho.

É um privilégio ter amigos tão doutos como o médico hebreu José Vizinho, também dado às ciências geográficas, e mestre Rodrigo, outro físico e cosmógrafo judeu, além do jovem sábio Martin Behaim, mais conhecido entre nós pelo nome de Martinho da Boémia, comerciante, astrónomo e cosmógrafo, homem, de muito saber, e que está a redigir um tratado, Da prima Inventione Guinee, baseado no relato do marinheiro Diogo Gomes. Como sempre, o debate foi apaixonante, pois estiveram a apreciar um exemplar de um livro impresso na Alemanha poucos meses antes e que Martinho adquirira para a sua valiosa livraria. Em Portugal ainda não começara verdadeiramente o prodígio da imprimissão e, por isso, ver, ter nas mãos um livro impresso, era algo de mágico. Os quatro amigos haviam partilhado, com emoção, essa magia. Porém, o convívio com a sapiência vai custar-lhe um ralho de Matilde das tranças de ouro, como continua a chamar-lhe apesar de agora a prata ter substituído o ouro de há vinte anos. Afinal, a casa fica a dois passos, ao cimo da Rua Direita de São João, a ceia será de novo aquecida e tudo quedará dentro da normalidade. Ela acaba sempre por lhe desculpar os atrasos, os esquecimentos. Lopo de Mateus acende uma vela, pois dentro da oficina a luz começa a escassear. Ouve três pancadas fortes e secas na porta. Vai abrir. Expressão de surpresa:

– Ah, és tu?. 

  Os Mateus – Capítulo 5

Escrevo estas linhas no ano de 1561 da era de Nosso Senhor Jesus Cristo. Nasci nesta cidade em 1488. Meu pai, Lourenço, viveu a aventura que vos narrarei em 1487, antes de ter casado com minha mãe, Débora, uma judia muito bela na sua juventude e mesmo depois. Tendo visto o caminhar do seu corpo e do seu rosto pela densa teia dos tempos, desde a linda jovem que me embalava junto do perfumado seio até à serena dama encanecida que me dava sábios conselhos, sempre me lembro de a achar muito bela. Por esta via, dizia meu avô Jacob Levi, com o ar solene de quem concede uma dignidade, elevada tença ou sinecura, eu ainda venho a ser hebraico, pois a condição de filho de Moisés se transmite pela linhagem materna. No entanto, não fui circuncisado e recebi o baptismo cristão na igreja de Santo António. Nunca tendo sido dado a grandes religiosidades, ao contrário do que indica a minha condição, para o mal e para o bem, sempre estive ligado à Santa Madre Igreja, desde o sacramento baptismal e dos bancos da escola catedral até agora, até à fria solidão desta cela no convento de São Francisco de Enxobregas. Escrevo para que certos factos não se percam no voraz turbilhão da memória do tempo. Escrevo para me libertar de fantasmas que me povoam sonhos e pesadelos. Pintando-lhes os feios rostos com as tintas pálidas do meu verbo, julgo exorcizá-los, e talvez deixam de me atormentar. Escrevo para me interrogar e tentar encontrar respostas – o que se passa no mundo? Por que muda o que é superficial, permanecendo imutável o que é importante e profundo?

*

            Meu avô, Lopo, foi um debuxador de cartas de marear e de portulanos, com alguma nomeada, deixando, entre a sua obra, sobretudo um atlas ainda hoje muito consultado por pilotos e capitães, pois além de fiáveis cartas e portulanos, inclui conselhos sobre a arte de bem utilizar os velhos e os novos instrumentos de navegação – o astrolábio, que antes se chamara anel graduado, o báculo de Jacob ou virga visoris, que deram lugar à balestilha, a agulha de marear e a bússola, o kamal, também conhecido por tábuas ou tavoletas da Índia… Não terá grandes novidades, mas possui o grande mérito de, num único livro, conter a informação e o saber que mais de um século de navegações permitiram que os Portugueses acumulassem. O que não é pequena vantagem. Terá nascido por volta de 1443 e a minha história começa quando tinha dezasseis anos e, na Torre Albarrã, aprendia a difícil profissão de copista. Meu pai sempre me elogiou, com tal vivacidade e emoção, a sua inteligência e bondade e de tal colorida forma o fez que quase tenho a sensação de que o conheci. Minha avó, a bela Matilde, ainda me embalou. Meu bisavô, Simão, era, na descrição de meu pai, um homem discreto, também copista e foi um dos ajudantes do insigne mestre Fernão Lopes, que, como se sabe, ocupou o elevado cargo de guardador-mor dos reais arquivos. Terá nascido cerca do ano de 1415, e casou com minha bisavó Branca Maria, que morreu quando eu tinha cinco anos e da qual apenas guardo uma recordação difusa – uma velhinha de rosto emoldurado por uma pulcra coifa engomada.

            Não conheci o meu avô Lopo, pois morreu relativamente jovem antes de eu ter nascido. Todos nós, de Simão até à minha insignificante pessoa, estudámos na escola-catedral, sem que nunca tenha passado pelas nossas cabeças vir a ser ordenados clérigos ou a obter grau académico. Quando nos admitiam no seio do seu ninho de saber, era para que aprendêssemos o que era indispensável para depois servirmos no Tombo. Esta benevolência tinha origem, não só no facto de sermos vizinhos da Sé, como, principalmente, num serviço que Bartolomeu, o almogárave, único analfabeto desta modesta linhagem, prestou a um sábio cónego, responsável perante o cabido pelo funcionamento do colégio que na Sé funcionava, homem que ali pontificava nos seus tempos de juventude, salvando-lhe, ao que se dizia, senão a vida pelo menos a clerical reputação, pois de negócio de saias se tratava – terá assumido culpa que ao cónego pertencia. História esta que não vos contarei, para que o honrado nome do bondoso mestre-escola, há muito finado, não sofra maior beliscadura do que o vago enunciado que aqui faço do seu honrado trato com Bartolomeu à sua memória possa causar. O que interessa salientar é que o único analfabeto desta longa cobra geracional que vem dos tempos dos cercos castelhanos até agora e que é a vida da nossa família desde que aqui arribou vinda da vila de Foz Côa, garantiu por mais de cem anos a ilustração e saber dos seus vindouros. Proeza que só um destemido almogárave poderia realizar. Este meu trisavô, todos na família o conhecemos por o almogárave ou por o terrível Bartolomeu, como também gostava de ser chamado. Nasceu por alturas do grande assédio a Lisboa posto pelos Castelhanos e foi criado num clima de insano ódio aos nossos vizinhos que combateu com valentia nas hostes do Condestável que invadiram território de Castela. Casou com Mafalda, uma jovem que conheceu durante as actividades guerreiras e que ousadamente raptou na vila de Condeixa. Mafalda morreu no ano em que deu Simão à luz. Levou-a o mesmo surto de peste que matou D. Filipa de Lencastre, no Verão de 1415.

Voltando à minha pessoa, digamos que sou um monge franciscano, não muito conceituado entre os seus irmãos, pois quando passo no claustro ou entro no refeitório, a minha nuca vê o gesto que fazem de levar os dedos à testa, aludindo ao meu juízo ou talvez à falta dele. Abrigo-me entre as pedras da cela, protegido das troças e dos trabalhos rudes que fiz enquanto a velhice não chegou e com ela o reumatismo e outras aquisições penosas. Bebo pequenos goles de água fresca do meu gomil de Talavera, escrevo e leio, desde o toque das matinas ao das completas. A idade libertou-me da penitência de cavar a almuinha do convento, tratando de hortaliças, de ervilhas, de feijões e de favas, trabalho que o irmão superior entendeu ser o mais adequado a um devorador de livros. Não escrevo para os meus contemporâneos – isso seria, nos tempos que vivemos, ajudado pela minha meia-ascendência hebraica, um atalho para a fogueira. Os Levis de Alfama eram ali uma conhecida família de honrados mercadores e talvez tivessem algo de comum com os Levis da Palestina, de que nos fala o Antigo Testamento, vindos da linhagem de Jacob e de Lia que só tinha direito a habitação e pastoreio nas chamadas «cidades levíticas». Nem sei se escrevo para alguém. Talvez o faça apenas para mim e quando chegar ao fim da tarefa, tenha um insólito ataque de sensatez e destrua estas laudas, queimando-as. Antes que sejam elas a queimar-me… Logo se verá, como costumava dizer o cego.

  O almogárave – capítulo 6

Lisboa, Primavera de 1459.

 – Rapaz, sabes o que é um almogárave? – Quase sempre que o via, o avô Bartolomeu lhe fazia esta pergunta. E, para maior infortúnio do jovem Lopo, o ancião via-o todos os dias, pois a família habitava, desde há muitos anos, toda na mesma casa, ou seja, Lopo, seus pais, Simão e Branca Maria, Maria Beatriz, sua irmã mais velha, moça bonita e já casadoura, seu irmão Antão, o mais novo dos três, ainda estudando na vizinha escola catedralícia e seu avô paterno, o tal velho e destemido almogárave. Ficava a casa da família Mateus na Rua Direita de São João, freguesia de São João da Praça, junto da Judiaria Grande, na aljama de Lisboa, mas, da casa propriamente dita, um pouco mais adiante vos falarei com algum pormenor. O que vinha a ser então um almogárave? Ora, não sabia Lopo outra coisa, pois ouvira centenares de vezes a pergunta e outras tantas a explicação, bem como as longas e complicadas, mas – reconheça-se – nunca enfadonhas, histórias adjacentes. Contudo, o obstinado velho, simulava não ouvir e nunca queria atentar na afirmativa resposta do seu jovem neto, pois decidira já que, fosse ela qual fosse, explicaria tudo de novo. Era fatalidade a que o pobre Lopo nunca lograva fugir:

             – Pois fica sabendo meu rapaz – recitava o ancião, sempre com o dedo indicador muito esticado – gesto que talvez dele tenha herdado no sangue, pois, sobretudo quando falo com gentes das mais novas gerações, me surpreendo com o indicador em riste – que um almogárave é um homem, um ginete audacioso, vestido de loriga e cota, munido de lança, adaga e às vezes de besta armada, que entra em correrias na retaguarda das hostes inimigas, onde fica a carriagem e se armazenam as provisões de boca, o gado bovino, os rebanhos de gado miúdo, as armas e munições de guerra, as alfaias dos artífices, os instrumentos e medicinas dos físicos, as mulheres que mitigam as necessidades dos soldados, porque, claro, os homens longos meses fora de suas casas… – o velho por esta altura da prédica ficava sempre um pouco tartamudo – bem esta parte explico-ta depois… – enfim, onde se guarda tudo o que é necessário ao funcionamento de um grande exército em campanha. Como dizia, o almogárave surge como se viesse do nada, silencia as sentinelas cortando-lhes as gorgomeleiras com a adarga, pilha, destrói, incendeia e mata e, realizada a sua fatal, mas necessária missão, desaparece, tão depressa como surgiu, como se nunca tivera existido ou como se fora uma nuvem em céu de Agosto – e completava a, mil vezes repetida, explicação, sublinhando com voz estentórea, terrível – eu sou um almogárave!

            Quando era mais pequeno, criança ainda de colo, Antão, irmão mais novo de Lopo, o benjamim da família Mateus, desatava em aterrorizado berreiro quando o velho gritava no sempre apoteótico final da sua estafada crónica guerreira. A rogo da nora, Bartolomeu lá condescendia em baixar um pouco o tom da voz, resmungando porém:

            – A chorar? Ora, está visto que filho de copista, de iluminista, de calígrafo, ou lá o que é isso que todo o dia fazeis na Torre Albarrã, filho de escriba, temeroso sai! – E repetia para Lopo, agora num tom de voz mais baixo – Escuta bem meu rapaz, eu sou um almogárave!

            O velho Bartolomeu dizia sempre «eu sou» e não «eu fui», como deveria dizer, pois estava a falar de coisas acaecidas cinquenta anos antes, anteriormente à era em que Portugal celebrou a primeira paz com Castela, a precária paz de Segóvia, no distante ano de 1411. E acrescentava sempre com um ar de superioridade:

            – Mas, que sabem tu e teu pai, calígrafos, copistas que sois, destas coisas de armas? Tempos difíceis os de hoje, dizeis. Não, bofé, tempos difíceis foram esses, os meus! – E, se a conversa tinha lugar na rua, cuspia sobre a calçada. Porém, sempre que falava do «seu tempo» o olhar iluminava-se-lhe e a voz parecia crescer de emoção e vigor.

            Porque, dizia o idoso Bartolomeu, apesar de muito mais difíceis do que os actuais, esses tempos eram, apesar da terrível Peste Negra e da interminável guerra com Castela, incomparavelmente mais belos. Sim na verdade o céu era muito mais azul, o sol bem mais quente e luminoso, o vento mais perfumado, o odor do mar mais salgado e penetrante nos sentidos, os frutos mais saborosos, as aves mais belas e mais subtil e sedoso o seu voo, as moças mais formosas, ainda que mais, muitíssimo mais, recatadas. Tudo era mais difícil, mais duro. Mas tudo era melhor. Difícil era compreender os anciãos, pensava Lopo. Nem todos, no entanto. Na realidade, o rapaz conhecia um ancião, calmo sábio e ponderado, bastante diferente do que seu avô era. Parava ao fim da tarde pela locanda do mestre Samuel Levi, que a velha tabuleta de madeira indicava ser a Taverna do Falcão Azul, na Rua da Porta do Mar, ali mesmo, a dois passos da Catedral. Nos dias de maior calor o jovem ia ali beber uma água muito límpida e fresca temperada com limão e adoçada com mel de abelhas, que quase sempre acompanhava com uma cidrada deliciosa, dessa que se costumava comer por alturas das festividades do Natal, mas que o engenhoso hebreu tinha artes de vender durante todo o ano. Das bandas de Enxobregas, onde agora eu me acho em protegida clausura, lhe chegavam tais mimos, dizia aos clientes.

Um vizinho de Alfama – capítulo 7

O ancião que ele entendia ser bem diferente de todos os outros que conhecia, daqueles que só elogiam o passado, sempre condenando o presente e temendo o futuro, era um senhor fornido de carnes, bem trajado e de gestos lentos e calmos. Em resposta à questão levantada por Lopo, respondeu-lhe que, em boa verdade, todos os tempos são difíceis, embora o possam ser de maneiras sempre diferentes umas das outras. E isto já parecia ao rapaz ideia mais fácil de aceitar. E porque devia ser quase da mesma idade que o seu avô, perguntou-lhe se cinquenta anos antes o céu era mais azul, o sol mais quente e dourado, o mar mais oloroso a sal, as aves de penas mais brilhantes e voo mais subtil, os frutos mais acetinados e saborosos e as moças mais belas e recatadas. Riu-se muito, com evidente gosto. Pensou um pouco e respondeu que sim, que, sem dúvida, nessa altura a sua jovem pele sentia muito melhor o calor do sol, a sua vista, o seu paladar e o seu olfacto eram bastante mais apurados e, portanto, o céu lhe parecia mais azul do que agora que quase o via cinzento e tudo, incluindo o voo das aves, lhe parecia mais belo e glorioso do que agora. Quanto às moças, não estava, de modo algum, de acordo com o avô de Lopo – menos recatadas as de agora, talvez o fossem, mas menos formosas, nem pensar – As jovens sempre são belas, seja em que era estivermos – concluiu.

            O rapaz era, por essa altura, e desde há quase um ano, altura em que terminara os estudos na catedral, copiador no Tombo. Seu pai, Simão de Mateus, que também ali trabalhava desde muito jovem, lhe ensinara, com diligência e amor pela arte, os rudimentos complicados, os quase segredos da profissão, das misturas das tintas e pigmentos, à textura e gramagem dos papéis, pergaminhos ou velos e, muito importante, à escolha de cálamos, penas e pincéis adequados a cada tarefa – certidão, crónica, livro de horas… E Simão, embora não tivesse ainda quarenta anos, já ia dizendo que na sua geração se copiava e escrevia bem melhor. Que àquilo que Lopo e os outros moços aprendizes faziam só por muita bondade do senhor guardador se poderia chamar cópias. Ia o jovem Lopo, portanto, aprendendo que, de era para era, de geração para geração, as coisas iam sempre piorando e que lhe coubera viver o tempo mais desgraçado desde a criação do mundo. Naturalmente, tal ideia não o preocupava demasiado.

A bem dizer, as suas principais preocupações eram outras muito diferentes. Enquanto a filha do tanoeiro João, a linda vizinha Matilde lhe sorrisse da sua janela, incendiando de luz as manhãs que iria passar na escura torre Albarrã, copiando alfarrábios, iluminando letras capitais, bem podiam os tempos ir piorando, pois para ele sempre melhores os sentia. Se, ainda que apenas em sonhos, a pudesse amar e ter a ilusão de ser um pouco correspondido (ultrapassando as pretensões de Julião Fernandes, seu amigo, companheiro de escola e, desde há meses, seu rival), se assim fosse, suportaria alegremente o infortúnio de viver tempos tão ruins e adversos, nos quais, para cúmulo, até o fim da sua tão ancestral profissão se anunciava. Na verdade, o mestre Gonçalo, zelador dos aprendizes de copistas, dissera dias atrás, no meio do pasmo e riso gerais, que, nas Alemanhas, se havia inventado um engenho que permitia fazer mais de cem cópias sem intervenção de copistas ou calígrafos. E fizera um desenho de uma confusa geringonça com duas pernas e dois pés, dois someiros grandes e dois pequenos, uns em cima e outros em baixo de uma grade com correntes de ferro… Coisa complicada e sem nexo, mais parecendo um aparelho de lagar. Os moços aprendizes riram muito e com eles o próprio mestre Gonçalo acabou por acompanhar a chufa. Mais de cem cópias quase sem intervenção humana… Ora! Quem quisesse que em tal acreditasse!

            Nessa noite, à hora da ceia, quando comentou com seu pai a bizarra novidade, Simão disse que era verdade, nas Alemanhas estavam a avançar com essa ideia – e falou de uma coisa de que nunca o rapaz ouvira falar – «imprimissão» – a técnica de gravar caracteres no papel, reproduzindo muitas cópias em pouco tempo. E seu pai estava geralmente bem informado sobre o que ocorria no mundo, pois todo o tempo livre era dedicado ao estudo, à leitura e ao aperfeiçoamento do latim que, tal como Lopo, aprendera à força de chibatadas com os frades da escola da Sé catedral. Apesar de tudo, não ficou preocupado. Para falar verdade, depressa esqueceu o assunto. O tal circunspecto ancião de quem já vos falei e ao qual, a seu pedido, mostrara já exemplos da sua caligrafia, afiançou, ao contrário do que o pai sempre augurava, que, se estudasse e porfiasse, viria por certo a ser um bom copista. E logo aquele senhor lhe pareceu ser pessoa bem entendida no assunto, pois sobre o tema fez algumas daquelas perguntas que só as pessoas de muito saber costumam fazer – perguntas que, se as soubermos escutar, já transportam a resposta no ventre. Afirmou conhecer as tais crónicas em cujas cópias o rapaz trabalhava.

Dias depois, quando cismava ainda na preocupante afirmação de seu avô sobre o declínio crescente da felicidade do mundo e das pessoas à medida que o tempo avançava, disse-lhe que o cronista dos conturbados tempos do cerco, época em que, mais ou menos, o seu interlocutor devia ter nascido – tão velho era! – Afirmava que a geração seguinte à do assédio, justamente a dele e a de seu avô, apesar de tanta tormenta que sobre ela caíra, foi bem-aventurada relativamente à que viveu a desgraçada era do cerco castelhano. E logo o ancião, lestamente, citou de memória o trecho que o jovem recitara por palavras suas: «Ó geração que depois veio, povo bem-aventurado que não soube parte de tantos males nem foi quinhoeiro de tais padecimentos!». Aquele homem sapiente e grave parecia também conhecer todos os cantos e recantos da Torre Albarrã, o casarão rente à cerca velha onde os copistas trabalhavam. Foi ele também quem disse que o senhor D. Afonso II ali mandou guardar o tesouro real e a respectiva documentação. Servia também de depósito para o produto dos impostos e rendas. Por isso lhe chamavam também Torre do Haver. El-rei D. Fernando, de tão triste memória, mandou lá recolher o arquivo do Estado. Contudo, por essa altura, o serviço mais importante que ali se prestava era o de passar certidões de livros de inquirições, de chancelarias, de aforamento, de doações, etc. Eram requeridas pelo contador e passadas pelo notário público. Disse também que, a partir de certa altura, pela era de 1418, começou a Torre a ter outras mais nobres missões, tais como a de pôr em crónicas as histórias dos reis que antigamente em Portugal reinaram, bem como a de exaltar os seus grandes e numerosos feitos e virtudes. Algumas dessas coisas Lopo as sabia de sobejo, e assim o disse ao seu sábio companheiro, pois eram precisamente essas crónicas que dia após dia copiava, para satisfazer encomendas de casas nobres e abadias, iluminando com belas letras capitais que mereciam algum contido elogio de mestre Gonçalo. E acrescentou:

            – Meu pai disse-me que foram escritas pelo anterior guardador das escrituras, o senhor mestre Fernão Lopes.

            – De pouca valia terá sido esse escrivão, não te parece rapaz? – Perguntou franzindo os olhos.

            Apesar de cordato e respeitoso, o jovem ficou profundamente agastado com o tom de desdém que povoava a voz do velho senhor:

            – Não diga isso, senhor, nem por gracejo! A mim, tantas horas mergulhado nas suas palavras tão vivas e mais eloquentes do que uma brilhante pintura, afigura-se-me pessoa de vasto saber – e Lopo, num assomo de honestidade, acrescentou – Também é verdade que a minha opinião de pouco ou nada vale, pois, segundo o meu avô e o meu pai, nasci num tempo em que Deus Nosso Senhor preferiu ser demasiado avaro na distribuição do siso, mas, mesmo para o meu pai que é exigente em seus juízos, o senhor mestre Fernão Lopes é o mais sábio dos homens.

            – Pois dize a teu pai que, se quiser subir em valimento e haveres e, até, em segurança, não deverá defender opiniões como essa – a dureza aparente destas palavras era suavizada pela emoção com que as proferiu. Não percebeu o rapaz bem o que ele queria dizer, mas recados destes não os levava a seu pai. A vergasta com que lhe punia os desaforos tinha estado inactiva a bem dizer desde que terminara os estudos na escola- catedral. Agora era o petiz Antão quem, de quando em vez, lhe tomava o peso. Muito lhe aprazia que assim fosse. Mas não convinha abusar da sorte.

A raposa e o rato- Capítulo 8

 Lisboa, manhã de domingo, 20 de Agosto de 1485.

A mulher, bonita, roliça e ainda jovem, com uma mantilha negra cobrindo-lhe a cabeça, vem abrir a porta. Parado ao cimo da escada, depara-se-lhe um moço cuidadosamente trajado. Um visitante jovem, mas com um ar austero, quase assustador. Sob a aba do chapéu, uns olhos escuros perscrutam-na, parecendo capazes de lhe ler o pensamento. A voz é seca e as palavras cuidadosamente pronunciadas, com um acento estrangeiro:

            – Quero falar com ele.

 A mulher, compõe com os dedos o cabelo escuro sob a renda da mantilha, enquanto diz para dentro:

            – Está aqui um senhor para falar contigo – afasta-se para o estrangeiro passar.

            Um rapaz magro, de cabelo cortado curto, vem do interior da casa onde estava a barbear-se, preparando-se para ir à missa na Sé.

            O visitante é um jovem moreno de estatura meã, bem trajado com roupas leves cobertas com uma capa rachada em tecido de cambraia. Na cabeça um capeirão cuja aba dianteira quase lhe cobre o rosto. Atavios de cores escuras, austeras. Entra sem retirar o chapéu. Olha em redor, o ambiente modesto da casa, como que avaliando-o. Esboça um sorriso irónico ao ver uma profusão de crucifixos e de imagens de santos. O jovem convida-o a sentar-se, enquanto com uma toalha limpa da cara os restos de sabão. O visitante senta-se e num português correcto, mas com forte acento, pergunta:

            – Então já me sabes dizer quando?

            – Na próxima sexta-feira, depois das Trindades.

            – Porquê? – Não pode ser antes?

            – É o dia em que… – olha a mulher que está parada a escutá-los… os sábios hebreus, o costumam visitar. Não vai poder sair muito cedo, tanto mais que no sábado tem um trabalho para entregar – e conclui – depois de eles saírem ficará sozinho.

            – Seja então sexta-feira. Temos de falar com o tal Gato Pardo – e levanta-se – o moço, com algum embaraço, pergunta-lhe:

            – Não lhe farão mal, pois não? – O estrangeiro, leva os dedos da mão direita ao seu colar. Ri-se:

            – Claro que não! Uns safanões quando muito… – depois aponta os santos e os crucifixos – Os conversos são sempre exagerados a ostentar a conversão – ri-se e acrescentou voltando para o casal uma máscara onde já não há riso, apenas um ar taciturno, ameaçador – Cuidado. Os verdadeiros cristãos sabem isso! – e sai sem se despedir.

            O rapaz olha a mulher que foi fechar a porta. Ouvem os passos do estrangeiro descendo os degraus:

            – Não sei se devia fazer isto. E se o maltratam?

            – Uns safanões, tu ouviste. Que mal lhe podem fazer uns safanões?

            – Não sei, temo…

            – Não temas. Vai correr tudo bem.

            – Mas devo-lhe tanto, foi como um pai para mim.

            – Ah foi? Não terá sido mais como um amo para ti? Não tens sido um servo? Não lhe fazes os recados? Não preparas a mesa para ele e os amigos merendarem? Estudaste na escola-catedral, como o filho?

            – Bem, ensinou-me a profissão…

            – Ora, ora! Uns safanões não o vão matar. E o dinheiro faz-nos falta – e encaminhando-se para a porta – Anda, não percas mais tempo, vamos à missa. Ainda chegamos atrasados.

Espinafres por códices – capítulo 9

 Mosteiro de São Francisco, Inverno de 1561.

 O mosteiro de São Francisco de Enxobregas dista dos muros da cidade, para Oriente, um terço de légua. Neste albergue de cinquenta e cinco frades menores de observância, tem decorrido a minha vida, de modo tranquilo. São dias feitos de silêncios, de refeições acompanhadas pela leitura das Sagradas Escrituras, de meditativos passeios pelo claustro e pelo pinhal que envolve o mosteiro, de toques de sinos a horas certas – das Matinas às Ave-marias, das Laudes às Completasde recolhimento à sombra da cela que se transformou na carapaça onde abrigo uma vida de tartaruga. Frades cenóbios, observantes ou de observância, são os que seguem a regra e o exemplo da vida de recolhimento e mendicância levada pelo nosso santo fundador, il poverello. No Reino, além dos observantes, a ordem acolhe monges claustrais, que ensinam Teologia ou tentam moderar as tentações mundanas que flagelam os grandes, integrando, como conselheiros ou confessores, o pessoal da Corte.

Pessoas há que nascem para navegar a existência sem aventuras. Sou uma delas. Talvez por isso, tanto me entusiasme a evocação dos feitos de meu pai e de meu trisavô. A tartaruga inveja a lebre – interrogo-me se não sucederá também o contrário. Meu bisavô e meu avô viveram, como eu, vidas ordenadas, pacatas, honestas. Descoloridas, como são as vidas ordenadas, pacatas e honestas. Tendo em conta os meus estudos de Latim, Ética, Filosofia e outros temas humanísticos, para não falar das Sagradas Escrituras, saberes adquiridos à força de chibatadas com os bons clérigos que ensinavam na escola catedralícia da Praça dos Escanos, esperava que me fosse confiada a biblioteca que, como pude observar quando aqui cheguei, estava num caos em que só o irmão Bernardo, o velho bibliotecário, se sabia orientar. Se lhe pedíamos um livro, o santo homem lá ia encontrá-lo sem hesitação, entre os milhares de códices, em pergaminho ou papel, que as estantes acolhiam. Acocorava-se rente ao chão ou trepava a escadas de madeira, com uma rapidez que, dada a sua avançada idade, nos fazia temer pela sua segurança. Porém, se queríamos ser nós a encontrar a obra pretendida, bem podíamos desesperar, pois a bússola que permitia navegar aquele oceano de conhecimento, perdia-se nos esconsos labirintos da bernardina mente. A ordenação pela qual arrumava os muitos espécimes do espólio, não era alfabética em relação aos títulos, nem temática, nem onomástica, estabelecida por afinidades idiomáticas ou quaisquer outras… O sistema parecia ser algo de iniciático. Uma vez em que buscando um livro, o questionei sobre o seu método de arrumação, se assim podia chamar àquela barafunda, tendo-o veladamente, censurado, ouvi do velho Bernardo um resmungo logo seguido de um anexim: «A colher é que sabe da quentura da panela». Parecia ser um caótico universo onde os astros colidiam entre si, porém Bernardo, seguindo regras que só ele conhecia, mantinha tudo a funcionar sem atropelos, numa ordem que Nosso Senhor não consegue impor ao desatinado mundo em que vivemos. Foi-me mais fácil, na infância, entender o mistério da Santíssima Trindade do que a explicação que o irmão Bernardo me deu, mais do que uma vez, quando tive de recorrer ao saber acumulado no seu feudo de papel, pergaminho, velo e, sobretudo, muita poeira, feudo compartilhado com as numerosas, e mui sábias, aranhas que por ali teciam e continuam a tecer suas teias.

            Quando disse ao superior do convento, o abade Malaquias, da minha pretensão de ajudar o irmão Bernardo e de o poder vir a substituir num futuro que a Natureza iria estabelecer, pois Bernardo ultrapassara já nessa altura os setenta anos e, embora estivesse longe de mim o querer impor limites à generosidade divina, parecia evidente que não poderia manter-se por muito mais tempo no seu lugar. Porém, o superior opinou que eu era demasiado jovem para uma tarefa tão exigente em experiência e encontrou-me uma ocupação que entendeu ser semelhante à que eu pretendia. Fui encarregado de tratar da vasta horta do convento que descia por uma verdejante encosta até às mansas águas do rio e de me habilitar nas misteriosas artes de bem semear e colher os legumes com que se cozinham as substanciosas sopas e saladas desta pequena comunidade de frades e servidores. Um velho monge, tolhido pelo reumatismo e pela artrite, o irmão Afonso, semi analfabeto, mas sabedor de tudo ao que plantas, ervas, hortaliças e flores dissesse respeito, foi o meu mestre. Tudo o que sei de horticultura e floricultura lhe devo, para não falar nos muitos anexins que com ele fui aprendendo. Era uma cena diária que, sobretudo os noviços, não dispensavam – o irmão Afonso, sentado num escano, dando-me as suas instruções e rindo depois até ficar roxo e quase sufocar perante o espectáculo da minha inabilidade e eu, esforçando-me, de enxada ou ancinho em punho, resmungando e maltratando os canteiros e leiras. Porém, como quase sempre acontece com todas as coisas, embora, até então, mal distinguisse um pinheiro de uma macieira, acabei por aprender e me tornar um hortelão, senão competente, pelo menos razoável. Mesmo quando nos julgamos perdidos e nos achamos imersos em trevas, mergulhados em profunda escuridão, à força de muito tropeçar e de bater com a cabeça nas paredes e nas traves do tecto, acabamos sempre por encontrar uma salvadora saída para a luz.

Foram mais de trinta anos a sachar, a mondar ervas daninhas, suspenso do brotar dos rebentos das hortaliças, dos feijões, favas, nabos, espinafres, alfaces, ervilhas, chícharos, alhos, salsa, cebolas e cebolinhas, cenouras, beringelas, lentilhas, rábanos. Podando árvores de fruto, figueiras, macieiras, amoreiras, nespereiras, laranjeiras… Semeando bolbos de flores, que o abade e o prior queriam vê-las a enfeitar o refeitório. Atento aos calendários hortícolas e aos muitos e quase sempre acertados, mas mui estultos provérbios. – Hortelão sem hortelã, não tem horta amanhã, horta sem água, casa sem telhado, há chuva que seca e há sol que rega, a má erva depressa nasce e tarde e tudo envelhece, não é pancada de vara que amadurece a azeitona, a erva Maio a dá, Maio a leva, a má erva mata a boa, a lavrador descuidado os ratos comem o semeado e por aí fora…

            Bernardo, passados já os cem anos, entregou a alma ao Criador e julguei chegada a altura de a biblioteca ficar ao meu cuidado. Quantas vezes, sachando, regando, colhendo ou mondando, pensava engenhosos métodos de organização para aquele acervo de saber. Mas não. Que estava, disse o prior, demasiado velho para uma tarefa sequiosa de um espírito jovem aberto às coisas novas que o mundo apresenta. Esta foi, portanto, a douta opinião do novo superior, pois o que ditara a sentença oposta falecera já. O irmão Emanuel, um jovem noviço, sobrinho de um senhor bispo, ficou encarregue dessa tarefa que eu tanto ambicionara. Manda, no entanto, a verdade que se diga que, embora demasiado efeminado para o meu gosto, cumpre o seu trabalho de acordo com as regras da ciência biblioteconómica. Porém, fere-me esta mágoa de, na opinião da comunidade que constitui o meu universo, nunca ter passado pela idade madura – de jovem criançola inexperiente logo passei a velha e inútil carcaça. Como quem saltasse do berço para a tumba. Mas um homem habitua-se a tudo e, eu que passei tantos anos a lamentar a minha sorte, amaldiçoando hortaliças e frutos, foi com tristeza que, tal como decerto acontecera ao irmão Afonso quarenta anos antes, quando os meus rins já não suportavam a posição curvada que a profissão de hortelão exigia e o irmão físico me proibiu de fazer esforços corporais (além de outros problemas – o coração tinha, disse, um leve sopro), foi com tristeza que abandonei essa desinteressante labuta e recolhi à frescura da minha cela, entregue aos meus livros e escritas.

Tenho ademais a responsabilidade das contas da comunidade, de gerir os parcos meios económicos que nos chegam de prebendas e dádivas. Trabalho fácil, pois os proventos são poucos. Não temos renda certa – vivemos de esmolas, das missas rezadas e de algumas ofertas de trigo, azeite, vinho, carne que pedimos pelos limites e comarcas da cidade. Nesta economia a horta, as capoeiras e o curral representam um papel importante. Irmão ecónomo me chamam agora. Porém, não me privo de, quando os olhos se cansam de ler e escrever e de fazer e assentar contas das receitas de esmolas, óbulos e outros proventos, como, por exemplo, a venda dos produtos hortícolas, de galinhas, patos e respectivos ovos, vir até à horta, vigiar as plantas e, gozando do privilégio que os velhos sempre têm, de poder arremessar sentenças aos jovens, esticar o dedo e dar alguns ensinamentos ao jovem hortelão que me substituiu. Trata-se de um rapaz forte e corado, vindo das Beiras, nascido junto de couves, de ervas, de criação de toda a espécie e que, mesmo antes de lhe terem irrompido os segundos dentes, já me poderia dar lições de horticultura. O pobre ouve, de cabeça baixa os meus ensinamentos, se assim se lhes pode chamar, e suporta sem queixas as minhas censuras disparatadas. Terá de esperar algumas décadas para, por seu turno, poder desempenhar o mesmo papel junto de quem o vier substituir. Nessa altura já cá não estarei para assistir a essa cena e quem vier atrás que feche a porta e sopre o pavio da candeia.

            A função de ecónomo deixa-me tempo livre – dedicado a plantar, sachar, regar, mondar e a colher vocábulos. Hortelão de palavras, sou agora. Os oitenta anos vêm aí a galope e resolvi não deixar para mais tarde uma tarefa que fui adiando, sobretudo pelo receio de me meter numa embrulhada de difícil saída – narrar a história do mapa que envolve várias gerações da minha família – do meu trisavô almogárave, passando pelo meu bisavô copista do Tombo, pelo meu avô desenhador de mapas e portulanos, e pelo meu pai anadel da alcaidaria de Lisboa. Se me incluísse na lista, seriam cinco gerações. Mas o que pode acrescentar a esta panóplia de gente que, de uma maneira ou outra, teve existências notáveis, o obscuro trajecto de um escrivão judicial, frade ou hortelão, ecónomo…? Pouco ou nada. Diga-se que, apesar do tronco seco em que me transformei, a árvore frondosa dos Mateus continua a dar frutos, a estender os seus ramos para o céu. José, meu irmão mais novo, impressor, casou, tem dois filhos e um neto varão. Por insistência minha, seu padrinho de baptismo, chama-se Bartolomeu. Tem quinze anos e é assomadiço como o almogárave. A interminável cobra dos tempos, desta vez, morde gentilmente a cauda.

            Embora, pela disciplina da ordem, aos frades esteja vedado possuir bens pessoais, dada a minha idade e a crescente fraqueza das pernas, o actual prior, o irmão Pedro, autorizou-me a ter na cela uma pequena, mas bem provida biblioteca que trouxe da casa de Alfama. São obras legadas por meu bisavô e por meu avô. Aqui guardo as memórias e notas que me deixaram e os apontamentos tomados nas conversas com meu pai. Bem como um códice iluminado e escrito em hebraico. Quando me finar, os livros passarão para a biblioteca do convento e ficarão, segundo tudo o indica, à guarda do irmão Emanuel. Foi o acordo que comigo estabeleceu o prior. Trouxe também um gomil de louça de Talavera que, cheio de água pura tirada do poço do claustro, serve para, de quando em vez, deitando-a para o copo de estanho com que lhe cubro a boca, mitigar a sede que as recordações me provocam. Comprou-o, há cento e dois anos, minha tia-avó Beatriz num tendeiro da Rua Nova dos Mercadores.

A casa da Rua Direita- Capítulo 10

Algumas laudas atrás, prometi descrever a casa dos Mateus na Rua Direita de São João. Nãé de conveniência que deixe pormenores para mais tarde, pois se o faço, o mais certo é que, como tantas vezes me sucede, me venha a esquecer do que com boa-fé prometi e a dívida acabe por não ser paga. E, na verdade, a descrição da nossa casa faz alguma falta, não só para que se possa compreender em que cenário decorria os amores de meu avô Lopo e de Matilde, como também para que melhor se perceba de que forma estava organizado o nosso lar em Alfama, aninhado dentro da cerca moura e bem encostado às judiarias. É tarefa fácil de levar a cabo, pois não se trata de descrever um ostentoso palácio, como os muitos que constelam as sete colinas da cidade, mas sim uma modesta casa de morar, como eram na generalidade as casas onde habitava o povo-miúdo – mesteirais, pescadores, lavradores, mercadores, oficiais mecânicos…

            A nossa casa era, como a dos vizinhos mais próximos, o boçal tanoeiro João, sua mulher e filhos, entre os quais Matilde, uma habitação pequena, de dois sobrados, construída em pedra e em madeira. De resto, a madeira, como material de construção constituía um dos principais motivos de preocupação dos alcaides, edis e outros responsáveis pela segurança da cidade. Em Abril de 1369, uma grande parte das casas da Rua da Ferraria e um enorme troço da Rua Nova dos Mercadores, a principal artéria da urbe, tinham ardido quase totalmente. Em Fevereiro de 1373, após nos terem invadido pelas Beiras, durante o assédio que puseram a Lisboa como represália ao apoio que demos a Inglaterra, projécteis lançados pelas catapultas das tropas castelhanas do trastâmara Henrique II, pegaram fogo a muitas casas nas freguesias da Madalena e de São Gião. A Rua Nova ardeu completamente e a Judiaria Velha foi também cruelmente afectada. Ou seja, o núcleo central da cidade, em torno da Sé catedral, ardeu quase na totalidade. Por isso, os pregoeiros, ao entardecer, passavam avisando com a sua ladainha os vizinhos dos muitos perigos que havia em não vigiar o fogo que, para aquecimento, iluminação e cozinhados, crepitava em todas as habitações. Era como se acolhêssemos em casa um animal perigoso e letal, mas, ao mesmo tempo, companheiro indispensável. Amigo e companheiro que nos podia matar se nos distraíssemos e deixássemos de lhe dispensar a merecida atenção. Por isso, havia que estimá-lo e acarinhá-lo, sem nunca deixar de o vigiar – em suma, a atitude que Lopo mantinha com Julião, amigo nos folguedos, rival nos amores.

            Era uma habitação modesta, composta por dois sobrados ligados por uma escada interior, com uma pequena horta e jardim num pátio das traseiras do sobrado térreo. Neste pátio ficava o compartimento da necessária, destinada às precisões fisiológicas. O tanoeiro João, bem mais prático do que os meus bisavós e avós, instalara no pátio, em vez de flores e vegetais, um curral onde alimentava galinhas e um anafado porco – de facto, pensava Lopo, parecido com o amo, como o ouvia dizer ao avô Bartolomeu. Era também no pátio, sob um abrigo de telha que o tanoeiro construía as pipas e dornas que constituíam o seu negócio. No que se refere à casa da minha família, na sala de baixo, além de uma cozinha revestida de pedra, onde pontificava uma ampla chaminé e um grande fogão, tínhamos uma outra dependência onde meu avô e bisavô guardavam preciosos livros, alguns dos quais estão aqui na minha cela. O chão forrado de ladrilho era coberto com esteiras e um ou outro tapete. As paredes divisórias eram construídas em taipa, ou seja, barro bem amassado e calcado. Na sala principal ficava a escada que ligava ao sobrado superior. Ao centro, sobre um bonito tapete antigo que era o orgulho das mulheres da família, estava uma mesa rodeada de cadeiras e escanos de espaldar. Ao topo, a cátedra, uma cadeira antiga, mas confortável com braços, onde sempre se sentava, e senta ainda, o principal homem da família e que foi sendo ocupada por Bartolomeu, Simão, Lopo e Lourenço. Eu não tive oportunidade de ocupar esse trono familiar, pois quando saí de casa para o convento, ainda meu pai era vivo e sua era, portanto, a cátedra. Meu irmão José a ocupará enquanto viver. Meu sobrinho Alberto e meu sobrinho-neto Bartolomeu aguardam a sua vez de ascender a tal dignidade. Era nessa sala que comíamos nos dias festivos e onde recebíamos visitas de vizinhos ou familiares que, por vezes, nos chegavam da província. Ali dormíamos, em cima de um tapete e enrolados em cobertores, também quando isso acontecia, cedendo cortesmente os leitos aos visitantes como era de boa usança e hospitalidade. As refeições dos dias normais eram tomadas na cozinha e era também ali, sobretudo no Inverno, que nos sentávamos junto do fogo, lendo em voz alta ou contando romances («De como el-rei Mordaim viu a nau em que a dona que até ele viera andava e do que com ela se passou»…),  comentando o que sucedia no bairro,  na cidade,  no Reino e no mundo. Foi na cozinha, junto do fogo da chaminé que, sentado num escano provido de espaldar e braços, meu pai contou muitas daquelas coisas que aqui vos venho narrar.

Numa das paredes, tal como nas casas dos senhores se dispõem armas, bandeiras e troféus, havia uma grande quantidade das chamadas olas, ou seja, enfusas ou sertãs de barro, bem como de espetos e de diversos utensílios de ferro e de cobre. Em suma, era uma casa humilde, mas provida de tudo o que é indispensável. Sobre a consola da chaminé da cozinha, imperava, desde a infância de meu pai, uma bonita escultura em pedra policromada, um anjo, dizíamos, pois tinha umas grandes asas abertas. Fora, segundo pensava Lourenço, oferta de um artista a meu avô Lopo ou talvez a paga de algum trabalho. A escultura andara desaparecida durante uns tempos, mas depois reaparecera em poder de um amigo de Lopo. Dela falarei lá mais para diante. As janelas eram protegidas por fortes vidraças, luxo que, por essa época, ainda não existia em todas as casas. Na cozinha, comíamos as duas refeições principais – o jantar, por volta das onze da manhã, e a ceia, depois das Vésperas, por redor das seis ou sete da tarde. Quando, chegada a idade de abandonar a escola catedralícia, começávamos a trabalhar, antes de sair, soadas as Laudes na Sé, tomávamos um frugal dejejum, um almoço, composto por uma malga de leite quente e por uma fatia de pão barrada de mel.

            No piso de cima ficavam os quartos de dormir. Eram três esses aposentos: o do casal principal, o dos varões e o das crianças e mulheres solteiras que acaso houvesse. Só o quarto principal tinha cama. Nos outros, dormia-se em cima das arcas onde guardávamos as roupas e as louças só usadas nos dias festivos. Quando Lopo foi considerado varão, passou a dormir perto do velho Bartolomeu que ressonava estrepitosamente toda a noite, pelo que, até se habituar, não apreciou demasiado a honra que lhe fora concedida. Em alguns cofres se protegiam as raríssimas jóias ou objectos de maior valor. À noite, iluminávamo-nos com candeias de azeite ou velas de sebo. Salvo se nos reuníamos na cozinha, onde a luz proveniente das chamas da chaminé era bastante para nos permitir ler ou conversar. Às vezes, minha avó Matilde cantava endeixas de sua juventude, acompanhada por minha tia Beatriz, que era da mesma geração. Minha mãe Débora sabia também algumas bonitas modas judaicas, mas só muito instada as cantava, pois gostava de passar os serões bordando ou costurando. Uma vela colocada na consola, por detrás do anjo, projectava a sua sombra alada sobre a brancura da parede fronteira. E, na minha infantil imaginação, a sombra engrandecida daquela figura adejante que tremeluzia ao ritmo da chama das velas, incorporava-se magicamente nos contos ou nas endeixas que escutávamos. Ouvia, sempre maravilhado, as suas vozes que mais me pareciam chilreios de aves do Paraíso. Bons e saudosos tempos! Esta foi, e continua a ser, a nossa humilde casa, da qual tantas e boas recordações conservo na memória.

No fundo, era uma casa igual a tantas outras da vizinhança, pertencentes a gente modesta, a mesteirais e mercadores. O velho Bartolomeu dizia frequentemente, com a sua habitual bazófia, que na vila de Foz Côa de onde éramos oriundos, possuíamos um solar de pedra muito mais luxuoso. Mas, já saturados pelas histórias do velho, quase sempre fantasias engendradas pelo seu cérebro senil, muitas vezes turvado pelo excesso de bebida, ninguém acreditava em tal coisa. No entanto veio muito tempo depois a saber-se que, de facto, ali havia, talvez não um solar, mas pelo menos uma grande casa, de pedra, na realidade, propriedade da família Mateus e que, abandonada, acabou por, ao longo dos anos, quase derruír e ser transformada em curral onde vizinhos mais audaciosos criavam vacas, cabritos e porcos. Assim morrem as grandezas do mundo. No entanto, vamos lá ver se consigo levar esta nave a bom porto e não começo a meter histórias diversas dentro da mesma saca. O meu fito, com estas notas que o ócio conventual me deu para escrever, é o de lembrar a história que teve início naquele ano de 1459 e também que todas as coisas estranhas que ocorreram nas existências do meu avô e de meu pai sejam guardadas para quem venha a interessar-se por elas.

            Porque se, na verdade, foi sossegada e mui ordenada a existência de Lopo, tormentoso e alvoroçado terá sido o seu imprevisível fim. Ao invés, o meu pai teve uma juventude mui tribulada, aventurosa, preenchida de perigos e imprevistos, e uma velhice tranquila. Sobre meu bisavô Simão, a minha querida e saudosa avó Matilde que partiu tinha eu cinco anos, mas nunca a esqueci, dizia de seu sogro, do velho e sábio copista e iluminista ajudante do mestre Fernão Lopes, que apenas uns meses sobreviveu ao filho, tal foi o seu desgosto, que, já para o fim da vida, tinha o hábito de misturar as coisas, de começar a contar uma história e acabar com outra diversa. Fazia, dizia ela, lembrar o velho Bartolomeu, embora tão diferentes fossem em seus caracteres. São, em suma, estas confusões e misturas, um iniludível sinal da velhice que a todos ataca, sejam eles audaciosos ginetes ou anadéis, pacatos copistas, escrivães ou mesmo taralhoucos frades. É um dos raros privilégios dos velhos o de podermos confundir as coisas e o de, muitas vezes, invocarmos a nossa avançada idade para fingir que as confundimos e assim levar a água ao nosso moinho. Privilégio do qual nunca abdico, pois se a velhice traz no seu gélido bornal maleitas e coisas ruins, se não nos aproveitássemos das suas tão escassas vantagens, bem tontos seríamos.

            Comecei esta crónica invocando a mocidade de meu avô e o flagrante contraste que ela abria com a senilidade de seu avô, salientando a admiração perante o novo, manifestada por Lopo, e a cega exaltação do passado que caracterizava Bartolomeu. Porque, em verdade, também eu, que em jovem sempre defendi a novidade e a evolução das coisas e costumes, agora, já no Inverno da vida, com surpresa me descubro a recordar com saudade os tempos em que, abandonada a escola catedral, entrei, pela mão de meu pai, o anadel, na velha Torre Albarrã, onde se guardavam os registos do reino e se copiavam as crónicas dos reis e outras e onde, com justificada emoção e reverência, me mostrou o local onde dois antepassados meus tinham trabalhado. Ainda havia ali alguns velhos oficiais que se lembravam de meu avô Lopo e até de meu bisavô Simão. Deles falavam com respeito e amizade. Tal como acontecia com o meu irascível trisavô, surpreendo-me a pensar como o sol era luminoso, o odor do mar penetrante, o céu de um azul intenso, o voo das aves alegre e evocador da liberdade, as moças dolorosamente belas… Mas, em abono da boa verdade, reconheça-se que não eram tempos fáceis. Aliás, as dificuldades e desgraças vinham de muito antes. O mestre Fernão Lopes, que se finou mais de vinte anos antes de eu ter nascido, bem dissera a meu avô – todos os tempos são difíceis para quem os vive, embora o possam ser de diferentes maneiras. Assim era, na verdade, e para que vejais que não exagero, basta que vos recorde algumas das infelicidades que, como adejantes abutres, foram descendo sobre as nossas vidas.

            Em 1383, el-rei D. Fernando morrera sem deixar descendência, abrindo uma crise dinástica. A regência de sua mulher, D. Leonor de Teles provocou rebeliões entre vilões e arraia-miúda. No ano seguinte, João I de Castela veio acudir à regente e pôs cerco a Lisboa, o qual se prolongou até 1385. Foi nesse ano que as Cortes de Coimbra escolheram D. João, Mestre de Avis e filho natural de el-rei D. Pedro, como soberano. Nuno Álvares Pereira venceu os castelhanos nos Atoleiros e em Aljubarrota, batendo-os também em Trancoso e em Valverde. Penso que nunca, como nessa altura, nos sentimos orgulhosos de ter nascido neste glorioso Reino, tão pequeno em tamanho, mas ao mesmo tempo tão grande pela coragem e determinação das gentes que o povoaram. Depois, em 1387, a independência nacional consolidou-se com a aliança com a Inglaterra, o Tratado de Windsor, que na prática se traduziu no casamento de el-rei D. João com D. Filipa, herdeira da poderosa casa de Lencastre. Era uma senhora mui ilustrada que se exprimia em francês, ignorando o bárbaro idioma que as gentes de sua terra linguarejavam e que agora querem promover a fala civilizada. De notar um pormenor interessante: o próprio tratado entre as duas nações foi redigido em duas línguas cristãs, o português e o francês, que era o idioma usado pelos saxões ilustrados, incluindo os Plantagenetas.

Lembremos que a Inglaterra não era na época o poderoso reino que hoje é. O débil Ricardo I, enfrentava a francesa cobiça dos Capetos, a fúria dos camponeses, a agitação dos lolardistas, a Peste Negra que grassava pelo reino, e a crescente heresia que todas estas catástrofes motivavam, pois como podem os povos amar um Deus que tantos infortúnios lhes manda? Foi só em 1399, quando a casa de Lencastre chegou ao poder que o país se começou a recompor. O triunfo sobre os Franceses em Azincourt, em 1415, consolidou esse poder e aquele reino atravessou um período de esplendor que parece estar de novo a empalidecer.

Mas falávamos de nós. Em 1411 foi assinada com Castela uma paz provisória e essa acalmia, ainda que precária, permitiu que D. Henrique iniciasse a política de expansão para terras de África, conquistando Ceuta em 1415 e promovendo a descoberta da Madeira e de Porto Santo em 1419 e a dos Açores em 1427. Em 1433, com as mortes de D. João I e do condestável D. Nuno Álvares Pereira, encerrava-se um novo ciclo da história do país. El-rei D. Duarte, o novo soberano, prosseguiu com diligência a tarefa de descobrir novas terras, não sem percalços, pois D. Fernando, seu irmão mais novo, ficou cativo dos Mouros, durante a mal sucedida expedição a Tânger, em 1437. Com ele morreu, como adiante vos direi, Martinho, o filho do mestre Fernão Lopes, médico de cabeceira do jovem infante. As grandes empresas exigem sacrifícios. As levas de escravos filhados na costa africana em breve começaram a afluir. Em 1449 deu-se o desgraçado encontro de Alfarrobeira em que o infante, o honrado e ilustrado senhor D. Pedro, regente após a morte de el-rei D. Duarte, perdeu a vida e foi vencido pelas hostes do jovem monarca, el-rei D. Afonso. Neste ano de 1459 que comecei por recordar, nas Cortes realizadas em Lisboa foi criticada a política regalista de el-rei D. Afonso, o quinto deste nome, que fez amplas doações à nobreza. No princípio de Setembro. Os mouros de Fez puseram de novo cerco a Alcácer Ceguer, onde em Outubro do ano anterior el-rei entrara vitorioso.

E assim iam as coisas.

 

 

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