O MAPA (A saga do anadel)Um vizinho de Alfama – Capítulo 11- por Carlos Loures

Lisboa, Abril de 1459.

 

Tal sabedoria, vinda daquele velho senhor, sobre os segredos da sua profissão, sendo tão reduzido o seu número de oficiais e aprendizes, intrigou Lopo. Um fim de dia em que bebia o hidromel e se preparava para saborear a cidrada que Jacob, o filho de Samuel, lhe trouxera à mesa, perguntou ao locandeiro que lhe veio depois falar, quem era aquele ancião, tão diferente do seu avô, condenador de tudo o que fosse novo. Samuel bem demais conhecia o beberrão almogárave que, volta que não volta, ali criava grossos conflitos. Por tudo e por nada levantava alvoroço, bastando que alguém não estivesse de acordo com ele sobre o emprego de uma palavra (ele que tão douto era!), ou sobre uma opinião sua, sobretudo se tratava de assuntos relacionados com a arte da guerra ou com a complicada teia política dos tempos que corriam, matérias em que se considerava um mestre emérito. Aplicava aos problemas actuais os axiomas de cinquenta anos atrás. Na sua rígida teoria, os Castelhanos eram sempre a fonte de todos os males que vivíamos – surtos de peste, agravamento dos impostos, secas, geadas e más colheitas… Cautelosamente – o copista e seu o filho eram bons clientes – pedira a Simão que convencesse o pai a não ir tanto por ali. Com arteirice, opinava que aquelas zaragatas faziam mal à saúde de pessoa tão idosa, acrescentando com ar preocupado que o cansado coração do velho podia não aguentar tais querelas e arrelias. O resultado fora que o copista, envergonhado com as revelações sobre os desaforos de seu pai, evitava, desde então, entrar na taverna.

            Quando Lopo lhe fez a pergunta, ficou por uns momentos calado, como que meditando, para criar uma maior expectativa no jovem. Por fim, lá deu a resposta. Aquele senhor era um respeitável vizinho de Alfama, das imediações da Judiaria Grande, pois morava ali, ali mesmo junto da Igreja de São Miguel. Era casado com a Dona Mor Lourenço, tia da mulher do sapateiro que tinha tenda nas proximidades, na rua das Pedras Negras, logo atrás da capela de Santo António:

            – Fica sabendo rapaz que é gente de muitos cabedais. Vê lá que até são donos de uma propriedade agrícola na Aldeia Galega, na banda d’além.

            – Só sabeis isso, mestre Samuel? – Perguntou Lopo, incrédulo, pois o judeu conhecia, de fio a pavio, pormenores da vida de todos os vizinhos da Judiaria e de Alfama, desde a Rua de São Mamede à Rua do Bairro dos Escolares, de São Pedro à Rua do Santo Espírito. Nem cães nem gatos, dizia-se, escapavam à minuciosa e alcoviteira crónica da hebraica criatura.

            – Bem – disse Samuel com o sorriso matreiro de quem desfere uma seta – sei também que, até há dois anos atrás, foi o guarda das escrituras do registo d’el-rei. E cronista-mor do reino, durante os últimos vinte anos.

            – Mas esse é o mestre Fernão Lopes, de quem meu pai tanto fala e com tal veneração, como se de pessoa divina se tratasse!

            – É esse mesmo – respondeu com uma gargalhada o tendeiro – É para que vejas que à minha taverna não vêm só catraios ranhosos como tu.

            Embora espantado por aquela revelação, em pensamentos, Lopo não deixou de chamar merdilheiro a Samuel, pois esse era o desdenhoso tratamento que seu avô sempre dispensava a quem o agravava levemente, pois por quem sentisse verdadeira e feroz rancura tratava, nem mais nem menos, do que por fi de puta. Também não lhe chamou «judeu» ou «marrano», porque nessa altura, felizmente, ainda estas palavras não haviam ganho o mau sentido que nos nossos desditosos dias assumiram. «Merdilheiro» chegava. Era palavra adequada a quem lhe chamara «catraio ranhoso». Logo esqueceu o agravo – sabia que, no fundo, o judeu, que o vira nascer, o estimava. Outras coisas o preocupavam. Ficou a matutar na sua anterior conversa com o ancião. Menos-mal, que a opinião do pai Simão a respeito do mestre, que tão incautamente transmitira ao ancião, não era ofensiva; antes pelo contrário.

            Acabou a sua bebida e desceu depois até à Rua Nova, sobre a qual começava já a descer a sombra do crepúsculo e onde os mercadores fechavam suas tendas. Tinha o hábito de por ali passear e folhear os livros que em pilhas, sobre mesas, se acumulavam à porta dos livreiros. Quando tinha posses, comprava na tenda de Saul Navarro alguma coisa que enriquecesse a sua modesta livraria, se é que livraria se podia chamar à pequena colecção de livros que enchia a cabeceira da arca sobre a qual dormia. Na tarde seguinte, quando, terminada a sua jornada de trabalho deixou a torre Albarrã, caminhou até ao Falcão Azul, pois estava com a esperança de poder falar ao mestre Fernão Lopes. Quando dissesse a seu pai a frequência com que conversava com tal figura, talvez o passasse a olhar com um pouco mais de consideração e deixasse de o recriminar por tudo e por nada. Muitas vezes pelo delito de existir e de seu corpo projectar uma sombra na parede.

            Teve sorte. O mestre lá estava sentado na sua mesa, sacudindo distraidamente as moscas que lhe esvoaçavam em redor da cabeça, em busca do calor emanado pelo ancião e pelos raios de sol que ainda entravam pela porta e janelas da locanda. Tinha um ar pensativo. Santo Agostinho afirmara que se Deus fez as moscas, para alguma coisa elas deviam servir. Não podendo duvidar da asserção do doutor da Igreja, muito tinha Lopo sobre ela reflectido. Não encontrando qualquer utilidade a tais seres, por mais pequena e humilde que fosse, acabara por chegar à conclusão de que, talvez, as moscas sejam indispensáveis para a alimentação dos pardais – que às vezes, bem fritinhos em azeite de oliveira, tão saborosos são. Gostaria Santo Agostinho, tanto como Lopo, de comer pardalinhos fritos? Talvez residisse aqui a razão por que Deus pusera no mundo tão incómodas e repugnantes criaturas…

            Pediu licença para se sentar, puxou um escano e, após os cumprimentos, foi logo direito ao assunto que o obcecava. Sua mãe dizia que ele era um desaforado, que as palavras lhe saíam da boca como cavalos desembestados e lhe galopavam à frente do pensamento. Soubesse ela do nó que se lhe formava na garganta sempre que na rua se cruzava com Matilde! Perante a sua beleza, o seu perfume, o seu sorriso, ficava tartamudo e só lhe ocorriam aos lábios tontices e banalidades:

            – Senhor – disse respeitosamente, como lhe cumpria – Sei já quem vossa senhoria é – O mestre olhou-o longamente:

            – Não, tu não sabes quem eu sou. Sabes apenas quem eu fui.

            Não descortinou logo a subtileza nostálgica da diferença entre o que lhe dissera e a correcção feita pelo ancião. Falou-lhe novamente de seu pai. Sabia bem de quem o rapaz era filho, pois o mestre Samuel, aquele grande alcoveta, já lho dissera. Contou-lhe então como em 1418 fora nomeado para guarda das escrituras do Tombo e como escrivão dos livros do infante D. Duarte. Esse rei, «Deus guarde a sua alma!», atribuiu-lhe também carta de nobreza, em reconhecimento dos seus méritos. Passou a usar o título de «vassalo d’el-rei». Foi depois também escrivão dos livros d’el-rei D. João e escrivão da puridade do infante D. Fernando, de santa memória:

            – Não o acompanhei no martírio de Marrocos – os olhos arrasaram-se-lhe de lágrimas – já estava velho para tais andanças, mas com ele foi o meu amado filho Martinho, seu médico de cabeceira, que por lá morreu também. Pobre e santo infante! Deixou-me em testamento cinquenta mil réis e um livro de linguagem chamado Ermo Espiritual, que guardo com estima – fez uma pausa antes de concluir – Com as cavalarias de África foi tudo o que ganhei: algum dinheiro, um livro e as mortes de um amigo e de um filho. Pobre e triste pecúlio!

            Não era bem isto aquilo que Lopo esperava que Fernão Lopes lhe contasse. Porém, escutou-o em silêncio, como cumpre a um moço respeitador, coisa que se prezava de ser, apesar de algumas familiares opiniões em contrário. Nesse dia nada mais logrou arrancar ao sábio. Depois de ter evocado o infante mártir e o seu infortunado filho, ficou-se de olhar perdido na rua que as sombras da tarde iam cobrindo. O pregoeiro, avisando com o seu grito contra os perigos de pôr fogo nas casas e haveres, passara já, como fazia todos os fins de tarde. Lançava o lancinante apelo, repetindo-o poucas braças mais abaixo. O som ia afastando-se e assemelhava-se agora a um eco. Samuel acendera já as candeias no interior da taverna. A mãe ficaria em grande cuidado se o rapaz não chegasse a casa antes de a noite cair por completo. Sabendo isso, despediu-se do seu ilustre companheiro, que, perdido em cogitações, lhe fez um aceno distraído. O jovem subiu lestamente a Rua Direita da Porta da Sé até à Rua Direita de São João, onde morava com seus pais, irmãos e avô.

Lisboa, Abril de 1459.

 

Tal sabedoria, vinda daquele velho senhor, sobre os segredos da sua profissão, sendo tão reduzido o seu número de oficiais e aprendizes, intrigou Lopo. Um fim de dia em que bebia o hidromel e se preparava para saborear a cidrada que Jacob, o filho de Samuel, lhe trouxera à mesa, perguntou ao locandeiro que lhe veio depois falar, quem era aquele ancião, tão diferente do seu avô, condenador de tudo o que fosse novo. Samuel bem demais conhecia o beberrão almogárave que, volta que não volta, ali criava grossos conflitos. Por tudo e por nada levantava alvoroço, bastando que alguém não estivesse de acordo com ele sobre o emprego de uma palavra (ele que tão douto era!), ou sobre uma opinião sua, sobretudo se tratava de assuntos relacionados com a arte da guerra ou com a complicada teia política dos tempos que corriam, matérias em que se considerava um mestre emérito. Aplicava aos problemas actuais os axiomas de cinquenta anos atrás. Na sua rígida teoria, os Castelhanos eram sempre a fonte de todos os males que vivíamos – surtos de peste, agravamento dos impostos, secas, geadas e más colheitas… Cautelosamente – o copista e seu o filho eram bons clientes – pedira a Simão que convencesse o pai a não ir tanto por ali. Com arteirice, opinava que aquelas zaragatas faziam mal à saúde de pessoa tão idosa, acrescentando com ar preocupado que o cansado coração do velho podia não aguentar tais querelas e arrelias. O resultado fora que o copista, envergonhado com as revelações sobre os desaforos de seu pai, evitava, desde então, entrar na taverna.

            Quando Lopo lhe fez a pergunta, ficou por uns momentos calado, como que meditando, para criar uma maior expectativa no jovem. Por fim, lá deu a resposta. Aquele senhor era um respeitável vizinho de Alfama, das imediações da Judiaria Grande, pois morava ali, ali mesmo junto da Igreja de São Miguel. Era casado com a Dona Mor Lourenço, tia da mulher do sapateiro que tinha tenda nas proximidades, na rua das Pedras Negras, logo atrás da capela de Santo António:

            – Fica sabendo rapaz que é gente de muitos cabedais. Vê lá que até são donos de uma propriedade agrícola na Aldeia Galega, na banda d’além.

            – Só sabeis isso, mestre Samuel? – Perguntou Lopo, incrédulo, pois o judeu conhecia, de fio a pavio, pormenores da vida de todos os vizinhos da Judiaria e de Alfama, desde a Rua de São Mamede à Rua do Bairro dos Escolares, de São Pedro à Rua do Santo Espírito. Nem cães nem gatos, dizia-se, escapavam à minuciosa e alcoviteira crónica da hebraica criatura.

            – Bem – disse Samuel com o sorriso matreiro de quem desfere uma seta – sei também que, até há dois anos atrás, foi o guarda das escrituras do registo d’el-rei. E cronista-mor do reino, durante os últimos vinte anos.

            – Mas esse é o mestre Fernão Lopes, de quem meu pai tanto fala e com tal veneração, como se de pessoa divina se tratasse!

            – É esse mesmo – respondeu com uma gargalhada o tendeiro – É para que vejas que à minha taverna não vêm só catraios ranhosos como tu.

            Embora espantado por aquela revelação, em pensamentos, Lopo não deixou de chamar merdilheiro a Samuel, pois esse era o desdenhoso tratamento que seu avô sempre dispensava a quem o agravava levemente, pois por quem sentisse verdadeira e feroz rancura tratava, nem mais nem menos, do que por fi de puta. Também não lhe chamou «judeu» ou «marrano», porque nessa altura, felizmente, ainda estas palavras não haviam ganho o mau sentido que nos nossos desditosos dias assumiram. «Merdilheiro» chegava. Era palavra adequada a quem lhe chamara «catraio ranhoso». Logo esqueceu o agravo – sabia que, no fundo, o judeu, que o vira nascer, o estimava. Outras coisas o preocupavam. Ficou a matutar na sua anterior conversa com o ancião. Menos-mal, que a opinião do pai Simão a respeito do mestre, que tão incautamente transmitira ao ancião, não era ofensiva; antes pelo contrário.

            Acabou a sua bebida e desceu depois até à Rua Nova, sobre a qual começava já a descer a sombra do crepúsculo e onde os mercadores fechavam suas tendas. Tinha o hábito de por ali passear e folhear os livros que em pilhas, sobre mesas, se acumulavam à porta dos livreiros. Quando tinha posses, comprava na tenda de Saul Navarro alguma coisa que enriquecesse a sua modesta livraria, se é que livraria se podia chamar à pequena colecção de livros que enchia a cabeceira da arca sobre a qual dormia. Na tarde seguinte, quando, terminada a sua jornada de trabalho deixou a torre Albarrã, caminhou até ao Falcão Azul, pois estava com a esperança de poder falar ao mestre Fernão Lopes. Quando dissesse a seu pai a frequência com que conversava com tal figura, talvez o passasse a olhar com um pouco mais de consideração e deixasse de o recriminar por tudo e por nada. Muitas vezes pelo delito de existir e de seu corpo projectar uma sombra na parede.

            Teve sorte. O mestre lá estava sentado na sua mesa, sacudindo distraidamente as moscas que lhe esvoaçavam em redor da cabeça, em busca do calor emanado pelo ancião e pelos raios de sol que ainda entravam pela porta e janelas da locanda. Tinha um ar pensativo. Santo Agostinho afirmara que se Deus fez as moscas, para alguma coisa elas deviam servir. Não podendo duvidar da asserção do doutor da Igreja, muito tinha Lopo sobre ela reflectido. Não encontrando qualquer utilidade a tais seres, por mais pequena e humilde que fosse, acabara por chegar à conclusão de que, talvez, as moscas sejam indispensáveis para a alimentação dos pardais – que às vezes, bem fritinhos em azeite de oliveira, tão saborosos são. Gostaria Santo Agostinho, tanto como Lopo, de comer pardalinhos fritos? Talvez residisse aqui a razão por que Deus pusera no mundo tão incómodas e repugnantes criaturas…

            Pediu licença para se sentar, puxou um escano e, após os cumprimentos, foi logo direito ao assunto que o obcecava. Sua mãe dizia que ele era um desaforado, que as palavras lhe saíam da boca como cavalos desembestados e lhe galopavam à frente do pensamento. Soubesse ela do nó que se lhe formava na garganta sempre que na rua se cruzava com Matilde! Perante a sua beleza, o seu perfume, o seu sorriso, ficava tartamudo e só lhe ocorriam aos lábios tontices e banalidades:

            – Senhor – disse respeitosamente, como lhe cumpria – Sei já quem vossa senhoria é – O mestre olhou-o longamente:

            – Não, tu não sabes quem eu sou. Sabes apenas quem eu fui.

            Não descortinou logo a subtileza nostálgica da diferença entre o que lhe dissera e a correcção feita pelo ancião. Falou-lhe novamente de seu pai. Sabia bem de quem o rapaz era filho, pois o mestre Samuel, aquele grande alcoveta, já lho dissera. Contou-lhe então como em 1418 fora nomeado para guarda das escrituras do Tombo e como escrivão dos livros do infante D. Duarte. Esse rei, «Deus guarde a sua alma!», atribuiu-lhe também carta de nobreza, em reconhecimento dos seus méritos. Passou a usar o título de «vassalo d’el-rei». Foi depois também escrivão dos livros d’el-rei D. João e escrivão da puridade do infante D. Fernando, de santa memória:

            – Não o acompanhei no martírio de Marrocos – os olhos arrasaram-se-lhe de lágrimas – já estava velho para tais andanças, mas com ele foi o meu amado filho Martinho, seu médico de cabeceira, que por lá morreu também. Pobre e santo infante! Deixou-me em testamento cinquenta mil réis e um livro de linguagem chamado Ermo Espiritual, que guardo com estima – fez uma pausa antes de concluir – Com as cavalarias de África foi tudo o que ganhei: algum dinheiro, um livro e as mortes de um amigo e de um filho. Pobre e triste pecúlio!

            Não era bem isto aquilo que Lopo esperava que Fernão Lopes lhe contasse. Porém, escutou-o em silêncio, como cumpre a um moço respeitador, coisa que se prezava de ser, apesar de algumas familiares opiniões em contrário. Nesse dia nada mais logrou arrancar ao sábio. Depois de ter evocado o infante mártir e o seu infortunado filho, ficou-se de olhar perdido na rua que as sombras da tarde iam cobrindo. O pregoeiro, avisando com o seu grito contra os perigos de pôr fogo nas casas e haveres, passara já, como fazia todos os fins de tarde. Lançava o lancinante apelo, repetindo-o poucas braças mais abaixo. O som ia afastando-se e assemelhava-se agora a um eco. Samuel acendera já as candeias no interior da taverna. A mãe ficaria em grande cuidado se o rapaz não chegasse a casa antes de a noite cair por completo. Sabendo isso, despediu-se do seu ilustre companheiro, que, perdido em cogitações, lhe fez um aceno distraído. O jovem subiu lestamente a Rua Direita da Porta da Sé até à Rua Direita de São João, onde morava com seus pais, irmãos e avô.

Lisboa, Abril de 1459.

 

Tal sabedoria, vinda daquele velho senhor, sobre os segredos da sua profissão, sendo tão reduzido o seu número de oficiais e aprendizes, intrigou Lopo. Um fim de dia em que bebia o hidromel e se preparava para saborear a cidrada que Jacob, o filho de Samuel, lhe trouxera à mesa, perguntou ao locandeiro que lhe veio depois falar, quem era aquele ancião, tão diferente do seu avô, condenador de tudo o que fosse novo. Samuel bem demais conhecia o beberrão almogárave que, volta que não volta, ali criava grossos conflitos. Por tudo e por nada levantava alvoroço, bastando que alguém não estivesse de acordo com ele sobre o emprego de uma palavra (ele que tão douto era!), ou sobre uma opinião sua, sobretudo se tratava de assuntos relacionados com a arte da guerra ou com a complicada teia política dos tempos que corriam, matérias em que se considerava um mestre emérito. Aplicava aos problemas actuais os axiomas de cinquenta anos atrás. Na sua rígida teoria, os Castelhanos eram sempre a fonte de todos os males que vivíamos – surtos de peste, agravamento dos impostos, secas, geadas e más colheitas… Cautelosamente – o copista e seu o filho eram bons clientes – pedira a Simão que convencesse o pai a não ir tanto por ali. Com arteirice, opinava que aquelas zaragatas faziam mal à saúde de pessoa tão idosa, acrescentando com ar preocupado que o cansado coração do velho podia não aguentar tais querelas e arrelias. O resultado fora que o copista, envergonhado com as revelações sobre os desaforos de seu pai, evitava, desde então, entrar na taverna.

            Quando Lopo lhe fez a pergunta, ficou por uns momentos calado, como que meditando, para criar uma maior expectativa no jovem. Por fim, lá deu a resposta. Aquele senhor era um respeitável vizinho de Alfama, das imediações da Judiaria Grande, pois morava ali, ali mesmo junto da Igreja de São Miguel. Era casado com a Dona Mor Lourenço, tia da mulher do sapateiro que tinha tenda nas proximidades, na rua das Pedras Negras, logo atrás da capela de Santo António:

            – Fica sabendo rapaz que é gente de muitos cabedais. Vê lá que até são donos de uma propriedade agrícola na Aldeia Galega, na banda d’além.

            – Só sabeis isso, mestre Samuel? – Perguntou Lopo, incrédulo, pois o judeu conhecia, de fio a pavio, pormenores da vida de todos os vizinhos da Judiaria e de Alfama, desde a Rua de São Mamede à Rua do Bairro dos Escolares, de São Pedro à Rua do Santo Espírito. Nem cães nem gatos, dizia-se, escapavam à minuciosa e alcoviteira crónica da hebraica criatura.

            – Bem – disse Samuel com o sorriso matreiro de quem desfere uma seta – sei também que, até há dois anos atrás, foi o guarda das escrituras do registo d’el-rei. E cronista-mor do reino, durante os últimos vinte anos.

            – Mas esse é o mestre Fernão Lopes, de quem meu pai tanto fala e com tal veneração, como se de pessoa divina se tratasse!

            – É esse mesmo – respondeu com uma gargalhada o tendeiro – É para que vejas que à minha taverna não vêm só catraios ranhosos como tu.

            Embora espantado por aquela revelação, em pensamentos, Lopo não deixou de chamar merdilheiro a Samuel, pois esse era o desdenhoso tratamento que seu avô sempre dispensava a quem o agravava levemente, pois por quem sentisse verdadeira e feroz rancura tratava, nem mais nem menos, do que por fi de puta. Também não lhe chamou «judeu» ou «marrano», porque nessa altura, felizmente, ainda estas palavras não haviam ganho o mau sentido que nos nossos desditosos dias assumiram. «Merdilheiro» chegava. Era palavra adequada a quem lhe chamara «catraio ranhoso». Logo esqueceu o agravo – sabia que, no fundo, o judeu, que o vira nascer, o estimava. Outras coisas o preocupavam. Ficou a matutar na sua anterior conversa com o ancião. Menos-mal, que a opinião do pai Simão a respeito do mestre, que tão incautamente transmitira ao ancião, não era ofensiva; antes pelo contrário.

            Acabou a sua bebida e desceu depois até à Rua Nova, sobre a qual começava já a descer a sombra do crepúsculo e onde os mercadores fechavam suas tendas. Tinha o hábito de por ali passear e folhear os livros que em pilhas, sobre mesas, se acumulavam à porta dos livreiros. Quando tinha posses, comprava na tenda de Saul Navarro alguma coisa que enriquecesse a sua modesta livraria, se é que livraria se podia chamar à pequena colecção de livros que enchia a cabeceira da arca sobre a qual dormia. Na tarde seguinte, quando, terminada a sua jornada de trabalho deixou a torre Albarrã, caminhou até ao Falcão Azul, pois estava com a esperança de poder falar ao mestre Fernão Lopes. Quando dissesse a seu pai a frequência com que conversava com tal figura, talvez o passasse a olhar com um pouco mais de consideração e deixasse de o recriminar por tudo e por nada. Muitas vezes pelo delito de existir e de seu corpo projectar uma sombra na parede.

            Teve sorte. O mestre lá estava sentado na sua mesa, sacudindo distraidamente as moscas que lhe esvoaçavam em redor da cabeça, em busca do calor emanado pelo ancião e pelos raios de sol que ainda entravam pela porta e janelas da locanda. Tinha um ar pensativo. Santo Agostinho afirmara que se Deus fez as moscas, para alguma coisa elas deviam servir. Não podendo duvidar da asserção do doutor da Igreja, muito tinha Lopo sobre ela reflectido. Não encontrando qualquer utilidade a tais seres, por mais pequena e humilde que fosse, acabara por chegar à conclusão de que, talvez, as moscas sejam indispensáveis para a alimentação dos pardais – que às vezes, bem fritinhos em azeite de oliveira, tão saborosos são. Gostaria Santo Agostinho, tanto como Lopo, de comer pardalinhos fritos? Talvez residisse aqui a razão por que Deus pusera no mundo tão incómodas e repugnantes criaturas…

            Pediu licença para se sentar, puxou um escano e, após os cumprimentos, foi logo direito ao assunto que o obcecava. Sua mãe dizia que ele era um desaforado, que as palavras lhe saíam da boca como cavalos desembestados e lhe galopavam à frente do pensamento. Soubesse ela do nó que se lhe formava na garganta sempre que na rua se cruzava com Matilde! Perante a sua beleza, o seu perfume, o seu sorriso, ficava tartamudo e só lhe ocorriam aos lábios tontices e banalidades:

            – Senhor – disse respeitosamente, como lhe cumpria – Sei já quem vossa senhoria é – O mestre olhou-o longamente:

            – Não, tu não sabes quem eu sou. Sabes apenas quem eu fui.

            Não descortinou logo a subtileza nostálgica da diferença entre o que lhe dissera e a correcção feita pelo ancião. Falou-lhe novamente de seu pai. Sabia bem de quem o rapaz era filho, pois o mestre Samuel, aquele grande alcoveta, já lho dissera. Contou-lhe então como em 1418 fora nomeado para guarda das escrituras do Tombo e como escrivão dos livros do infante D. Duarte. Esse rei, «Deus guarde a sua alma!», atribuiu-lhe também carta de nobreza, em reconhecimento dos seus méritos. Passou a usar o título de «vassalo d’el-rei». Foi depois também escrivão dos livros d’el-rei D. João e escrivão da puridade do infante D. Fernando, de santa memória:

            – Não o acompanhei no martírio de Marrocos – os olhos arrasaram-se-lhe de lágrimas – já estava velho para tais andanças, mas com ele foi o meu amado filho Martinho, seu médico de cabeceira, que por lá morreu também. Pobre e santo infante! Deixou-me em testamento cinquenta mil réis e um livro de linguagem chamado Ermo Espiritual, que guardo com estima – fez uma pausa antes de concluir – Com as cavalarias de África foi tudo o que ganhei: algum dinheiro, um livro e as mortes de um amigo e de um filho. Pobre e triste pecúlio!

            Não era bem isto aquilo que Lopo esperava que Fernão Lopes lhe contasse. Porém, escutou-o em silêncio, como cumpre a um moço respeitador, coisa que se prezava de ser, apesar de algumas familiares opiniões em contrário. Nesse dia nada mais logrou arrancar ao sábio. Depois de ter evocado o infante mártir e o seu infortunado filho, ficou-se de olhar perdido na rua que as sombras da tarde iam cobrindo. O pregoeiro, avisando com o seu grito contra os perigos de pôr fogo nas casas e haveres, passara já, como fazia todos os fins de tarde. Lançava o lancinante apelo, repetindo-o poucas braças mais abaixo. O som ia afastando-se e assemelhava-se agora a um eco. Samuel acendera já as candeias no interior da taverna. A mãe ficaria em grande cuidado se o rapaz não chegasse a casa antes de a noite cair por completo. Sabendo isso, despediu-se do seu ilustre companheiro, que, perdido em cogitações, lhe fez um aceno distraído. O jovem subiu lestamente a Rua Direita da Porta da Sé até à Rua Direita de São João, onde morava com seus pais, irmãos e avô.

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