E muitos dos “amigos” que o dizem ser nas redes sociais são-no apenas por conveniência e moda.
A amizade é um bem precioso. Tanto que, muitas vezes, nem o parentesco é capaz de lhe atribuir essa condição.
Nem o parentesco, nem aqueles patéticos jantares que juntam a rapaziada do escritório em noite de copos natalícios.
Amigos são aqueles que praticam a amizade.
Aqueles que, di-lo Aristóteles, querem o bem do amigo.
Escolher os amigos é um direito que temos. Mas também é uma arte.
Fernando Pessoa escolhia-os pela “…cara lavada e a alma exposta.”
Felizmente, tenho alguns (poucos) amigos assim.
Como a “Formiguinha” que nos calhou em sorte quando há dois anos mudamos para a casa que agora ocupamos.
Explico: a “Formiguinha”, que assim baptizei por sempre a ver atarefada a tratar do jardim ou noutras actividades domésticas, é a dona Fátima. A nossa vizinha.
A dona Fátima é um doce. É-o desde os primeiros dias que a conhecemos. Em pouco tempo passamos do cordial “bom dia” para uma ou outra conversa mais prolongada.
Meã de altura, elegante no falar e ágil no andar, a dona Fátima nasceu na angolana Malanje e gosta de música “clássica”, que sempre ouve em discos de vinil dos quais cuida como se fossem os seus entes mais queridos.
Agora, depois de alguns dias de ausência, bastou abrir a persiana da janela que nos leva ao encontro das flores de cor rosa-choque da bungavília que encima o portão da nossa casa, para logo ouvirmos acompanhado de um largo e fraterno sorriso:
– Como é bom voltar a ver essa janela aberta!…
Ficamos sem palavras. E acenamos-lhe como só se acena àqueles de quem gostamos.