No fundo, bem no fundo, há coisas pequenas, de pouca importância, que tomam, por vezes, na nossa mente, uma posição de destaque. É o caso do peixe assado na brasa. Desde há quase meio século que adoro peixe assado na brasa. Comecei a saboreá-lo a sul do Tejo, especialmente em Setúbal. E muito especialmente carapau, salmonete, besugo e sargo. Nunca, mas mesmo nunca, comi peixe assado na brasa a norte do Tejo, do qual se pudesse …dizer “benza-te Deus”. Há dias, o nosso amigo Rodrigo Afreixo disse-me que a nossa amiga Adriana descobrira uns restaurantezinhos de bairro, em Espinho, ali para os lados do estádio, que são um mimo no tratamento do peixe na brasa. O que eu lhes digo é que em assuntos desta sensibilidade, não basta a recomendação. É preciso calo, é preciso interiorizar a subtileza do ambiente, da escala do sal, da textura e da brasa. Meus amigos Rodrigo e Adriana, isto não belisca minimamente a nossa amizade, mas fui lá e enfiei um barrete. Há muito que me deixei de experiências, sobretudo nas áreas do amor e da gastronomia, as mais nobres artes da vida. De uma maneira geral, as novas experiências são rotundos barretes. No entanto, qualquer artista, e não me refiro a mim que não sou artista do que quer que seja, sonha sempre com a obra-prima na primeira esquina, o que o leva, quer queira quer não, a tentar sempre uma vez mais. Foi o que aconteceu há uns tempos atrás. Alguém, catedrático em peixe assado, me disse: conheço o teu mestrado em peixe assado, vai à BARRAQUINHA DO RIJO, em Angeiras, e depois diz-me alguma coisa. Fui, e comparei com mais três ou quatro atrevidas e inglórias experiências nas redondezas, e decidi casar-me, espero, para o resto da vida.
