O MAPA (A saga do anadel) – Mestre Fernão dá uma lição de vida-15 – por Carlos Loures

Lisboa, Abril de 1459.

 

Lopo, embora passasse todos os fins de tarde pela locanda, não voltara a encontrar o sábio amigo, pois já como tal o considerava – a simpatia e lhaneza do ancião a tanto o encorajavam. Samuel o ia informando sobre o motivo dos desencontros – «O mestre não veio cá hoje» ou «o mestre acabou mesmo agora de sair». Quando, dias depois, o voltou a encontrar e tornaram a poder conversar, não quis perder tempo. Feitos os cumprimentos habituais, atacou de frente o tema que o obcecava:

            – Senhor, peço desculpa se for inconveniente a minha pergunta. Sou um moço algo estúpido e de entendimento pouco lesto. Pelo menos é o que meu avô e meu pai dizem. E também que nasci num desgraçado tempo em que falece o siso à maior parte das pessoas e as crianças saem de suas mães já a balbuciar e a cometer dislates. Na opinião de minha mãe, sou descancarado e sandeu. É juntando todos estes defeitos que me atrevo a fazer-vos a tal pergunta.

            Fernão Lopes, sorria, com uma expressão intrigada e divertida, enquanto o moço desfiava o seu estranho e curricular prólogo. Compôs um ar severo e incitou-o:

            – Dize lá rapaz!

            – Vossa senhoria disse que meu pai não deveria elogiar, nem a vossa pessoa, nem a vossa obra, para não ter dissabores no Tombo. Por que havia de ter prejuízos por elogiar pessoa tão sábia como vós e obra tão excelente como a vossa?

            Em Fernão Lopes, a expressão zombeteira diluiu-se num ar ausente, ficando mergulhado em cogitações. Demorou tanto tempo a responder que Lopo pensou que não o tivesse escutado ou, então, houvesse esquecido a questão. E, quando falou, não foi para esclarecer, pelo menos de forma directa, a dúvida que o jovem colocara:

            – O pouco que sei – começou enfim – bebi-o em códices da biblioteca real. Sócrates, Aristóteles, Santo Agostinho, Cícero, Séneca, Petrarca… Com estes e com outros mestres aprendi que a justiça é madre de todas as virtudes – fez uma pausa – Foi para guardar justiça, para que os direitos e privilégios dos povos sejam mantidos e respeitados que existem os príncipes. Os príncipes ou zelam para que a justiça exista na terra ou não se justifica o mandato que receberam de Deus. Quando se nega justiça a alguém, injuria-se a Deus, ao príncipe e à terra. Sem justiça não há sossego possível em nenhuma cidade ou reino, pois assim como é a alma que sustenta o corpo, é a justiça que suporta os reinos. E sendo este um princípio tão simples e elementar, defendê-lo nem sempre é fácil e muito menos conveniente.

            Em silêncio, o moço ia escutando a sabedoria que brotava da boca do ancião, sem perceber qual a relação entre tão justas palavras e a pergunta que fizera. Dias depois viria a perceber esse nexo, pois naquela tarde mais nada obteve. O cronista ficou em silêncio, com ar distante, a cabeça apoiada numa das mãos e fez um aceno a Lopo, quando este se despediu. Chegara o anoitecer e o rapaz tinha horas fixadas pela mãe para chegar a casa. Foi, após mais alguns desencontros, noutro final de dia, bebendo o seu hidromel, o mestre um pouco de vinho, comendo ambos a deliciosa cidrada, que voltaram à conversa interrompida:

            – O meu trabalho na Torre fez-me merecer a confiança da Corte. Como te disse, ascendi a escrivão da puridade do infante D. Fernando. D. Duarte, ainda infante, encarregou-me em 1419 de organizar uma crónica geral do Reino, referindo todos os reinados anteriores ao de el-rei D. João I. Pouco depois de subir ao trono, em 1434, atribuiu-me uma tença por esse trabalho. – Bebeu um gole de vinho e prosseguiu – Em 1439, o regente, o excelso senhor D. Pedro, confirmou a tença que D. Duarte, que entretanto faleceu, me concedera. Foi nesta era que se deu o grande levantamento popular contra a rainha D. Leonor e a proclamação do regente. Em 1443, o partido da rainha e da nobreza estava conspirando para abrir caminho à invasão castelhana e por todo o Reino o povo se levantou em armas. Foi sob a inspiração do que irrompia em meu redor que escrevi o texto sobre o cerco de Lisboa de sessenta anos antes. Embora a era fosse diferente e as circunstâncias também, o entusiasmo que se respirava era semelhante. E de novo fomos vitoriosos. Há dez anos, o mesmo senhor D. Pedro atribuiu-me nova tença, sinal de que o meu trabalho merecia a sua aprovação. Como te disse, nos meus escritos sempre realcei o papel dos vilões, dos mesteirais, dos homens-bons e da gente miúda em geral, porque o bem do povo, é que justifica que haja governantes e não o contrário, como alguns nobres nos querem fazer acreditar. Esse era também o entendimento do regente e foi essa convicção que o perdeu. Como te disse há dias atrás, defender a justiça e a verdade quase nunca, é coisa fácil e, muito menos, conveniente. – Depois desta tirada, fez novo silêncio. O rapaz ficara, suspenso de palavras tão eloquentes, a meio de uma dentada no doce e aproveitou para comer mais um pouco. Este sábio, falava com ele, não com o desdém viril de seu avô, considerando todos os que não fossem guerreiros como maricões, com a condescendência intelectual de seu pai, para o qual quem não tivesse lido a Suma Teológica não deveria sequer ser autorizado a falar, ou com o ar resignado de sua mãe, que mais parecia dirigir-se a uma criança de colo. O ancião continuou:

            – Com a morte do senhor D. Pedro em Alfarrobeira tudo mudou. El-rei D. Afonso aumentou o valor da minha tença e isso parecia querer significar que também a ele e a seus validos o meu trabalho agradava. Assim não era. Os tempos mudavam. Os senhores voltavam a pôr o pé sobre os pescoços e os direitos dos súbditos. A minha escrita já não convinha a esses novos tempos. Estava velha para a nova idade, disseram em tal segredo que aos meus ouvidos logo chegou. Conservaram o meu cargo de guarda-mor do Tombo, mas admitiram o filho de um cónego, moço criado na corte e habituado a vergar a coluna como os moços de esporas e os lacaios, a dançar de acordo com a música nova que ora se tocava. Vergar a coluna e dançar modas novas, a mim que só sei bailar a baixa e o tordião… Essas são proezas que a idade já não permite cometer – calou-se de novo por momentos, concluindo depois – Nem tampouco a dobrar a pena, habituada à honradez das palavras, vergá-la aos interesses dos senhores, coisa que os meus mestres, aqueles tais que me ensinaram que a justiça é a madre de todas as outras virtudes, nunca me perdoariam – fez uma pausa, como se o que ia dizer lhe fosse sumamente doloroso – Há cinco anos mandaram-me para casa, dizendo que estava velho, doente e que precisava de descansar. O que nem era mentira, embora a preocupação sobre a minha idade e canseira, fosse a última coisa que os afligia. Aumentaram-me a tença não para que continuasse a escrever, mas para que deixasse de o fazer. Vê lá tu bem, esta ironia: pagam-me para que não trabalhe – riu-se – quão privilegiado sou! -Fitou o jovem nos olhos e, finalmente, respondeu à pergunta que este lhe fizera – Aqui tens, rapaz, a razão pela qual não é saudável para ninguém gabar a minha pessoa ou o meu trabalho. Lembro-me muito bem do teu pai. Simão de Mateus sempre foi um leal e honesto homem e, ademais, excelente copista cujo labor eu muito apreciava. Muito te deves de orgulhar de ter um pai assim. Dá-lhe um abraço por mim e explica-lhe o que te acabo de dizer.

            – Senhor, vou tentar – respondeu, vaidoso, mas embaraçado com o rasgado elogio tecido a Simão. Nessa noite, durante a ceia, com pés de lã e palavras de seda, foi revelando a seu pai as conversas que tivera com o mestre. Lá conseguiu, temerosamente, mas encorajado pela crescente atenção que o pai lhe ia dando, reproduzir o recado. Simão, cuja emoção subia à medida que o filho falava, parecia muito perturbado. Quando Lopo chegou ao fim, à referência pessoal, ao elogio e à saudação amistosa que o mestre lhe enviara, pousou a colher da sopa e tapou os olhos com as mãos. Branca Maria olhou-o preocupada:

            – Simão, acaba de cear – O pai levantou-se e saiu da cozinha. Ao passar atrás do escano de Lopo, acariciou-lhe os cabelos como fazia quando ele era pequeno. O avô, que parecera não atentar em nada do que o neto dissera, nem na reacção emocionada do filho, rosmeou, enquanto sorvia a sopa com o habitual ruído, não sem antes ter feito o atávico gesto de cuspir:

            – Ora, já se vê, copistas!

               


 

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