O MAPA (A saga do anadel).16«Que marravilha-por Carlos Loures

Lisboa, sexta-feira, 28 de Janeiro de 1485

 

Após o jantar, entre o toque da Sexta e o das Vésperas e às vezes mesmo até às Trindades, os cinco amigos reuniam-se como vinha sendo hábito desde há meses, na oficina de Lopo de Mateus, no beco do Mancelos, a São João da Praça. Além do debuxante de mapas, o Mestre José Vizinho, também conhecido por Mestre José Judeu, um viseense de origem judaica, médico, era também matemático e cosmógrafo. Homem de meia-idade, entroncado, barbas negras tingidas por cãs, falava devagar, como se cada palavra tivesse de ser, antes de ser dita, mastigada pelo cérebro. Outro dos membros da assembleia era o Mestre Rodrigo, físico e hebreu como Vizinho. Com este, trabalhava há anos no aperfeiçoamento do astrolábio, indo ambos com frequência à corte, onde el-rei se inteirava dos progressos nas investigações que faziam. Não teria atingido ainda os quarenta anos, sendo magro, esguio. Os seus gestos eram nervosos, gaguejando levemente quando explicava algo que para ele era óbvio e para os outros não. O terceiro dos visitantes era um jovem de 25 anos, Martin Behaim, Martinho da Boémia, como era conhecido. Falava um português ainda hesitante, pois sendo germano, apenas chegara a Lisboa cerca de um ano antes. Dedicando-se ao comércio para sustentar a família, a sua ocupação dilecta eram a Matemática e as ciências náuticas. Trabalhava num globo que, todos eles assim o esperavam, iria revolucionar a ciência geográfica. Grande, forte, de cabelos escuros e longos, era homem com voz impositiva onde a única hesitação era de natureza linguística. Olhava com frequência para José, que dominando o alemão e o hebraico, o ajudava a encontrar os vocábulos portugueses precisos.

O quinto e último participante era Saul Navarro, um hebreu nascido em Lisboa há mais de sessenta anos. Magro, alto, um pouco calvo, era o ancião do grupo. Tentara, sem êxito, montar uma oficina de imprimissão, como as que começavam a surgir por toda a Europa. Dedicava-se ao comércio de livros com uma tenda aberta na Rua Nova dos Mercadores, negócio que já lhe ficara de seu pai. Ia partir para o estrangeiro e Lopo mandou Nicolau libertar de papéis e vasos com tinta a grande mesa onde trabalhava. Matilde, ajudada pela cunhada Beatriz, preparara-lhes uma merenda principesca com base numa excelente vianda de vitela que Francisco, o carniceiro marido de Beatriz, arranjara para a ocasião. Bom pão acabado de cozer no forno familiar e um vinho especial, comprado a Jacob, que o importava de Alenquer, completavam o ágape. Navarro era um bom amigo e todos estavam tristes pela sua partida, embora soubessem que fora incumbido de uma missão. Não dissera para onde ia, nem o que ia fazer e ninguém lho perguntou. A explicação oficial foi a de que partia pressionado pelo ambiente anti-judaico que começava a viver-se em Lisboa. A sua tenda já fora vandalizada por diversas vezes e recebera cartas ameaçadoras. Viúvo, sem filhos nem família chegada, decidiu partir para um local onde pudesse envelhecer em paz. Isto foi o que contou aos comerciantes amigos e aos vizinhos. Aqui, na oficina de Lopo, não explicou nada. Não era necessário. Rodrigo e José tinham-no levado, meses atrás, à presença do Conde de Cantanhede, D. Pedro de Menezes. Sabiam que, depois, terá lá ido por diversas vezes à Alcáçova encontrar-se com o conde e talvez com alguém de ainda maior altura… Ali, não se faziam perguntas desse tipo. Comeram e beberam animadamente. Nicolau serviu-os e, incitado pelos mestres, participou também na merenda.

Depois, saciados os estômagos, Nicolau levantou louças e restos da refeição e, ajudado pelos mestres, limpou cuidadosamente o tampo da mesa. Quando soaram as trindades, o mestre disse-lhe que se podia ir embora e o rapaz, despedindo-se, saiu. Lopo foi buscar a um armário um rolo de papel. Desdobrou-o. Sobre cada um dos quatro cantos, colocou um peso. O mapa em que todos tinham colaborado ficara finalmente pronto. Olharam-no extasiados.

– Qué marravilha! – Exclamou Martinho da Boémia.

 

 

 

 

Lisboa, sexta-feira, 28 de Janeiro de 1485

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