O MAPA (A SAGA DO ANADEL) -Sevilha/ 22 por Carlos Loures

Sevilha, ano de 1480.

 

Anos depois, a família de Alonso fixou-se no reino de Castela e Leão, em Sevilha. A epidemia de peste bubónica e a revolta de Leonardo de Alagòn, haviam tornado a Sardenha inabitável para as famílias dos soldados aragoneses ou para os mercenários estrangeiros incorporados nas hostes de Aragão, como era o caso de Federico Díaz. Cerca de 1471, a família veio, pois, para a Península Ibérica. Federico era um soldado, um guerreiro profissional, não sabia fazer mais nada senão combater. Assim, depressa arranjou lugar nos exércitos dos Reis Católicos que, na Andaluzia, lutavam com as hostes de Muley Abul Hassan, sultão do reino de Granada. Em 1474, morreu em combate, perto de Alora, num recontro com uma patrulha moura. Marianna, a quem o desgosto de abandonar a sua ilha, fizera adoecer e definhar, morreu um ano depois. Há quem diga que morreu envenenada que, por erro tomou, em vez da mezinha para a tosse, uma dose de bisa, raiz do aconitum ferox, droga muito venenosa que se usa na composição de pomadas e linimentos. A criada, uma sarda que viera de Sassari com a família, afirmava que lhe haviam posto bisa no xarope que tomava para combater a tosse que a atormentava desde há meses.

A criada sarda, que depois desapareceu, disse que teria sido Alonso a envenenar a mãe, misturando-lhe a bisa no xarope e vindo depois, como bom filho, dar-lhe uma colher à boca sempre que ela tossia. Ninguém lhe deu ouvidos. Disse também que, sendo ele quem encontrara Marianna morta, o vira retirar do pescoço da mãe a corrente de ouro em que ela trazia um crucifixo. Falou-se também muito em suicídio. Dizem-se sempre muitas coisas. Diz-se, por exemplo, que a criada sarda, uma tal Lissurza, apareceu dias depois a boiar no Guadalquivir, inchada e violácea pela permanência prolongada na água. Teria, diz-se, embora seja pouco natural, uma tatuagem com o seu nome, onde após um traço se lia o nome da sua terra Tátari – Sardigna. E degolada. Trabalho de amador, com múltiplos golpes de mão infirme, disseram os aguazis que a pescaram do rio.

 Com quinze anos, Alonso Antòni, que sempre detestara a mãe e que tivera admiração pelo pai, embora lhe tenha censurado o ter-se casado com uma sarda só pelo facto de a ter engravidado, ficou sem família o que não pareceu dar-lhe grande desgosto. Recolhido no Convento de San Pablo, de que era prior frei Alonso de Ojeda, seu padrinho, ali completou a educação. O carácter perspicaz e tortuoso do jovem não passou despercebido ao prior do convento dominicano, homem ligado à implantação do Santo Ofício no reino de Castela e Leão.

No final do ano de 1477, Fernando de Aragão e Isabel, haviam chegado a Sevilha, cidade que visitavam pela primeira vez. Isabel estava grávida e ficou na cidade durante o Inverno e a Primavera seguinte. Frei Alonso que, tal como o seu confrade Tomás de Torquemada, confessor da corte, viam com maus olhos a atribuição de cargos importantes a conversos e a benevolência com que os judaizantes eram tratados e influenciaram a rainha no sentido de solicitar ao papa Sisto IV uma bula que autorizasse a Coroa a estabelecer a Inquisição no seu território. Isabel assim fez. A bula Exigit sincerae devotionis affectus foi publicada em 1 de Novembro de 1478. Frei Alonso de Ojeda, foi nomeado primeiro inquisidor de Sevilha, em 1480 e Tomás de Torquemada Inquisidor Mor em 1483.

Além da parseguição aos Judeus, conversos e judaizantes que já desenvolvia antes da publicação da bula papal, frei Alonso dirigia desde há anos uma rede de recolha de informação, na época muito activa, sobretudo nas regiões que faziam fronteira com o Reino de Granada. O seu jovem afilhado foi um dos primeiros agentes dessa rede. Foram quase dez anos de formação em que assistiu a sessões de tortura, nelas participando activamente. O próprio dominicano, endurecido por anos de combate à heresia e aos judaizantes, com centenas de mortes no seu activo, se arrepiava ao observar a volúpia com que o jovem ministrava os mais cruéis e repugnantes métodos de interrogatórios. Em Maio de 1478, Alonso tivera a sua primeira missão importante, ao ser enviado à Sardenha. Espiou a favor de Aragão e isso terá impressionado o rei Fernando II, que acreditou na eficácia de Frei Alonso de Ojeda.

Era com deleite que aplicava o sistema da touca, que consistia em enfiar um lenço de mulher ou touca, pela boca abaixo do preso, até à traqueia, deitando-lhe depois água até empapar o pano e produzindo uma horrível sensação de afogamento. Quando os presos morriam sufocados ou por paragem súbita do coração, ria-se e encolhia os ombros. Ossos do ofício! Gostava também da garrucha, ou seja de atar o réu pelos pulsos, içando-o com a ajuda de uma poleia. Colocavam-se-lhe pesos nos pés. As perguntas sucediam-se e quando as respostas não vinham ou não eram satisfatórias, o preso era deixado cair subitamente sobre as lajes. O processo era repetido numerosas vezes e o interrogado, se estava vivo, estava também cheio de luxações e fracturas nas articulações dos ombros, cotovelos, pulsos, tornozelos, provocadas pelas repetidas quedas. O borzeguim era outra das torturas da sua afeição – os tornozelos eram apertados com várias madeiras ligadas entre si por correias e grampos de ferro. O aperto ia aumentando até a articulação tíbio-társica estoirar. Era um excelente método para «casos simples», pois o preso não morria, embora ficasse coxo para toda a vida. Gostava também do potro, da roda, da donzela de ferro. Enfim, era um interrogador criativo e receptivo a inovações.

Guardava sempre recordações das vítimas, em geral medalhas com a efígie de santos, crucifixos, estrelas de David, anéis. Ia colocando estes pequenos objectos numa grossa corrente de ouro que trazia ao pescoço. Uma judia de meia-idade, acusada de bruxaria, trazia consigo um belo códice iluminado – o Sefer ha-Zohar – «O Livro do Esplendor», escrito pelo sábio rabi Shimon bar Yochai. Antes de torturar a mulher até à morte, utilizando o método da touca – ela fazia-lhe lembrar Marianna – tirou-lhe o livro que, para a judia parecia ter um grande significado. Imobilizada, amordaçada, mantivera-se calma até o livro lhe ter sido tirado. As lágrimas brotaram-lhe dos olhos e Alonso, retirando-lhe o pano perguntou:

– Gostas muito deste livro? – fez a pergunta com um ar solícito, respeitoso quase.

– Sim, meu senhor. Deu-mo a minha mãe antes de morrer.

– Não te preocupes! Vais já estar com ela – e enfiou-lhe o pano até à traqueia. Quando lhe despejou pelo funil litros de água, a judia não resistiu durante muito tempo e com um estremecimento profundo, morreu. Pensativo, Alonso Díaz, olhou o livro e guardou-o.

Alonso de Ojeda pôde também observar que no confronto físico, durante as sessões de adestramento, Alonso mostrava-se fraco, temeroso e hesitante, sendo facilmente derrotado pelos outros rapazes, inclusivamente pelos mais novos. Porém, com fracos dotes para a esgrima, tornou-se hábil no uso de armas de lâmina curta, adagas e punhais. Ambidextro, com o punho bem agarrado e a folha dissimulada ao longo do braço, a mão direita vazia, parecendo desarmado, o punhal surgia-lhe como por artes mágicas na mão esquerda, apanhando os adversários desprevenidos. Depressa percebeu que o seu afilhado não era um guerreiro, nem um homem de espada – era um espia, um apunhalador. Nos anos que se seguiram, aprendeu árabe, hebraico, francês, português, para poder intervir onde Castela tinha mais interesse em espiar. Dado a sua tez morena, com facilidade passava por mouro, judeu, português, francês meridional, podendo espiar nos países com que Castela tinha fronteiras e outros, como Veneza, sobre os quais interessava ter informação. Para os estados da península italiana, usava os conhecimentos de sardo e de toscano, afirmando-se ítalo – o que era uma meia-verdade… A aprendizagem de sardo, catalão e toscano, que tanto o tinham revoltado na infância, prepararam-no agora para vencer barreiras idiomáticas com maior facilidade do que costuma acontecer com os castelhanos. Transformou-se num espião hábil e eficaz, sem outro objectivo na vida que não fosse o de servir o seu Reino.

 

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