QUE NINGUÉM SE ESQUEÇA por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

Que mundo estranho aquele em que acordamos todos os dias, no quentinho das nossas camas, no duche refrescante que nos dá vigor e no pequeno-almoço como gostamos.

Abrimos os jornais ou vemos um telejornal e o mundo virou de página.

Os bébés siameses sírios comoveram o mundo, o Dr. Gentil Martins ofereceu-se para os operar com a sua equipa, de graça.

A Itália está de luto não por culpa humana, mas porque a Natureza se zanga com o mundo que criámos.

A menina de nove anos foi retirada dos escombros e de novo o mundo ficou emocionado com o trabalho daqueles homens e mulheres, que com todo o seu acreditar, não desistem de encontrar pessoas vivas!

Ao mesmo tempo que nos emocionamos com os incêndios na Madeira e no Continente, como nos emocionamos com o estado de saúde ou de falta dela, do Tiago que foi barbaramente agredido por dois jovens que tentaram justificar tanta violência com o álcool, com a idade por serem jovens e por isso não se controlaram.

Talvez o dono do bar não soubesse que não pode vender bebidas alcoólicas a menores, talvez os jovens não soubessem que não podem baixar as calças publicamente, talvez também não soubessem que não se pode conduzir alcoolizado. Talvez, talvez.

Talvez eu não entenda estas justificações, não me interessa a nacionalidade, as crenças religiosas de cada um, interessa-me ver uma juventude que acha que é natural ser-se violento até ao coma.

Interessa-me saber porque é que estes jovens andam em bares a consumir álcool.

Interessa-me saber que representações sociais têm os nossos jovens do que significa conviver, do que significa democracia, cidadania.

Como se criou este caminho para a violência? A sociedade, ou seja, nós, nós não cumprimos com as nossas convicções de liberdade, de respeito pelos outros.

O nosso dia 25 de Abril tem que se renovar, a luta é diferente, mas tem que acontecer. Eu acredito no lado bom da Humanidade, eu acredito que a violência comece a ser a excepção, que o amor pelas crianças seja tão natural como o respirar, pois é por amor que nós nascemos, é por amor que geramos os nossos filhos e que os vemos crescer.

Todas as crianças são nossas filhas que têm que ser acarinhadas, mimadas para que a liberdade e a cidadania se cumpra.

Que ninguém se esqueça dos olhinhos lacrimejantes dos meninos soldados, das meninas violadas, dos meninos escravos…

Cabecinha boa de menino triste,

De menino triste que sofre sozinho,

Que sozinho sofre e resiste.

Cecília Meireles “A Viagem”

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