É conhecido ainda hoje como o “Papa do sorriso”. Aquele sorriso de quem vê-sabe que também o papa vai nu. Faz-se chamar João Paulo, um nome nunca antes escolhido pelos seu muitos predecessores, como a dizer inequivocamente que quer ser o papa do Concílio Vaticano II, em que também participou como padre conciliar, e que foi convocado por João XXIII e concluído por Paulo VI. Por isso, João Paulo. Não lhe perdoarão esta ousadia. Para cúmulo, logo depois de eleito, recusa a tradicional coroação papal. Recusa também fazer-se transportar na cadeira gestatória. Nos dias que se seguem, vai ainda mais longe: nas tradicionais catequeses das quartas-feiras, atreve-se a pôr de lado os papéis escritos por outros curiais para ele ler na ocasião – nem ele próprio entende aqueles conteúdos doutrinais cheios de bolor – e passa a falar de improviso. Sempre de sorriso nos lábios e naqueles olhos de menino. Os jornalistas presentes abrem as bocas de espanto. Mais ainda, quando, num desses improvisos, ouvem-no dizer-ensinar que “Deus é Pai, mas sobretudo Mãe!” Por isso, mais feminino do que masculino. Só entranhas de ternura e fecundidade, nenhum poder.
Abalam-se, naquela hora, os alicerces das duas imperiais Basílicas de Roma, a de S. Pedro e a de S. Paulo. S. Pedro, o maior negador – é o que quer dizer a expressão evangélica “três vezes” – de Jesus histórico, logo que o vê preso, julgado, condenado à morte e executado na cruz do império, e totalmente abandonado por Deus todo-poderoso, o dos seus antepassados; S. Paulo, o maior perseguidor de Jesus, desde que, a caminho de Damasco onde acaba por ser informado que o Cristo ou Messias davídico, cuja chegada ele e os seus irmãos judeus esperavam para aqueles dias, afinal, já havia chegado como o vencedor da morte, no interesseiro dizer-ensinar de Pedro e seus companheiros, todos traidores de Jesus. De bom grado, adere entusiasticamente ao mítico Cristo davídico de Pedro e passa a perseguir furiosamente o judeu Jesus, crucificado em Abril do ano 30 pelo império romano. Tanto assim, que nem sequer aceita a presença de Marcos, o do Evangelho com o mesmo nome que testemunha Jesus, o camponês-artesão de Nazaré, o filho de Maria, nas viagens que decide empreender para levar a notícia messiânica às sinagogas das principais cidades de fala grega do império romano, onde todos os sábados os judeus da diáspora se reúnem.
Perde o sono, a Cúria romana com um papa assim, de todo imprevisível. É certo que, já, antes, como patriarca de Veneza, Albino Luciani, de seu nome natalício, havia dado nas vistas, apesar da sua discrição e simplicidade. Por isso o escolhem, na convicção de que a mudança de nome e de função no topo dos topos da pirâmide católica romana o faria acomodar-se ao que institucionalmente se espera de quem, como ele, aceita a eleição do Colégio cardinalício. Cedo, porém, começam a ver que, com ele, não irá ser assim. Não têm mais dúvidas, quando os seus mais próximos percebem que ele se prepara para concretizar uma revolução teológica e eclesial desarmada, que, à distância, significaria o fim da Cúria e do próprio Papado imperial, protagonizado, pela primeira vez, por Constantino no século IV. Todos os cardeais “colunas” da Cúria, tidos como inamovíveis até à morte de cada um, serão afastados por ele, para cederem o lugar a seres humanos com coração e honestidade intelectual.
São estes “inamovíveis” que não hesitam em fazer o que, em seu entender, tem de ser feito. E o que, no seu entender, tem de ser feito é impedir que semelhante revolução evangélica se concretize. Vai daí, na noite que antecede o dia 33 da sua eleição, em que o papa João Paulo I irá anunciar “urbi et orbi” os nomes da radical mudança, é mortalmente envenenado por um deles. Quando, na manhã seguinte, a freira de serviço bate à porta do quarto com a habitual saudação, ninguém responde, por mais que as batidas e as palavras rituais da saudação sejam repetidas. Até que vem um dos cúmplices do assassinato e faz abrir a porta do quarto. Encontram o papa do sorriso sentado na beira da cama, com a lista, numa das mãos, dos nomes a serem removidos, mas já não é mais ele. Apenas o seu cadáver que nunca será autopsiado, porque o cristianismo é intrinsecamente perverso, mentiroso, assassino, divino, por isso, sempre acima de toda a suspeita.
Aliás, só por ser assim tem conseguido manter-se através dos séculos, porque não hesita em desfazer-se, na hora, de quantas, quantos ousem dissentir dele. A cruz do império é o seu símbolo maior, para que quem ingenuamente lhe dá a sua adesão saiba, à partida, que, se dissente dele, é sistematicamente desacreditado, banido, crucificado. O que o império romano faz a Jesus Nazaré, em Abril do ano 30, é exactamente o que o cristianismo faz, em cada geração, a quantas, quantos dele dissentem. A cruz, por mais que a doutrina cristã diga que é de redenção, não deixa de ser o que historicamente foi, o instrumento de tortura do império. Baptizada-crismada como instrumento de redenção pela teologia cristã, acaba ainda mais cruel e sádica do que quando o império romano recorria a ela para executar os seus opositores políticos reais, ou que ele supunha serem seus opositores políticos reais.
A recente inauguração do Museu com o espólio de Albino Luciani/João Paulo I contou com a presença do secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin. Fica instalado num prédio do século XV e inclui filmes, áudios e fotografias que, no dizer da Rádio Vaaticano, pretendem “levar o visitante a mergulhar na trajectória humana e espiritual” de Albino Luciani, assassinado ao 33.º dia da sua eleição. Uma coisa é garantida: No Museu não encontrarão nenhuma pista que leve os potenciais frequentadores desse tipo de espaços mortos a concluir que o Papa do sorriso foi mortalmente envenenado. Admiti-lo, seria admitir a verdade e, com ela, o fim do papado, da Cúria romana, da igreja católica, do próprio cristianismo. Não pensem que este dia nunca mais chegará. Tem de chegar, porque só a Verdade praticada nos faz humanos, por isso, livres e irmãos. Outros Jesus.