CARTA DO RIO – 115 por Rachel Gutiérrez

riojaneiro2

O Brasil é o país da gambiarra. A palavra, de uso popular, que servia para designar uma extensão puxada fraudulentamente para furtar energia elétrica, serve também  para explicar vários fenômenos brasileiros.

O espetáculo emocionante da Abertura dos Jogos Olímpicos, por exemplo, revelou que, com a inventividade e o jeitinho brasileiro, gastou-se muito pouco para obter efeitos extraordinários. Essa foi uma gambiarra positiva da qual muito nos orgulhamos. Porém, não foi positiva quando “Renan (Calheiros, o presidente do Senado) e a bancada do PMDB fatiaram a Constituição, condenaram Dilma (Rousseff) por irresponsabilidade fiscal e mantiveram seus direitos políticos. Não me parece que fizerem isso por Dilma”, escreve neste domingo Fernando Gabeira: “No fundo é também uma manobra defensiva, prevendo o próprio futuro.” Essa foi a gambiarra malandra praticada no Senado Federal. A primeira tinha sido perpetrada pelo ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, ao escolher, entre os vários pedidos de impeachment que mantinha arquivados, o que se referia a questões jurídicas específicas da Lei de Responsabilidade Fiscal,  o que não poderia repercutir em outros processos, inclusive no seu.

Vejamos o que escreve, agora, um dos comentaristas políticos, Ricardo Noblat, sobre aquele momento:

“A Câmara aprovou a instauração do processo de impeachment por 367 votos contra 137 e 7 abstenções. A esperança de Lula de salvar o mandato de Dilma morreu ali. Ontem, (dia 31 de agosto), não foi só o ciclo do PT no poder que morreu. Na verdade, morreu a Nova República, regime inaugurado em 1985, com a eleição do presidente Tancredo Neves, e que teve em Lula seu personagem mais marcante.”

E sobre seu último momento, escreveu o sociólogo Demétrio Magnoli:

“O impeachment produziu as maiores manifestações públicas da História do Brasil. Porém, na hora derradeira, registrou-se apenas um suspiro de alívio. Faz sentido: não se escreve realmente certo por linhas tortas.”

E a economista Míriam Leitão observou:

“A reconstrução será lenta porque a economia permanece inerte (…) A confiança terá que ser construída com reformas que indiquem uma saída futura desse túnel. Não há, contudo, uma reforma salvadora.

Sarney (primeiro presidente do novo ciclo democrático) assumiu após uma tragédia: a morte do presidente que o Brasil escolhera em seu coração, apesar de não ter votado nele. Itamar e Temer tiveram posses rápidas após rupturas políticas (os 2 casos de impeachment da nossa história recente). Não houve, contudo, em nenhum dos casos ruptura institucional. A democracia brasileira foi confirmada a cada nova crise. E é na democracia que será possível encontrar a solução para as crises econômicas.”

Sobre a possibilidade de novas eleições, escreve Cid Benjamin:

“Fecha-se o ciclo aberto pela Constituição de 88. O sistema político se esgotou. A sociedade não se vê representada pelo Congresso. Uma saída seriam eleições gerais, desejo de 62%. Mas sem reforma política, para que algo mude só havendo pressão das ruas.”

Com contundência, Ancelmo Góis comenta:

“As multidões foram às ruas nas jornadas de 2015, levadas pela crise econômica e pela indignação com a roubalheira revelada pela Lava-Jato. As ruas, então, foram tomadas por gente com nojo do PT e asco da classe política. A começar pelo PMDB de Temer, um partido que, com raras exceções, não tem vergonha na cara, a ponto de acoitar Eduardo Cunha.”

Será que o “nojo do PT” só existe entre elitistas de direita, pelos quais Lula e Dilma se dizem perseguidos e dos quais se sentem vítimas?

Afinal, como agia o PT nos bastidores de suas campanhas e do seu poder? Em artigo deste sábado, 1º de setembro, a acadêmica Ana Maria Machado, faz algumas observações:

“Há alguns anos, Fernando Gabeira revelou que, sendo candidato petista, amadureceu a decisão de sair do partido quando, ao gravar um programa eleitoral, foi surpreendido por uma encenação coletiva em que políticos de ar sério e pastas na mão fingiam se consultar ou exibir papéis e projetos em gestos teatrais, como se estivessem trabalhando. Chocado com a farsa preparada para enganar os eleitores, pura casca sem substância, concluiu que não queria continuar participando daquilo.”

Nesta nossa época tão dominada pelo marketing e pela propaganda, podemos pensar que Gabeira foi apenas ingênuo ou puritano. Mas compreendemos e aplaudimos a decisão de Gabeira quando lembramos que na campanha de 2014, João Santana, o marqueteiro (hoje preso) de Dilma divulgou um vídeo absolutamente infame, que mostrava os pratos de comida desaparecendo das mesas dos pobres como consequência deles terem votado em Marina Silva, sua principal concorrente na eleição para a presidência.

Continuemos com Ana Maria Machado:

“Há menos de um mês, dia 19 de agosto, em entrevista à BBC, Lula afirmou que em seu governo o Brasil era um país mais rico do que a Inglaterra. A fanfarronice pode ter sido recebida com sorrisos zombeteiros de alguns ou gargalhadas de outros, racionalmente incapazes de aceitar que agora sumiu de repente, como carruagem de Cinderela nas 12 badaladas, esse país tão rico que não chegou a ser visto, com a pobreza resolvida em nível britânico – em saneamento básico, saúde gratuita para todos, habitação popular, escola de qualidade, transporte de massa adequado e segurança pública  que permita a qualquer cidadão andar tranquilamente em sua cidade a qualquer hora.” A ironia da escritora chega a doer! Mas a cegueira (ou a ficção?) do velho PT continua a mesma.

Ouçamos o Senador Cristovam Buarque:

“A nova esquerda deve partir do reconhecimento de que o impeachment decorre do fracasso da esquerda velha, que deveria ter feito uma autocrítica, o que a arrogância e o acomodamento no poder não permitiram. Deve perceber que a sociedade justa depende de uma economia eficiente; isto exige respeitar os limites fiscais e entender que a propriedade privada dos meios de produção e o mercado dinamizam a economia, criando os recursos a serem aplicados na sociedade. Entender que não há muita margem para influir no funcionamento da economia com base em vontade ideológica; que o espaço da esquerda está na definição do uso de recursos da economia eficiente para servir o social; também que o populismo leva a desastres sociais. Deve assumir e explicitar seu compromisso com a democracia, as liberdades individuais e de imprensa; deve entender que o capital está no domínio do conhecimento; substituir a proposta de estatizar os meios de produção pelo compromisso de universalizar o capital conhecimento, colocando os filhos dos trabalhadores em escola com a mesma qualidade dos filhos dos patrões; entender que não é mais o crescimento econômico e a distribuição de seu produto e renda que fazem o mundo melhor, mas a elevação do bem-estar social, em equilíbrio ecológico.”

É sobre tudo isso que devemos refletir.

Leave a Reply