Abri a porta e o vi parado, sorriso nos lábios, uma bolsa de couro enorme pendurada no ombro. Tom, meu labrador de pêlo amarelo, rosnou para ele.
Fernando olhou para Tom, rosnou também e ainda me mostrando os dentes brancos, entrou sem pedir licença, deixou a bolsa no quarto, foi para a cozinha, pegou um copo, pediu suco. Tom o seguiu, rosnando. Abri a geladeira e o servi.
“Sua geladeira só tem suco?”
“Eu não esperava visitas. O que você faz aqui numa sexta-feira à noite?”
“Adivinha.”
“Já sei. Sua mulher viajou com as crianças e você veio passar o fim de semana comigo.”
“Melhor.”
“Melhor?”
Ele arrastou uma cadeira, sentou-se, me puxou para o colo. Beijou minha boca longamente.
Após bom minuto de suspense, deu a notícia, sussurrando, como se estivesse contando um segredo.
“Eu saí de casa.”
Tom se deitou no chão, esticou o pescoço, levantou as orelhas. Eu dei um pulo, peguei o copo na mesa e fui lavá-lo na pia. Um ano e meio de, digamos, relacionamento regular, quintas e sábados à tarde com a duração de duas partidas de futebol, intervalos incluídos.
“Você, o quê?”
De pé, me abraçando por trás, falou baixinho junto ao meu ouvido:
“Eu saí de casa, deixei minha mulher.”
Virei-me de frente para ele e o afastei. A situação exigia uma pergunta direta.
“E agora, para onde você vai?”
Tom inclinou de leve a cabeça para o lado. Ele fez igual.
“Natália, eu larguei minha vida por você.”
Viver é melodramático. Depois de duas tentativas de terminar nosso caso, ele procurava agora outra solução para os próprios problemas: transferi-los para mim.
Puxei-o pela mão até a sala. Tom, sempre atrás, os pêlos eriçados, o olhar atento, acompanhando cada gesto meu. No meio da sala ele largou a minha mão e foi até a janela. Ficou alguns minutos parecendo contar as folhas da amendoeira. Falou sem me olhar.
“Você não ficou feliz.”
Homens. A voz queixosa provocou uma descarga de tesão no meu corpo. Respirei fundo, antes de responder.
“Eu estou surpresa. Você não me avisou. Quer dizer, deixar sua mulher é problema seu, não é da minha conta. Mas vir morar aqui é problema nosso. Eu deveria ter sido consultada.”
Fernando se virou para mim.
“Mas você disse que queria.”
“Eu?”
“Você sempre diz que quer amanhecer nos meus braços, tomar o café da manhã comigo.”
Conversas de cama deveriam desaparecer entre os lençóis. Ou os homens deveriam ter uma capacidade maior de abstração.
“Você sempre diz que vai morrer quando está gozando e nem por isso eu chamo uma ambulância.”
Achei a resposta um primor de lógica, mas ele não gostou. Desviou-se de mim, trouxe a bolsa do quarto.
Tom, dormitando no tapete, arregalou os olhos e levantou novamente as orelhas.
Fernando abriu a porta e eu a fechei.
“Espera. Está tarde. Vamos dormir, amanhã a gente conversa, com a cabeça fria.”
“Você tem razão. Eu deveria ter perguntado.”
“É. Mas agora vem cá.”
Naquele momento, meus mecanismos de resistência estavam esgotados. Ele tentou fugir das carícias mas, a caminho do quarto, se rendeu.
De repente me vi com marido, dois enteados, sogra, ex-mulher. Família grande demais. Ao menos para mim, eremita irremediável, separada por absoluta intolerância de gênios, sem filhos – a golpes de sorte e de cureta.
Dois garotos pulando pela casa, um pai permissivo para evitar os traumas da separação, uma ex-mulher ao telefone, a qualquer hora, por qualquer febre ou dor de barriga era muito mais do que eu poderia suportar.
Do outro lado, Fernando, capaz de me implodir de prazer antes mesmo de tocar meu corpo.
Dormi, exausta, quando um monótono barulho de chuva substituiu, enfim, meus pensamentos.
O sábado amanheceu cheio de nuvens, entrecortado por chuva fina. Tom, que jamais se abala com as condições do tempo, focinhou a porta do quarto, contornou a cama arrastando a coleira pela boca. Soltou-a no chão e latiu. Acariciei sua cabeça. Fernando resmungou. Tom correu até o outro lado e rosnou para ele. Levantei-me devagar, cansada. Vesti uma bermuda, uma camiseta, e saí com Tom, depois de escovar os dentes e pentear os cabelos. Ele me arrastou meio sonâmbula. Voltamos em menos de meia hora, um pouco molhados e com o pão para o café da manhã. Tom tratou de se enxugar, sacudindo-se com energia do focinho até a ponta da cauda. Eu me enfiei sob o chuveiro. Um banho frio me ajuda a pensar.
A mesa do café estava linda. Três ameixas murchas contrastavam com o branco da toalha e da louça.
Quando entrei na cozinha, Fernando me beijou e me ofereceu uma cadeira. Senti a aura de corrupção no ar.
“Você dormiu bem?”
Ri.
“Como uma pedra.”
Ele colocou café nas duas xícaras. Retomei de supetão o assunto da noite anterior, um esboço de solução dançando na cabeça.
“Você contou à Clara sobre nós?”
“Não consegui. Foi bem difícil dizer que ia sair de casa.”
A primeira frase coerente desde a noite anterior. Terminamos o café em silêncio.
Levantei-me de repente e chamei Tom. Ele veio, arrastando a coleira que eu havia esquecido de tirar. Dei um beijo apressado em Fernando.
“Vou levar Tom pra passear.”
“Mas vocês acabaram de chegar.”
“Hoje é sábado. Ele precisa de exercício.”
“Vou com vocês, então.”
“Nós não vamos demorar. E você nem está vestido. Eu trago o jornal.”
Beijei-o novamente e saímos, Tom me puxando, bem acordada e decidida.
Em quinze minutos, estacionei o carro numa rua escondida de Botafogo, em frente ao prédio de Clara. Tom se movimentou para sair. Expliquei, iria resolver um assunto sério, mas não demoraria nada. Deixei as janelas traseiras ligeiramente abertas e entrei, a loucura que eu estava prestes a fazer exigindo toda a minha cara-de-pau e toda a velocidade do sangue nas veias.
Toquei a campainha. Parecendo esperar atrás da porta, Clara a abriu imediatamente. Pelo inchado e o vermelho dos olhos, havia chorado a noite inteira.
“Clara?”
“Sim.”
“Sou amiga do Fernando. Posso falar com você um minuto?”
Ela se apoiou no batente.
“Aconteceu alguma coisa com ele?”
Mulheres. Nesse momento, me senti quase amiga de Clara. Mais de uma vez eu havia sido dispensada por um homem e ficara, ainda assim, preocupada com o bem-estar dele.
“Não, não, nada grave.”
Constrangida pelo jeito apreensivo dela e, de algum modo, pela arrumação impecável da sala, decorada em sobretons de azul, comecei dizendo que era namorada de um amigo de Fernando. Eu precisava de um álibi. Desfiei então uma história de porre, noite em claro, lembranças. Quando terminei, ela chorava, segurando uma caixa de lenço de papel surgida não sei de onde. Antes de me arrepender, me despedi em beijinhos distantes, aconselhando-a a ligar para ele à tarde, eu não sabia por que eles haviam se separado – a única verdade que disse naquela sala – mas, quem sabe se tentassem uma conversa. Ela me abraçou, me agradeceu, sem parar de chorar.
Apesar da chuva, o dia continuava quente, abafado. Tom chegou em casa sedento, correu em direção à tigela de água. Na passagem pela sala, rosnou para Fernando, deitado no sofá. Entrei direto para o quarto e troquei a roupa. Quando voltei, ele estava sentado.
“Vai sair de novo?”
“Pilates. Estou atrasada.”
Atordoada era palavra melhor. Pela presença constante, os olhos seguindo meus passos, a visita à Clara, a possibilidade de tê-lo ali por muito tempo, de não vê-lo nunca mais.
Ao voltar, encontrei os dois, Fernando e Tom, deitados lado a lado, um no sofá, o outro no chão. A solidariedade masculina. Tom, por pouco, não me derrubou com um pulo. Fernando me segurou pela cintura.
“Você está fugindo de mim.”
“Não, minhas manhãs de sábado são agitadas. Vamos pedir uma comida chinesa?”
“Esquece a comida chinesa. Eu quero você.”
Considerei a hipótese de me aborrecer com a resposta. Mas não tinha tempo para tanta sensibilidade.
O celular tocou por volta das cinco. Quando desligou, ele me disse que Clara queria conversar.
“Você se importa?”
“Não. Marquei um teatro com amigos.”
“Volto antes de você sair.”
Não voltou.
Acordei com os dois latidos costumeiros de Tom, o domingo ensolarando o quarto. Demos o nosso passeio, pensei em comprar pão, desisti. Então, Clara não era apenas um rostinho choroso. E eu não sabia como dominar um certo receio que já substituía consideravelmente a minha determinação.
Fernando nos esperava em frente ao apartamento, um meio sorriso indefinível nos lábios.
Tom rosnou para ele.
“Eu e Clara nos entendemos.”
Abri a porta em silêncio.
“Vou voltar para casa.”
Trouxe do quarto a bolsa e a coloquei na mão dele. Continuei muda.
“Você não vai dizer nada?”
Eu poderia dizer muitas coisas. Que estava feliz. E que estava triste. Dei nele um beijo de minutos, antes da pergunta decisiva.
“Nos vemos na quinta?”
Dessa vez foi ele a ficar calado. Só pelo sorriso percebi. Tudo havia mudado bastante. Mas continuaria igual.
Fernando foi embora. Fechei a porta e deslizei minhas costas nela até me sentar no chão.