Ele poderia ter falado baixo. Nem precisava falar, bastava apontar, eu entenderia. Não. Teve que berrar, “caraca, você se machucou, eu não fiz nada”.
Garoto escandaloso. Além de quase me matar de susto, ainda chamou a atenção de todo o play para o esconderijo, canto gramado atrás do jasmineiro, vez por outra pipocado em flores brancas, de perfume tão delicioso quanto as descobertas que fazíamos ali, entre carinhos desajeitados. O silêncio era uma imposição do lugar, público apesar de secreto e, é claro, da nossa consciência.
Olhei para baixo e senti o rosto queimar ao ver a mancha escura na legging. Disparei escada acima me desvencilhando de braços e perguntas. Larguei-o cercado pelos adultos e por outras crianças, gaguejando explicações que, desconfiava, ele não tinha. Quem mandou?
Antes de entrar, encostada na parede do corredor, ajeitei os cabelos, o fôlego. Cruzei a sala do apartamento num devagarinho estudado, avisei o habitual “cheguei” à empregada.
Eu dividia um quarto com o futuro.
Acompanhava curiosa, as novidades na cama ao lado. Entre conversas e livros coloridos, já sabia tudo de hormônios, espermatozóides, origem dos bebês. Esperava ansiosa a primeira menstruação.
Minha irmã atravessava os dezesseis com muita gritaria e batida de porta. Volta e meia um “some daqui, pirralha” me corria casa afora. Eu detestava ser pirralha. Queria me tornar mulher também. Queria, exceto pelo mau humor, ser igual a ela. Bonita feito capa de revista.
Mãe e irmã voltariam para casa no final da tarde, boas três horas ainda. Mesmo assim, me tranquei no quarto. Examinei a mancha na legging, na calcinha de algodão florido. Tirei tudo, camiseta inclusive, joguei no cesto de roupa suja. Pulei para a frente do espelho. A magrela desengonçada ia, finalmente, tomar forma. Logo, logo.
Liguei o som baixinho, dancei Beyoncé nua entre as camas. Senti, feliz, uma gota de sangue escorrer de dentro de mim. Corri para o banheiro, tomei banho, me enxuguei com cuidado, evitando sujar a toalha.
Colei um absorvente à minha calcinha mais bonita e a vesti devagar, com certa solenidade.
Desprezei os shorts. Minissaia jeans e top de malha colado no peito, pensei no batom vermelho da minha irmã, mas a perspectiva do fim do mundo me fez recuar.
Bem a tempo. Ela socou a porta aos gritos de “abre essa merda, fedelha” e se atirou na cama chorando, rosto enfiado no travesseiro.
Outra discussão com o namorado, coitado, um ano aturando as esquisitices dela. Nossa mãe chegou em seguida. Apressou-se em amenizar a urgência afetiva da filha mais velha. Eu observava tudo da escrivaninha, fingindo concentração no dever de português.
Em meio a conselhos e recomendações, as duas se recostaram à cabeceira abraçadas, trocando cafunés.
Decidi dar a boa notícia. Estaquei, cerimoniosa, ao pé da cama. Escandi as palavras assim que me perceberam: “Fiquei menstruada”.
Minha irmã, olhos injetados, resmungou “agora você vai ver como é chato” e saiu em direção à cozinha. Minha mãe saltou no meu pescoço, me sufocou em beijos, reclamou, “por que você não disse antes?” e sem esperar resposta, passou meia hora me mostrando tudo de novo, as figuras coloridas, óvulos, trompas de falópio, útero. Deixei. Parecia importante para ela.
Chegou a hora dos avós, tias, pai. Mico público, menos mal, por telefone. As amigas esperariam até a manhã seguinte, na escola.
Quase todos os dias acontecia com uma de nós, já não havia sensação.
Faltava o garoto. Não sabia se queria contar a ele. Nossos encontros no play, nossas fugas para trás do jasmineiro eram, só podiam ser, namoro. Tocá-lo provocava um calor em mim que só podia ser paixão. Eu estava apaixonada. E isso era motivo? Pensei durante o jantar em todos os beijos das novelas. O escândalo da tarde roendo os miolos me fez resolver: não, ele não saberia.
Antes de dormir, desfilei em frente ao espelho. Não que esperasse mudanças em apenas algumas horas. Mas, quase jurava, os seios se empinavam um pouco mais.
Minha irmã soluçava no sono agitado, o celular mudo numa das mãos.
Passei as três tardes seguintes longe do play. O lugar, sempre repleto de crianças barulhentas, já não combinava com os modos da moça que aparecia no espelho. Além disso, a menstruação durou agitados quatro dias e entre trocas de absorventes, recebia visitas, ganhava presentes, roupas novas. Fora uma cólica leve, resolvida em quinze ou vinte minutos de bolsa de água quente, não me chateou nada. Minha irmã exagerava.
Comecei a marcar na folhinha os vinte e oito dias que me separavam da próxima.
Pelo meio do fim de semana, voltei a pensar no garoto. Talvez porque minha irmã e o namorado arrulhassem no sofá da sala, me imaginei ali com ele, mãos dadas, um filme qualquer na tevê. Para isso precisava tirar nosso namoro de trás do jasmineiro.
Escolhi a saia de malha verde com bolhinhas brancas, presente de meu pai. Um top de alças, no mesmo verde da saia. Até aquele momento, eu me arrumava para mostrar roupas às amigas.
Mas, de repente, tive consciência de que me vestia para ele. A idéia não era nem boa nem má. Só diferente. Calcei a sandália de saltinho e desta vez, arrisquei o batom vermelho.
Saí na ponta dos pés.
Cheguei ao play mal começado o segundo tempo. Embora ele tenha me visto imediatamente, não dava mesmo para largar o gol.
Esperei vinte minutos vagueando pelo pátio, olhando as crianças, o pula-pula dele entre as traves.
Ao som do apito final, ele se materializou ao meu lado, no banco de cimento à beira do campo. Perguntou do machucado. Expliquei, não era machucado, só a minha menstruação. Ouvi um “ah, sei” sussurrado. Sabia nada, tive certeza, mas preferi esquecer os detalhes, tinha assunto mais importante. Segurei sua mão, sugeri passeios, filmes, mãos dadas, namoro sério. Afinal de contas eu era uma mulher. Ele respondeu “tá legal” animado, vasculhou os arredores com os olhos, me puxou para o jasmineiro.
Arranquei minha mão da dele, tentei um recurso audiovisual, não dava para entender?, ele não assistia novela? Ah, tá, sei, ouvi novamente o sussurro. Ele se levantou, me abraçou pela cintura. O uniforme suado de goleiro roçando minha roupa nova recém-tirada do armário, caminhamos em silêncio ao redor do play. Depois de limpar o batom na manga da camiseta, me beijou. E, mão escorregando delicadamente calcinha adentro, me conduziu para trás do arbusto.
Garoto burro, eu queria xingar. Mas havia o perfume de jasmim espalhado no ar, o calor da mão atiçando o corpo. Me deixei levar, sentindo uma raiva danada de mim. Era só a primeira semana e eu já estava perdendo o controle sobre o meu futuro.