O PT subestimou o papel das comunicações e facilitou o Golpe – por Alexandre Tambelli

Selecção de Júlio Marques Mota

júlio marques mota

 

O PT subestimou o papel das comunicações e facilitou o Golpe de Estado.

por Alexadre Tambelli

  • Agradecimento especial ao Camilo Joseph e ao autor do texto Alexandre Tambelli

collagepig

a) Um apanhado histórico de fatos que propiciaram o Golpe de Estado.

b) Autocrítica. Uma discussão sobre como deva se comportar um futuro Governo de esquerda no Brasil.

a) Apanhado histórico.

Acredito que possa existir uma autocrítica do PT, se estendendo as esquerdas aliadas ao PT, no Governo Federal por 13 anos e meio levando em conta a perspectiva de manter-se no Poder por legislaturas seguidas acima de estruturar de forma definitiva o Governo para atender às três necessidades básicas de uma Democracia:

1) Respeitar o resultado das urnas;

2) Produzir uma Justiça igualitária para todos;

3) Ter meios de comunicação não oligopolizados e com pluralidade Ideológica.

Estas são três necessidades que a direita brasileira representante da elite local e até da internacional nunca pensou em praticar, apesar de um olhar apaixonado para a América, onde estes três pontos basilares da Democracia são praticados com toda a responsabilidade.

Conciliação de classes foi a direção tomada pelo PT. Ela não pode existir no Brasil e se descobriu tardiamente. Nossa elite não tem a dimensão que o País merece. Ela se olha apenas como um apêndice do Imperialismo Norte-Americano/ Europeu Ocidental sem, contudo valorizar o que eles têm de melhor: o apreço pela Democracia e a defesa dos interesses nacionais.

E é difícil imaginar um País das dimensões territoriais e com todas as riquezas naturais e recursos naturais em abundância como o Brasil não querer ser Dono do seu próprio destino e se tornar desenvolvido com a indústria de ponta (de alta capacitação tecnológica) em destaque.

Deram um Golpe de Estado e o Brasil vai voltar ao posto de 14ª economia do mundo, depois de chegar ao posto de 6ª economia mundial na Era petista? É tudo muito sem noção e sem nenhum apreço pelos interesses nacionais coletivos e sem consideração com o país e a emancipação político-social e educacional da população.

Porém, não há como fugir da realidade, o PT acreditou poder vencer continuamente, apenas com ações concretas do Estado melhorando a qualidade de vida e a renda da população, com inclusão e ascensão social de quase toda a população brasileira, sem, necessariamente, mexer nas estruturas viciadas das comunicações, do Legislativo, do Executivo e do Judiciário e muito pouco mexer no currículo educacional, ampliando a capacidade de compreensão, reflexão e atuação sobre o mundo capitalista em que vivemos dos estudantes e formandos brasileiros.

E falamos de estruturas viciadas que estão à-serviço dos interesses privados de 5 ou 6 bilionários brasileiros, elites em posição de subserviência ou participação direta nos interesses do Capitalismo monopolista e transnacional. Estruturas viciadas desde sempre e que acabam, hoje, a defender bandeiras antinacionais.

Sem contar que a defesa dos interesses dos Estados Unidos parece ser uma obsessão de boa parte da Elite brasileira, que apeou o PT do Poder.

Aqui falo, preferencialmente, da Elite midiática capitaneada pela Rede Globo de Televisão. E das entidades de classe ligadas ao empresariado conservador e banqueiros: FIESP, FIRJAN, CNI, FEBRABAN, etc.

Interesses antinacionais postos em prática através de seus parlamentares, comprados a peso de ouro via financiamento privado de campanha, parlamentares que a população elegeu em 2014, via dois instrumentos principais, fabricados no cotidiano dos brasileiros pelo oligopólio midiático local capitaneado pela Rede Globo e algumas poucas famílias mais:

1) A corrupção como resultado único dos governos petistas: Mensalão e Lava-Jato como instrumentos de marketing (marketing direcionado à destruição da reputação do PT, Lula e Dilma). Foi e é como se a corrupção tivesse sido inventada e somente praticada por petistas.

24 horas no ar para consolidar o Golpe de Estado;

2) A crise econômica mundial como uma questão meramente nacional e com único culpado, o Governo petista de Dilma Rousseff.

A crise institucional e Política, Eduardo Cunha e suas pautas bombas, Aécio e a não aceitação da derrota em 2014, o Congresso boicotando quase todas as medidas apresentadas pelo Governo Dilma para sanear a crise econômica não foram levadas em conta.

É necessário dizer que o Golpe foi possível porque o PT não se preocupou em contrapor a narrativa midiática e oligopólica (quase 90% de toda a informação sobre o cotidiano do Brasil e do Mundo consumida neste País é oriunda da chamada velha mídia: Globo, Band, SBT, Folha, Abril – Veja, Estadão e poucos grupos mais), Elite midiática anti-petista radical e com interesses elitizados idênticos no ar 24 horas do dia desde 2003.

Esta narrativa desfavorável à Lula, Dilma, PT e Governo Federal foi sendo aumentada a partir de 2012 com o Tribunal de Exceção do Mensalão e a sua Teoria do Domínio do Fato, prendendo Dirceu porque a Literatura Jurídica permite; depois com as manifestações de junho de 2013 nascidas dos 20 centavos, tornadas grandes, com o apoio explícito da Rede Globo, que nem a sua grade de programação respeitou, um fato raríssimo, bem sabemos; e, por fim, com o projeto de derrubada do Poder do PT via eleitoral que não deu certo: a Lava-Jato, com suas “delações premiadas” vazadas aos microfones da Rede Globo de Televisão & meios de comunicação aliados dos políticos que produziram o Golpe de Estado, “delações” sem conclusões processuais de nada do que vinha sendo dito de Lula, Dilma e do PT, porém, “delações” noticiadas como verdades incontestáveis e sem vez ao contraditório.

A tal da máxima: “O Governo mais corrupto da História do País” sendo propagada sem contrapartida de narrativa do Governo Federal. Justamente o Governo Dilma, aquele que mais investigou e criou leis para o combate à corrupção.

Como estas investigações e leis chegaram muito próximas de levar gente da direita política aos tribunais e com cassação e cadeia de parlamentares e até ministros de Estado, Dilma foi apeada do Poder, sem crime de responsabilidade sem nunca se ter provado um ilícito seu sequer, sem nenhum enriquecimento pessoal através de dinheiro público ou em negociatas envolvendo cargos em sua Vida pública.

Sequer as alegações para o impeachment ficaram provadas. Ações corriqueiras de todos os governantes do País em bem mais de década e nos executivos Federal, Estadual e Municipal serviram de pretexto para derrubá-la. Até mudaram leis, entendimentos de leis para apeá-la do Poder.

Incrível, há até o fato de reverterem lei ao passo anterior, lei que criaram na medida certa para poder justificar o Golpe de Estado. Quem duvida leia a postagem abaixo:

http://www.viomundo.com.br/denuncias/congresso-torna-legitimas-as-pedaladas-que-usou-como-pretexto-para-derrubar-dilma-nao-tiveram-nem-o-pudor-de-disfarcar-diz-professor.html

Como resposta a cobertura viciada da mídia oligopólica o Governo Federal na voz de Dilma dizia: – utilize o controle remoto. Troco de canal e o noticiário é o mesmo. Sequer cortar as verbas publicitárias bilionárias da Rede Globo & Cia. se aventou fazer. Sequer apoderar meios de comunicação favoráveis ao Governo em 13 anos e meio foi feito. Uma tímida TV Brasil e a NBR + EBC, se tanto, foi o que fizeram. Nem na Internet se deu uma revolução da comunicação Governamental.

Os portais dos meios de comunicação favoráveis ao Golpe de Estado como instrumentos auxiliares de formação da opinião pública do brasileiro médio, opinião desfavorável ao Governo Dilma, desfavorável ao PT e ao Lula quase sempre.

A narrativa única e falaciosa do “Governo mais corrupto da história” venceu.

Claro é que o jogo do cálculo eleitoral petista (da vitória eleitoral) se fez possível até 2014, com o recall das ações concretas de combate à fome, à desigualdade e pela inclusão e ascensão social de milhões de brasileiros, antes alijados da sociedade de consumo, antes verdadeiros exércitos de reserva, não necessários para girar a roda da Economia, e que a elite local deseja ver novamente alijados do pertencimento à sociedade.

Porém, a imagem do PT estava sendo, ao mesmo tempo em que governava com êxitos no campo social, destruída, propositadamente pela elite midiática, via “mensalão”, ¨”depois Jornadas de junho de 2013” e, por fim, via “Lava-Jato”.

Ajuntando neste caldo a crise econômica mundial + os erros na condução da economia praticados com maior força após a escolha de Joaquim Levy em 2015 para comandá-la se facilitou o Golpe de Estado.

A disputa de narrativas PT (o mundo concreto) X Rede Globo de Televisão (o mundo fabricado) foi pendendo para a direita midiática, para o noticiário anti-petista e parcial, contrário ao Governo Dilma em todos os momentos, em todos os atos da Presidenta. Nada do que o Governo Federal fez era tratado como algo positivo e benéfico para a população brasileira e para o Brasil.

Bem sabemos que enquanto a economia estava sendo capaz de gerar empregos, sensação de bem-estar e consumo para os brasileiros de todas as classes sociais, o Governo petista vencia a queda de braço com a Rede Globo de Televisão & Cia. A realidade se impunha à narrativa fabricada da mídia oligopólica, oposicionista e perseguidora implacável ao PT, Lula e Dilma.

Com a crise econômica se materializando pôde haver a predominância da narrativa midiática sobre a realidade concreta do PIB 5 vezes maior na Era Petista, da inclusão social de quase todos os brasileiros e da ascensão social de mais de 40 milhões de pessoas em pouco mais de 10 anos, ascendendo para níveis intermediários na pirâmide econômico-social brasileira.

Dilma foi derrubada porque não ousou, nem Lula e nem o PT ousaram, criar uma narrativa paralela e com penetração no seio da sociedade a da Rede Globo & Cia.

Quando a crise econômica desejada pela direita midiática vingou só havia a voz da Rede Globo & Cia. a contar sobre o Brasil, sobre a realidade dos fatos, a negligenciar as culpabilidades coletivas da crise econômica existente, tanto no cenário nacional como internacional.

E nessa ausência de contraponto, o mundo real perdeu a voz, ficou sem a força de contradizer a narração midiática, sem forças parlamentares suficientes pró-Dilma e com pouca resistência social para evitar o Golpe de Estado.

Claro que não se pode deixar de lado que o fortalecimento da narrativa midiática facultou em 2014, impulsionado com toda a força pela Lava-Jato, uma Eleição, onde o parlamento brasileiro ficou recheado de deputados e senadores anti-petistas.

Como toda a corrupção na Petrobrás, numa narrativa feita de encomenda por parte das elites locais e por patrocinadores estrangeiros por conta do Pré-Sal, foi sendo colocada como uma corrupção dos petistas e dos governos petistas pela Elite midiática em grau absurdo de manchetes e noticiário a população votou em boa parcela de deputados e senadores oposicionistas, aqueles que se aproveitaram da narrativa única da Rede Globo & Cia. da corrupção como marca exclusiva do PT.

Colocavam na testa: – SOU ANTI-PETISTA!

E recebiam o voto da população. O Brasileiro médio se tornou Anti-Petista! Um voto dado mais num estado de ódio do que qualquer outra razão, principalmente, nas classes média e média-alta e partes da classe C, a da ascensão social do lulismo e xodó de Lula! Excetuando é claro, o voto no Executivo por três razões principais:

1) O Recall dos programas sociais do PT, da ascensão social e do ainda baixo desemprego em 2014 (já citada anteriormente);

2) O marketing eleitoral da discussão do absurdo que seria um Banco Central independente;

3) A presença de um candidato oposicionista fraco e com ficha nada limpa: Aécio Neves e seu aeroporto particular com dinheiro público, dentre outras coisas.

E, assim, podemos dizer:

Do anti-petismo social alimentado às 24 horas do dia pela Elite midiática capitaneada pela Rede Globo & Cia. ao anti-petismo parlamentar e se construiu o Golpe de Estado.

b) Autocrítica.

Hoje, numa autocrítica do PT e das esquerdas, de Lula e de Dilma sabemos que um passo seguinte ao retorno da Democracia no Brasil é mexer na questão do monopólio dos meios de comunicação, que são controlados por não mais de 10 famílias defendendo mesma Ideologia e interesses privados, muitas das vezes antinacionais, confundidos como públicos pela narrativa única e com ausência de qualquer contraditório.

Quando a Esquerda voltar ao Poder precisará criar mecanismos de democratização da mídia e canais direitos de comunicação dos atos governamentais com a população.

Sem este contato direto não se farão possíveis reformas estruturais no Brasil, porque continuaremos a não ter opinião pública hegemônica para exigir essas reformas e a força do monopólio midiático poderá continuar a exercer sobre as autoridades do Executivo, Legislativo e Judiciário seu Poder. Poder capaz de assassinar reputações de oposicionistas aos interesses da mídia oligopolizada, até de prendê-los sem provas, de evitar investigações de políticos corruptos pelo partido que militam e pela ideologia que defendem e culminando em direcionar seus interesses particulares/ privados como prioritários sobre os interesses coletivos de um país por inteiro.

A narrativa única da Rede Globo & Cia. impede o combate à corrupção e uma Justiça imparcial, Justiça para além da caça impiedosa ao PT, Lula, Dilma e a esquerda; impede a taxação das grandes fortunas e uma Reforma tributária justa; uma Reforma Política séria; um desenvolvimento econômico e social soberano e com Justiça Social dentre outras coisas.

Torna-se preciso, ainda, uma autocrítica da colocação da prioridade de chegada ao Poder, de vitória eleitoral sem a presença de uma chapa “Puro Sangue” como está sendo argumentado pela militância petista, dilmista, lulista e de esquerda.

Pessoas e partidos descompromissados com a Ideologia da esquerda e/ou um Projeto de desenvolvimento nacional soberano e com a Justiça Social, sem uma visão coletiva de sociedade não podem mais ser aliados eleitorais e nem participar de governos de esquerda.

Vencer uma Eleição futura e Governar com aliados ideológicos, para não acontecer ao menos três coisas impensadas em uma Democracia madura:

1) O candidato é eleito em um santinho de campanha com a imagem colada em Lula e, pior, em Dilma (no Norte e Nordeste foi forte este fato em 2014) e vota pela cassação do seu mandato sem crime de responsabilidade;

2) O Partido do Vice-Presidente trama o Golpe de Estado; ministros de Dilma votam pelo Impeachment da Presidenta da República. Ela perde o mandato com votos de quem participou ativamente de seu Ministério e assume, comandando o Golpe à Democracia, o candidato à vice-presidente em duas eleições seguidas sem votos;

3) O Vice-presidente Golpista assume o Poder e aplica um Programa de Governo contrário ao que foi eleito para realizar na Eleição de 2014; um programa que não foi discutido e aprovado pelo eleitor. Um programa sem votos e que numa Eleição, em sendo explicitado, jamais teria votos suficientes para ser o programa vencedor.

A política de cálculo eleitoral acabou. O presidencialismo de coalizão idem.

Precisamos lutar por uma nova estrutura política e partidária, que impeça do partido vencedor no pleito do Executivo não ter sequer 20% de representantes no Legislativo, senão a realidade do Golpe de Estado pode ser repetida outras vezes.

O PT tem 58 deputados federais num universo de 513, isto dá por volta de 11% das cadeiras da Câmara Federal. Impossível governar assim.

Precisamos lutar por uma nova estrutura político partidária para que quem vença uma Eleição para Presidente (a) da República tenha a possibilidade de executar o seu Programa de Governo.

Enfim, lutar para que o passo alvissareiro do fim do financiamento privado de campanha tenha um resultado prático já nas eleições de 2016, para os executivos e legislativos municipais.

Ficamos com um pé atrás porque o Ministro que está na Presidência do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) Gilmar Mendes na votação do STF sobre o fim do financiamento privado de campanha pediu vistas do Processo já ganho por 6 votos a 1 e o segurou por quase 1 ano e meio, impedindo que a regra valesse já em 2014. Ministro Gilmar Mendes que deu declarações contrárias ao fim do financiamento privado de campanhas, dizendo recentemente que ele foi um “SALTO NO ESCURO”.

SALTO NO ESCURO, penso eu, é o que vem por ai com Michel Temer no Poder pós-Golpe de Estado.

Texto original em: http://jornalggn.com.br/blog/alexandre-tambelli/o-pt-subestimou-o-papel-das-comunicacoes-e-facilitou-o-golpe-por-alexandre-tambelli

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