EDITORIAL – Há740 anos

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Há 740 anos, no dia 13 de Setembro  de 1276, Pedro Julião Rebolo, um lisboeta nascido. mais ou menos, onde hoje é a Rua de São Julião, em 1205 ou em 1210 (as opiniões dividem-se), foi eleito papa sob o nome de João XXI. Filho do médico Pedro Pais Rebolo, foi ele também un médico famoso em toda a Europa, estudado como humanista, fllósofo, professor… um intelectual de grande projecção no pequeno universo que tinha como coração, Roma.

O facto de estar ligado a uma instituição que já na época era considerada um ninho de vespas, uma fábrica de intrigas onde se forjavam ignomínias , negócios, e toda a espécie de crimes, não pode ser avaliado à luz do  que hoje se sabe, nerm levado em linha de conta os crimes que em todos estes séculos a Igreja Católica cometeu. Na época era a entidade máxima do mundo em que estávamos inseridos e nada se fazia sem a sua aprovação. Dispunha uma autoridade bastante superior à que tem, nos nossos dias, a ONU. 

 Pedro Julião, fez os  seus primeiros estudos na escola catedralícia de Lisboa, a dois passos de sua casa, prosseguindo-os depois na Universidade de Paris (ou na de Montpellier, segundo afirmam outras fontes. Teve como mestre Alberto Magno e como condiscípulo São Tomás de Aquino, entre outros nomes ilustres da intelectualidade coeva. Estudou medicina, teologia, lógica, dialéctica. física, metafísica aristotélica… em suma, os saberes mais avançados da época. Ensinou depois em Siena, espalhando entre os seus discípulos a ciência colhida de seus mestres. Em Siena,  escreveu o tratado Summulae logicales, que nos três séculos seguintes foi suporte cultural de grande peso, com 260 edições. Outra demonstração da sua cultura científica o tratado De oculo, reunindo o conhecimento mais avançado sobre oftalmologia, foi obra estudada nas principais nas universidades europeias. Miguel Ângelo, quase cego após o termo do seu trabalho na Capela Sistina, curou-se seguindo um tratamento prescrito por Pedro Julião.  Escreveu também  o tratadoThesaurus Pauperum («O Tesouro dos pobres»)onde abordou as curas magníficas  para diversas patologias comuns. obra que viria a  atingir cerca de uma centena de edições e traduzido para 12 línguas. incluindo o hebraico..

Por tudo isto, no conclave realizado em Viterbo, após a morte de Adriano V, foi eleito Papa em 13 de Setembro de 1276 e coroado uma semana depois, adoptando o nome de João XXI. O conclave decorreu de forma agitada, com as tensões políticas e as querelas religiosas a motivar insultos e mesmo cenas de pugilato entre alguns cardeais. Pedro Julião, o sábio, médico de Adriano V e professor prestigiado, foi a solução de compromisso- O seu pontificado foi curto e diz-se que Pedro Julião delegou os assuntos eclesiais em homens da sua confiança, tais como o cardeal Orsini, que viria a ser o papa Nicolau III, e se dedicou mais à investigação e a conferenciar com amigos como Dante Alighieri, que o compensou colocando a sua alma no Paraíso (A Divina Comédia), entre as almas que rodeiam a alma de São Boaventura, descrevendo-o como “o que brilha em doze livros”, alusão à bibliografia do sábio pontífice português. Afonso X o Sábio, rei de Castela e Leão, elogia-o no canto XII das suas Cantigas de Santa Mária.

Em Maio de 1277 sentindo-se cansado e doente, vai para o seu palácio de Viterbo, apesar de este se encontrar em obras. O insólito arruimento de uma parede do seu quarto, causa-lhe a morte. Uma morte acidental? Quando sete séculos depois João Paulo I, após um pontificado mais curto do que o do nosso Pedro Julião, quando se aventou a hipótese de crime, logo se falou em «teoria da conspiração»-

Na verdade, uma igreja onde Rodrigo Borja, Alexandre VI, Eugenio Pacelli , Pio XII, tiveram atitudes tão humanas como a de ser amigo do executor de mais de seis milhões de seres humanos, seria lá capaz de assassinar um papa?

 

 

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