CONTOS & CRÓNICAS – O Escritor da Semana – ROMEU CORREIA – por Carlos Loures/3

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Entre os muitos escritores que conheci pelos cafés de Lisboa  – fiz muitas amizades em torno de bicas (e uma ou outra inimizade) nunca poderei esquecer Romeu Correia, de que lera Trapo Azul. Lera de forma clandestina, pois quando o livro foi publicado, em 1948, a minha mãe considerou-o leitura «pesada» para os meus dez anos

Conheci-o pessoalmente pelo final dos anos 50. Foi-me apresentado pelo Jaime Camecelha, meu amigo de infância e colega do Romeu Correia, pois ambos eram funcionários do BNU, Acabara de publicar a sua peça “Sol na Floresta”. Falámos sobre os nossos projectos E travámos uma sólida amizade.Eu «conhecia-o» já há uns bons dez anos. Quando em 1948 saiu o seu livro Trapo Azul, um vizinho mas nascido em Almada, em conversa com os meus pais, a que eu assistia- disse que tinha saído um livro cheio de calúnias para com os almadenses. Era uma coisa tão miserável que, dizia ele, pela primeira vez na vida tinha rasgado um livro, deitando-o fora a seguir. Como quem não quer a coisa, eu perguntei o nome do livro e o do autor. Os meus pais olharam para mim com ar apreensivo. No dia seguinte convenci a minha mãe, que também ficara curiosa, a irmos comprar o livro. Foi na Férin, salvo erro, que o encontrámos. Ela leu o livro duma assentada e disse ser um bom romance, mas não era próprio para mim. Claro que mais não foi preciso para que uma grande curiosidade me assaltasse. Manhoso, fingi-me completamente desinteressado e fui observando que a vigilância ao volume ia sendo cada vez mais descuidada, deixou de estar fechado à chave numa gaveta e semanas depois já ninguém se lembrava daquele perigo para a minha educação. Quando sabia que ia estar uma hora ou mais sozinho ia lendo, memorizando a página em que interrompia a leitura e deixando-o tal e qual na posição em que o encontrara dentro da gaveta. E assim o consegui ler em relativamente pouco tempo. Esse exemplar não o encontrei entre os livros de minha mãe e o que tenho foi-me oferecido pelo autor ao qual contei as minhas aventuras para ler o seu livro.

Mas voltando a esse primeiro encontro com Romeu Correia, foi (se a memória não me falha) no segundo piso do Café Avis, nos Restauradores do lado do Eden- Era um café estranho – no primeiro piso era frequentado por gente de extrema-direita, legionários, inclusive, ali levados pela grande cruz de Avis em néon que brilhava sobre a porta principal. No piso superior, era para a malta de esquerda. Disseram-me ser ali que o Amílcar Cabral dava explicações de Matemática.

Parava também por aquele segundo piso um grupo heterogéneo onde se incluía o Renato Ribeiro e sua mulher, a Fernanda Barreira, o Manuel de Castro, o Manuel de Seabra, o Romeu Correia que trouxe um dia a Maria Rosa Colaço, e este vosso amigo. O estranho é que os legionários nos viam passar e se faziam comentários era em voz baixa. Nunca houve ali provocações. Um dia hei-de escrever um texto sobre «os meus cafés». Muitos. Os cafés do Romeu Correia eram outros. Ao Avis só ia para se encontrar comigo, com a Maria Rosa, com o Renato… À noite vinha de Almada no barco e parava na Coimbra, da Alexandre Herculano num grupo de que o Namora e o Bernardo Santareno faziam parte (uma vez que fui lá para o encontrar, eles estavam lá) e, à hora do almoço podíamos encontrá-lo, sempre sozinho, no café Bom (trabalhava na sede do Banco Ultramarino, na Rua do Ouro). O Café Bom ficava na Rua da Betesga em frente à cervejaria Mó, que ainda existe. Ali estava ele, preenchendo com a sua letra grande e irregular folhas soltas de páginas brancas. Era mais um romance em gestação.

Romeu Correia falava de uma forma apaixonada, revivendo as suas histórias e emocionando-se com as recordações. Não raro, fechava os olhos para que a memória lhe fosse mais fiel. Numa noite de Verão, creio que em 1959, numa esplanada da Avenida descreveu-me a Amália gravando «O Céu da Minha Rua», tema musical da série que a RTP produziu a partir do seu romance homónimo. Não saiu bem durante uma série de tentativas e quando o realizador queria desistir, às quatro ou cinco da manhã, Amália fez uma última tentativa, rasgando as meias com as unhas enquanto cantava. E saiu bem. «Uma mulher muito inteligente e cheia de raça», concluiu.

Noutra das suas descrições, esta feita no Avis, contou-me como, ainda no início da sua carreira no BNU, fora cobrador. Por vezes ia almoçar a casa, a Almada, se tinha alguma cobrança na margem esquerda. Naquele dia após uma cobrança de uma avultada importância, chegou a casa e encontrou Almerinda, sua mulher, profundamente adormecida. Jovem e bonita, era atleta de alta competição, descansava de horas de treino e de trabalhos domésticos. Resolveu fazer uma brincadeira poética, uma homenagem – cobri-la de ouro . colocou-lhe sobre o corpo notas de mil escudos, centenas delas. E depois acordou-a. A surpresa de Almerinda, a sua expressão ao ver o dinheiro foi uma coisa linda, disse ele. Eram pobres e ela nunca vira tanto dinheiro na vida. Mas depressa percebeu o que se passava e disse-lhe «arruma lá toda esta porcaria!» e ajudou-o a recolocar as cintas nos maços e a metê-los na mala.

Outra recordação que o fazia vibrar era a do seu trabalho como artista de circo. Boxeur amador, com campeonatos ganhos, fazia um número em que com a ajuda de um projector, num jogo de luz e sombra, lutava consigo próprio.

Já nos anos 70, quando voltei a Lisboa, reatei a amizade que fora mantida com uma outra carta e no convívio durante as férias de Verão. Romeu e Almerinda passavam quinze dias todos os anos na Colónia de Férias da FNAT e, em Agosto, eu estava por ali perto, em Santo António ou, posteriormente, em São João da Caparica com a minha mulher e os dois filhos. Encontrávamo-nos sobretudo no cinema da colónia, pois éramos todos apaixonados por cinema.  A última vez que estive com ele foi no lançamento de um livro da Maria Rosa, no forum municipal de Almada que hoje se chama Forum Romeu Correia. Foi pouco tempo antes de ter falecido, notava-se já que estava doente, mas tendo ficado ao meu lado enquanto o livro da nossa amiga era apresentado, falou-me com entusiasmo de uma História da Incrível Almadense que andava a preparar.  Um bom escritor e um grande amigo. Um homem cuja vida daria um romance

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