CARTA DO RIO – 117 por Rachel Gutiérrez

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Fiz uma pequena pesquisa sobre as vozes de grandes e ilustres defensores da Paz que, ao longo da História, parecem ter clamado no deserto. Na antiquíssima tradição oriental, temos os chineses Confúcio e Lao–Tse, para os quais o pacifismo expressaria o amor à vida e o autocontrole com respeito à natureza, respectivamente; na Índia, esse respeito à natureza e a todas as formas de vida chama-se ahimsa e é um modo de ser e de agir; no Ocidente cristão, o pacifismo remonta ao Sermão da Montanha, que ensina a não resistir à violência com a força.

Entre os filósofos encontramos, por exemplo, os pacifistas Leibniz, Voltaire e Jean-Jacques Rousseau.

Depois das tragédias de Hiroshima e Nagasaki, outro filósofo, o inglês Bertrand Russell e o físico alemão Albert Einstein, com mais uma dezena de cientistas, assinaram um Manifesto, em 1955, alertando para os perigos da proliferação do armamento nuclear e solicitando aos líderes mundiais que buscassem soluções pacíficas para os conflitos internacionais.

Mas foi na década anterior à de 1950, na Índia moderna, que se agigantou a figura venerável de Mahatma Gandhi, que encontrou nas greves de fome das sufragistas inglesas inspiração para uma das suas mais famosas formas de protesto. Sim, pouca gente sabe, ou lembra que Gandhi aprendeu com elas esse tipo de resistência pacífica. Infelizmente, nada impediu o grande líder da heroica Independência daquele país da Ásia de morrer assassinado em Nova Deli, em 1948.

Nos Estados Unidos da América do Norte, o herói da luta contra o racismo – Martin Luther King – também foi assassinado, em 1968; e em 1988,  Chico Mendes, o ambientalista brasileiro que tentou defender a Amazônia por meios pacíficos  foi  igualmente assassinado, aos 44 anos.

De todos, o melhor destino parece ter sido o de Nelson Mandela, “um dos maiores líderes morais e políticos do nosso tempo” que, após 27 anos na prisão, tornou-se o primeiro Presidente negro da África do Sul (1994 – 1996).

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E ontem descobri, graças a um filme mostrado no Canal Arte-1, a história de uma heroína menos famosa na injustamente pouco divulgada luta dos pacifistas neste nosso terrível e insensato mundo. O filme, Juventudes Roubadas, baseado em livro famoso de Vera Brittain, ( Testament of Youth), relata a primeira fase da vida  da escritora inglesa que perdeu, na Guerra de 1914-1918 sucessivamente o noivo, dois grandes amigos e o único irmão, que ela adorava. É o horror da guerra vivido no lado da sombra – o das mulheres. Ninguém lembra que enquanto os homens matavam e se faziam mutilar e matar, elas foram suas incansáveis enfermeiras, como Vera Brittain, que interrompeu seus estudos de literatura em Oxford para servir em vários fronts, tanto na França quanto na Itália.

De volta à Inglaterra após o armistício, foi só em 1933 que a história daquela geração perdida foi imortalizada em seus livros de memórias, que logo se tornariam best-sellers.  Depois, passou a frequentar reuniões políticas contra as guerras, colaborou em revistas e pouco a pouco foi-se transformando numa grande ativista da causa da Paz.

Agora, em pleno século XXI, depois dos quase 100 anos de guerras do século XX, além da angústia dos longos anos da Guerra Fria, eis-nos diante da absurda dificuldade que encontram os caminhões de socorro humanitário da ONU para chegar ao massacrado povo sírio, que já perdeu cerca de 470 mil pessoas na guerra civil mais dantesca de que se tem notícia. O cessar-fogo, a duras penas acordado, não chega a durar dois dias. E há uma espécie de guerra civil também na Turquia.

Já o conflito do Oriente Médio não poderá cessar enquanto israelenses e palestinos continuarem intransigentes em suas reivindicações. E as provocações com testes nucleares do louco ditador da Coréia do Norte aumentam o clima de medo e pavor em que vive a humanidade. Além disso, aumenta inexoravelmente o número de refugiados que em desespero  procuram se abrigar na Europa. E o terror que o ISIS encarna e espalha  assombra o mundo inteiro, mas não tem servido para irmanar Rússia e Estados Unidos em seu combate.

Outras vozes que parecem clamar no deserto são as dos líderes espirituais como o Papa Francisco e o Dalai Lama. O papa diz acreditar que “no coração de todos os homens e mulheres está o desejo de uma vida plena de paz.” E o líder tibetano diz que “o mundo precisa de educação para poder desenvolver e criar uma atmosfera feliz e em paz” e pede “um compromisso entre os seres humanos para distanciar-se do discurso do ‘eu, eu, eu’ que nega os valores da humanidade.”

Quem os haverá de ouvir entre as hierarquias do poder, do egoísmo e do dinheiro, que inclui o armamentismo que vai desaguar nas guerras?

A quem interessam as guerras?

E pensar que isso já estava claro numa peça de teatro  (de 1907!) do irlandês George Bernard Shaw, chamada Major Barbara, cuja protagonista, que trabalha no Exército da Salvação para ajudar os pobres, é filha de um fabricante de armas !  A ironia é das mais expressivas.

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E eu lembro ainda um velho pacifista francês – Romain Rolland, (1866-1944), que, em carta datada em 26 de agosto de 1919 a um seu amigo, o poeta indiano Rabindranath Tagore, dizia: “a vergonhosa guerra mundial, que marcou a falência da Europa, tornou evidente que a Europa não pode mais se salvar sozinha. Seu pensamento precisa do pensamento da Ásia, como esta tirará proveito em se apoiar no pensamento da Europa. São os dois hemisférios do cérebro da humanidade. Se um estiver paralisado, o corpo degenera. É preciso procurar restabelecer sua união e seu sadio desenvolvimento.”

Só agora, finalmente em 2016, parece que a França começa a compreender que precisa integrar os filhos dos muçulmanos na vida comum dos jovens franceses.  Assim, afastados das periferias das grandes cidades onde correm o risco de se tornarem presas fáceis do radicalismo jihadista, aprenderão a se aceitar e a conviver com as diferenças. Que frequentem, juntos, as mesmas escolas e os mesmos jardins.

Como afirma o Dalai Lama, são os professores das crianças e dos jovens que têm “a oportunidade e a responsabilidade de criar um mundo melhor e mais feliz.”

Oxalá! pois, como insiste em me dizer minha amiguinha Esperança, teremos sempre o direito de sonhar.

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