EDITORIAL- Lineu ver-se-ia atrapalhado para classificar a fauna política dos nossos dias – a esquerda da direita, a direita da esquerda, a direita da direita…

logo editorialNo tempo em que os animais falavam, inspirando a La Fontaine  as suas fábulas, tudo era mais fácil, pois as diferentes espécies entendiam-se… quer dizer não se entendiam, mas explicavam porquê. O editorial de hoje é dedicado a Giacomo Malagrida (1689-1756), um padre jesuíta milanês, que num dia 21 de Setembro  foi queimado em auto de fé no Rossio de Lisboa e esquartejado. Segundo tudo indica, esteve envolvido na conspiração que os Távoras maquinaram contra o poder real e para agravar a sua situação atribuiu a causas divinas (Deus zangado com os homens) o Terramoto de 1755.

Já quando do anterior sismo, o de 1531, os dominicanos tinham atribuído o desastre a uma má disposição do Senhor pela presença de judeus em Portugal e pelas posições que alguns ocupavam. Gil Vicente, numa carta ao rei Manuel I, rebelava-se contra este maniqueísmo de pacotilha que fazia de Deus um ser leviano que se estava bem disposto, proporcionava boas colheitas, mas quando se zangava destruía cidades populosas, punha vulcões em actividade – um al capone avant la lêtre. Malagrida sabia que contrariar as ordens do Marquês dava direito a bilhete para a eternidade. Pomos a pergunta: um herói, um beato pateta? Como classifica-lo? Numa perspectiva religiosa e conforme já demonstrara no Brasil, com uma corajosa acção evangelizadora entre as tribos autóctones, era um homem coerente que lutava por aquilo em que cria.


Como político foi inábil. A rogo de Mariana de Áustria, viúva de João V veio para Portugal, entrando em rota de colisão com Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal, que, chefe do Governo de José I, destruía todos os obstáculos que visassem prejudicar o poder real. Sebastião José era um tirano, mas não era um nepotista, nem um ser corrupto; queria  reforçar o poder real para tomar medidas que favorecessem o povo. Formado culturalmente no cadinho do despotismo iluminado, era, de facto, um «ditador de esquerda», como o definiu Luiz Pacheco.

Malagrida, aproveitou o sismo para exortar os lisboetas à reforma dos costumes, nomeadamente ao naturalismo e racionalismo que Pombal injectou no sistema educativo, contrariando a beatice com que os jesuítas (que fizeram coisas louváveis, mas queriam ajudar a nobreza, caduca e reacionária, inútil e exploradora, a tomar o poder que Pombal concentrava no rei em favor do progresso. Era, sem dúvida, um homem corajoso, mas o seu martírio foi exercido em favor de uma ordem serôdia, injusta – de uma sociedade corrupta e parasitária. Dementado pela idade e pela tortura, escreveu o tal folheto atribuindo à maldade dos homens o castigo de Deus. Passou-se isto no tempo em que os animais falavam (e dada a sua condição animal,  os homens  também).

Hoje, os homens posicionam-se à direita, à esquerda, mas no fundo grunhem, zurram ou relincham de acordo com os seus interesses. Um La Fontaine local, quis vender as suas fábulas, denunciando alguns dos viajantes da arca; o coelho, animal pouco importante, recusou-se a comparecer. E a cerimónia ficou estragada.

Quando os homens aprenderem a falar…

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