Dorindo Carvalho: «O Sentido Trágico dos Limites» – 2. O homem. Origem e formação – por José Fernando Tavares*

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Dorindo Carvalho nasce em Lisboa, a 30 de Setembro de 1937, numa época em que se anunciam tempos difíceis devido ao progressivo grau de destruição da Segunda Guerra Mundial.

O espectro de Hitler assombra a Europa. É a época das grandes ditaduras, o tempo da fome e do racionamento dos géneros. Em Portugal, até ao final da Guerra, em 1945, vive-se a bonomia da neutralidade, apesar da inexorável ditadura. O isolamento em que o país se encontra não permite grande abertura de horizontes. O jovem Dorindo recebe de seu pai, fotógrafo de profissão, as primeiras lições de vida, as quais também se estendem ao modo de olhar o mundo:

a fotografia torna-se a mais imediata expressão estética e a mais remota experiência da sua sensibilidade, essa qualidade maior que iria determinar a sua vocação artística.

Não será de todo errado considerar que Dorindo deve à fotografia, não apenas a dimensão plástica de uma realidade emergente, mas também uma dimensão interior que é subjacente a essa mesma realidade. A fotografia permite compreender o quanto a realidade é complexa. Nela revela-se a singeleza de m gesto, mas revela-se também a crua dureza dos rostos, a trágica consistência de uma vida que pouco deve ao estádio da felicidade, mesmo quando se assiste à ilusória felicidade de um casamento ou de outra qualquer cerimónia pública. Essa dura realidade

interior irá espelhar-se na obra do futuro pintor Dorindo Carvalho, circunstância que lhe irá conferir uma nítida compleição filosófica. A par dela, vislumbra-se a simplicidade que é própria a toda a transcendência.

O magistério de seu pai, José Rodrigues Costa carvalho, não se limita à fotografia. Também o desenho era uma actividade de que se ocupava, e o jovem Dorindo guarda na sua memória uma peça essencial da sua formação: um retrato de Camões. Esse retrato, que parece ser uma água-forte, é apenas mais um dos retratos clássicos do vate quinhentista. Apesar do seu lado académico, esse desenho possui o valor equivalente a uma peça de joalharia, tal a profunda impressão que lhe causara num  tempo em que a sua sensibilidade de adolescente estava apta a receber todas as impressões que o mundo (e, para mais, o seu mundo privado) tinha para lhe oferecer. Entramos aqui no campo fecundo do imaginário do pintor.

É difícil avaliar o alcance significativo de uma peça como esta, pois só o próprio receptor dessa significação o poderá, senão explicar, pelo menos compreender de uma forma que se aproxima do subliminar. Embora não saibamos medir o alcance desse objecto específico na compleição do imaginário do artista, estamos convictos de que representa a chave de muita da sua pintura em diversos momentos do seu percurso criador.

É no decénio de 50 que Dorindo recebe uma parte essencial da sua formação técnica. Frequenta os cursos nocturnos da Escola António Arroio, e completa o curso de Formação de Desenhador e de Gravador Litógrafo, o qual irá constituir uma ferramenta essencial para a sua intensa

actividade como desenhador gráfico. Hoje, a Escola António Arroio não é mais do que uma pálida sombra desta época brilhante.

Entre o final do decénio de 50 até 1963, Dorindo cumpre o serviço militar em Lisboa, Mafra e Abrantes. É mobilizado para Angola em 1961, onde permanece até 1963. Durante esta época, Dorindo convive com figuras ligadas à arte e à cultura, tais como Cruzeiro Seixas, Heitor Gomes Teixeira, Rui Romano ou Rocha de Sousa, e integra-se no meio cultural local, parti-cipando já em algumas actividades ligadas à criação artística. Heitor Gomes Teixeira, director do Teatro Experimental de Luanda, no decénio de 60, convida Dorindo para realizar, quer os cenários, quer os figurinos, da peça O Doido e a Morte de Raúl Brandão. Cruzeiro Seixas, um dos expoentes da pintura surrealista portuguesa, reconhece em Dorindo uma personalidade de talento. Num desenho que oferece a Dorindo Carvalho, fá-lo acompanhar de uma dedicatória, cujo conteúdo revela ao pintor esse sentido premonitório de um futuro ligado aos

caminhos da criação artística. A dimensão humana de Dorindo Carvalho nunca descurou, nem fez cair em saco roto, como costuma dizer-se, o sentido premonitório das palavras de Cruzeiro Seixas. Dorindo Carvalho cedo demonstrou uma sensibilidade peculiar para contemplar as coisas do mundo de um modo em que só ele as poderia ter contemplado.

Aqueles que conviveram com ele no momento germinador dessa sensibilidade, pressentiram, mais do que o talento, a vontade entusiasta de criar algo de profundamente pessoal no universo da arte plástica. De resto, esse predomínio da vontade é o primeiro passo na formação de um criador; um passo decisivo, que irá determinar todos os passos futuros.

A vontade que Dorindo Carvalho sentiu, na mais tenra infância, em pilotar um avião, não deverá ser apenas explicada como o sonho vulgar de uma criança vulgar: deverá ser entendida como o princípio de uma verdade que lentamente se impõe; uma verdade que ultrapassa o mundo onírico para anunciar uma nova realidade transcendente. Esse anúncio, geralmente imperceptível (pois é apanágio do humano estar pouco atento à condição alheia, mesmo que essa condição se aproxime do milagre vivificador, que amiúde se confunde com o acto criativo), deixa transparecer uma paixão íntima, talvez ainda não muito bem definida na

infância, mesmo precoce, mas uma paixão auroral que irá determinar uma vocação, a qual, e à semelhança da poesia, não deixa de ser nunca uma «vocação do silêncio», para usarmos a feliz expressão de Albano Martins, expressão que é também o título que coroa toda uma carreira. No caso de Dorindo Carvalho, esse silêncio, que é sempre um silêncio criador, acompanhou todo o seu discreto percurso, quase todo ele consagrado ao desenho gráfico (a par da pintura, cuja dedicação não tem sido menor) como modo de sobrevivência. Tal como iremos ver mais adiante, o silêncio irá ocupar um lugar importante numa fase específica do percurso criador de Dorindo Carvalho; não existe uma «vocação da cor», pois esta é uma inexorável imposição da natureza. A cor é a totalidade, jamais o artificio.

Ainda hoje podemos reconhecer na personalidade de Dorindo essa mesma recatada discrição, a mesma bonomia no olhar herdada de uma infância feliz, a seriedade nos compromissos profissionais em que se aplica, e, sobretudo, uma paixão cada vez mais intensa pelo seu próprio

trabalho pictórico. Podemos reconhecer, nesta relação estreita entre o artista e a sua obra,

o germinar de um imaginário íntimo que se foi sedimentando à custa de um grande número de dúvidas e de interrogações. Na verdade, a obra de um artista torna-se válida consoante a dimensão das suas próprias dúvidas; torna-se válida para além e à revelia dessas mesmas dúvidas.

Anular a interrogação, para lá de toda a dúvida, é uma das funções da arte. Por outro lado,

anular a interrogação não significa que a arte nos dê todas as respostas: significa, isso sim, que ela está na posse do poder de trespassar a metafísica, passar por ela como se se tratasse de um fantasma. A arte caminha a par da metafísica, e essa relação é de tal modo estreita, que chega a confundir-se com ela.

Se a metafísica é uma força da razão, a arte é a representação ilusória (mas nem por isso menos verdadeira) dessa mesma razão. A honestidade que Dorindo demonstrou ao longo do seu percurso como pintor, leva-o a assumir um compromisso de honra com um projecto vasto, que vai buscar a sua solidez a essa mesma metafísica.

Queremos com isto dizer que a obra de Dorindo possui o mérito de rechear o seu imaginário íntimo com um acentuado conteúdo filosófico, ao qual se mantém fiel.

A aquisição dessa compleição filosófica também se adquire através das influências. Os mestres de Dorindo provêm das mais diversas tendências estéticas. Assim, podemos encontrar no seu caminho os nomes de Cruzeiro Seixas, um dos expoentes do Surrealismo português, Júlio Pomar, cujo trabalho teve origem na vertente neo-realista, Portinari, um dos grandes nomes do neo-realismo pictórico brasileiro (influência mais subliminar do que directa, pois Dorindo não a refere) e também o nome do britânico Francis Bacon, nascido em Dublin em 1909 e cuja morte ocorre em Madrid, em 1992. Esta referência é aquela que Dorindo confessa ser a mais directa, pois a obra de Bacon afigura-se-lhe particularmente estimulante devido às suas

constantes alucinações, que tanto representam grotescos e delicados corpos nus, assim como também estranhos papas gritantes. O trabalho pictórico de Bacon, à semelhança do de Dorindo, é a consequência dessas alucinações, representadas no espaço físico da tela, o qual não deixa de ser um espaço infinito, ilusoriamente limitado. Se bem que a influência de Bacon seja relativamente recente, as propostas estéticas anteriores de Dorindo deixam já antever essa força que vem de dentro, reveladora de uma interioridade que o pintor sempre possuiu. Da aquisição desta consciência da obra como um acto genesíaco interior, Dorindo Carvalho inicia o seu percurso interior até ao presente, o qual, apesar da sua relativa irregularidade, nunca perde, antes solidifica, a sua íntima coerência, a qual é também a sua mais íntima força.

Ainda no que respeita ao homem e ao seu percurso, resta-nos referir a sua qualidade de anda-rilho pelos sete cantos do mundo. Desde a inesquecível experiência africana, espaço privilegiado onde solidifica o seu conhecimento das técnicas da arte pictórica, Dorindo realiza também uma parte fundamental da sua obra na Venezuela, país em que trabalha como emigrante entre 1980 e 1992.

Em Caracas torna-se um pintor premiado e respeitado. Neste país prossegue a sua actividade criadora, dividindo-se, como já era habitual, entre a pintura e o desenho gráfico.

Desde o seu regresso da Venezuela até ao final do século xx, Dorindo Carvalho nunca deixou de experimentar novos caminhos para a sua pintura, os quais tentaremos clarificar, seja a partir da cronologia das obras, seja a partir dos grupos temáticos em que as obras se inserem.

  1. O homem. Origem e formação

Dorindo Carvalho nasce em Lisboa, a 30 de Setembro de 1937, numa época em que se anunciam tempos difíceis devido ao progressivo grau de destruição da Segunda Guerra Mundial.

O espectro de Hitler assombra a Europa. É a época das grandes ditaduras, o tempo da fome e do racionamento dos géneros. Em Portugal, até ao final da Guerra, em 1945, vive-se a bonomia da neutralidade, apesar da inexorável ditadura. O isolamento em que o país se encontra não permite grande abertura de horizontes. O jovem Dorindo recebe de seu pai, fotógrafo de profissão, as primeiras lições de vida, as quais também se estendem ao modo de olhar o mundo:

a fotografia torna-se a mais imediata expressão estética e a mais remota experiência da sua sensibilidade, essa qualidade maior que iria determinar a sua vocação artística.

Não será de todo errado considerar que Dorindo deve à fotografia, não apenas a dimensão plástica de uma realidade emergente, mas também uma dimensão interior que é subjacente a essa mesma realidade. A fotografia permite compreender o quanto a realidade é complexa. Nela revela-se a singeleza de m gesto, mas revela-se também a crua dureza dos rostos, a trágica consistência de uma vida que pouco deve ao estádio da felicidade, mesmo quando se assiste à ilusória felicidade de um casamento ou de outra qualquer cerimónia pública. Essa dura realidade

interior irá espelhar-se na obra do futuro pintor Dorindo Carvalho, circunstância que lhe irá conferir uma nítida compleição filosófica. A par dela, vislumbra-se a simplicidade que é própria a toda a transcendência.

O magistério de seu pai, José Rodrigues Costa carvalho, não se limita à fotografia. Também o desenho era uma actividade de que se ocupava, e o jovem Dorindo guarda na sua memória uma peça essencial da sua formação: um retrato de Camões. Esse retrato, que parece ser uma água-forte, é apenas mais um dos retratos clássicos do vate quinhentista. Apesar do seu lado académico, esse desenho possui o valor equivalente a uma peça de joalharia, tal a profunda impressão que lhe causara num  tempo em que a sua sensibilidade de adolescente estava apta a receber todas as impressões que o mundo (e, para mais, o seu mundo privado) tinha para lhe oferecer. Entramos aqui no campo fecundo do imaginário do pintor.

É difícil avaliar o alcance significativo de uma peça como esta, pois só o próprio receptor dessa significação o poderá, senão explicar, pelo menos compreender de uma forma que se aproxima do subliminar. Embora não saibamos medir o alcance desse objecto específico na compleição do imaginário do artista, estamos convictos de que representa a chave de muita da sua pintura em diversos momentos do seu percurso criador.

É no decénio de 50 que Dorindo recebe uma parte essencial da sua formação técnica. Frequenta os cursos nocturnos da Escola António Arroio, e completa o curso de Formação de Desenhador e de Gravador Litógrafo, o qual irá constituir uma ferramenta essencial para a sua intensa

actividade como desenhador gráfico. Hoje, a Escola António Arroio não é mais do que uma pálida sombra desta época brilhante.

Entre o final do decénio de 50 até 1963, Dorindo cumpre o serviço militar em Lisboa, Mafra e Abrantes. É mobilizado para Angola em 1961, onde permanece até 1963. Durante esta época, Dorindo convive com figuras ligadas à arte e à cultura, tais como Cruzeiro Seixas, Heitor Gomes Teixeira, Rui Romano ou Rocha de Sousa, e integra-se no meio cultural local, parti-cipando já em algumas actividades ligadas à criação artística. Heitor Gomes Teixeira, director do Teatro Experimental de Luanda, no decénio de 60, convida Dorindo para realizar, quer os cenários, quer os figurinos, da peça O Doido e a Morte de Raúl Brandão. Cruzeiro Seixas, um dos expoentes da pintura surrealista portuguesa, reconhece em Dorindo uma personalidade de talento. Num desenho que oferece a Dorindo Carvalho, fá-lo acompanhar de uma dedicatória, cujo conteúdo revela ao pintor esse sentido premonitório de um futuro ligado aos

caminhos da criação artística. A dimensão humana de Dorindo Carvalho nunca descurou, nem fez cair em saco roto, como costuma dizer-se, o sentido premonitório das palavras de Cruzeiro Seixas. Dorindo Carvalho cedo demonstrou uma sensibilidade peculiar para contemplar as coisas do mundo de um modo em que só ele as poderia ter contemplado.

Aqueles que conviveram com ele no momento germinador dessa sensibilidade, pressentiram, mais do que o talento, a vontade entusiasta de criar algo de profundamente pessoal no universo da arte plástica. De resto, esse predomínio da vontade é o primeiro passo na formação de um criador; um passo decisivo, que irá determinar todos os passos futuros.

A vontade que Dorindo Carvalho sentiu, na mais tenra infância, em pilotar um avião, não deverá ser apenas explicada como o sonho vulgar de uma criança vulgar: deverá ser entendida como o princípio de uma verdade que lentamente se impõe; uma verdade que ultrapassa o mundo onírico para anunciar uma nova realidade transcendente. Esse anúncio, geralmente imperceptível (pois é apanágio do humano estar pouco atento à condição alheia, mesmo que essa condição se aproxime do milagre vivificador, que amiúde se confunde com o acto criativo), deixa transparecer uma paixão íntima, talvez ainda não muito bem definida na

infância, mesmo precoce, mas uma paixão auroral que irá determinar uma vocação, a qual, e à semelhança da poesia, não deixa de ser nunca uma «vocação do silêncio», para usarmos a feliz expressão de Albano Martins, expressão que é também o título que coroa toda uma carreira. No caso de Dorindo Carvalho, esse silêncio, que é sempre um silêncio criador, acompanhou todo o seu discreto percurso, quase todo ele consagrado ao desenho gráfico (a par da pintura, cuja dedicação não tem sido menor) como modo de sobrevivência. Tal como iremos ver mais adiante, o silêncio irá ocupar um lugar importante numa fase específica do percurso criador de Dorindo Carvalho; não existe uma «vocação da cor», pois esta é uma inexorável imposição da natureza. A cor é a totalidade, jamais o artificio.

Ainda hoje podemos reconhecer na personalidade de Dorindo essa mesma recatada discrição, a mesma bonomia no olhar herdada de uma infância feliz, a seriedade nos compromissos profissionais em que se aplica, e, sobretudo, uma paixão cada vez mais intensa pelo seu próprio

trabalho pictórico. Podemos reconhecer, nesta relação estreita entre o artista e a sua obra,

o germinar de um imaginário íntimo que se foi sedimentando à custa de um grande número de dúvidas e de interrogações. Na verdade, a obra de um artista torna-se válida consoante a dimensão das suas próprias dúvidas; torna-se válida para além e à revelia dessas mesmas dúvidas.

Anular a interrogação, para lá de toda a dúvida, é uma das funções da arte. Por outro lado,

anular a interrogação não significa que a arte nos dê todas as respostas: significa, isso sim, que ela está na posse do poder de trespassar a metafísica, passar por ela como se se tratasse de um fantasma. A arte caminha a par da metafísica, e essa relação é de tal modo estreita, que chega a confundir-se com ela.

Se a metafísica é uma força da razão, a arte é a representação ilusória (mas nem por isso menos verdadeira) dessa mesma razão. A honestidade que Dorindo demonstrou ao longo do seu percurso como pintor, leva-o a assumir um compromisso de honra com um projecto vasto, que vai buscar a sua solidez a essa mesma metafísica.

Queremos com isto dizer que a obra de Dorindo possui o mérito de rechear o seu imaginário íntimo com um acentuado conteúdo filosófico, ao qual se mantém fiel.

A aquisição dessa compleição filosófica também se adquire através das influências. Os mestres de Dorindo provêm das mais diversas tendências estéticas. Assim, podemos encontrar no seu caminho os nomes de Cruzeiro Seixas, um dos expoentes do Surrealismo português, Júlio Pomar, cujo trabalho teve origem na vertente neo-realista, Portinari, um dos grandes nomes do neo-realismo pictórico brasileiro (influência mais subliminar do que directa, pois Dorindo não a refere) e também o nome do britânico Francis Bacon, nascido em Dublin em 1909 e cuja morte ocorre em Madrid, em 1992. Esta referência é aquela que Dorindo confessa ser a mais directa, pois a obra de Bacon afigura-se-lhe particularmente estimulante devido às suas

constantes alucinações, que tanto representam grotescos e delicados corpos nus, assim como também estranhos papas gritantes. O trabalho pictórico de Bacon, à semelhança do de Dorindo, é a consequência dessas alucinações, representadas no espaço físico da tela, o qual não deixa de ser um espaço infinito, ilusoriamente limitado. Se bem que a influência de Bacon seja relativamente recente, as propostas estéticas anteriores de Dorindo deixam já antever essa força que vem de dentro, reveladora de uma interioridade que o pintor sempre possuiu. Da aquisição desta consciência da obra como um acto genesíaco interior, Dorindo Carvalho inicia o seu percurso interior até ao presente, o qual, apesar da sua relativa irregularidade, nunca perde, antes solidifica, a sua íntima coerência, a qual é também a sua mais íntima força.

Ainda no que respeita ao homem e ao seu percurso, resta-nos referir a sua qualidade de anda-rilho pelos sete cantos do mundo. Desde a inesquecível experiência africana, espaço privilegiado onde solidifica o seu conhecimento das técnicas da arte pictórica, Dorindo realiza também uma parte fundamental da sua obra na Venezuela, país em que trabalha como emigrante entre 1980 e 1992.

Em Caracas torna-se um pintor premiado e respeitado. Neste país prossegue a sua actividade criadora, dividindo-se, como já era habitual, entre a pintura e o desenho gráfico.

Desde o seu regresso da Venezuela até ao final do século xx, Dorindo Carvalho nunca deixou de experimentar novos caminhos para a sua pintura, os quais tentaremos clarificar, seja a partir da cronologia das obras, seja a partir dos grupos temáticos em que as obras se inserem.

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