O MAPA (A saga do anadel) – descida aos infernos/33-por Carlos Loures

Lisboa, Prisão do Tronco, 12 de Julho de 1487 e dias seguintes.

 

Vindo da brancura e do asseio do hospital, entrou num mundo de escuridão e imundície, povoado por odores putrefactos, lancinantes gritos de pavor e demência, estridências de ferros, hastes das alabardas batendo em lajes, exigindo silêncio, toques de sinetas, cujo significado não descortinava. Rodeado de guardas, percorreu extensos corredores onde a luz do dia nunca chegava, iluminados a espaços por tochas de resina colocadas nas paredes, desceu e subiu escadas, atravessou portões gradeados. Finalmente chegou ao destino e foi colocado numa cela que mal lhe deixava espaço para se deitar, iluminada por uma fresta estreita e alta que deitava para a rua e projectava, durante o dia, uma réstia de sol; de noite, se havia luar, uma ténue mancha branca ia derramar-se numa parede de pedra, onde o musgo era rei e a humidade a sua vassala mais dedicada. Durante o dia, deixava passar um ou outro som, vindo do bulício de gritos, conversas e pregões, que decorria lá fora, no distante mundo dos vivos.

 Avaliou os haveres não gastando nisso muito tempo: uma enxerga de palha encostada a uma parede, tendo por cima uma manta rota e imunda. Arremessou-a para um canto, pois além da sujidade visível, só não estaria infestada de piolhos se os percevejos já os tivessem comido. Felizmente era Verão e a capa bastar-lhe-ia para o cobrir durante o sono; um balde de cobre para as precisões fisiológicas e um cântaro de barro com água, com a boca coberta por um púcaro de estanho, destinada a lavagens e a ser bebida. Era, como verificou, um líquido turvo, de pureza mais do que duvidosa. Porém, veio depois a saber pelo bem informado Bernardino que, apesar das precárias condições, era um dos privilegiados do presídio, pois a grande maioria dos encarcerados estava amontoada em sujas e insalubres celas colectivas, em sinistros calabouços, pasto de piolhos, pulgas, percevejos e de muitas outras variadas pragas. No meio daquela sujidade pairava o espectro das pestilências, as pestes que afligiam o Reino. A última ocorrera três anos antes e a próxima não deveria estar muito distante. Para além disto, nessas celas eram muito frequentes as brigas e tentativas sodomização – por vezes bem sucedidas – a que os alabardeiros e meirinhos de guarda não tinham demasiada pressa de pôr cobro. Em resultado dessas sodomias e rixas, era usual haver mortes, o que não parecia tirar o sono a quem ali mandava. Por razões que não descortinou, não o queriam misturado com outros reclusos. O beleguim vinha agora espreitar às grades, como se temesse a sua fuga. Era um homem moreno, de elevada estatura e corpulento, ainda jovem. Teria bom aspecto, não fora a expressão agressiva que lhe ensombrava o rosto. Informou-o, numa das visitas, que o fidalgo continuava inconsciente, vacilando o seu destino entre a vida e a morte. Acrescentou que, se o conde, morresse, dificilmente Lourenço escaparia à forca. Eram favas contadas. Diogo era o nome do beleguim, veio depois a saber. Bernardino continuou a vir todas as manhãs. Além de barbear o recluso, rapava-lhe o cabelo na zona ferida, lavava-a com água de alfazema e aplicava-lhe depois o unguento de acónito que o boticário lhe dera. Ganhara, agora que o médico e o boticário tinham saído de cena, prosápias de físico. Era um momento agradável, quando, pela manhã, recebia a visita de Bernardino e ouvia a sua crónica do que se passava na prisão, na cidade, no reino e no mundo. Uma preciosa fonte de informação. Até por ser a única.

A mãe, o tio Antão, a tia Beatriz, casada com Francisco, abastado carniceiro de Alfama, e outros familiares, colegas da guarnição da Alcáçova, os freires, seus ex-professores da escola catedralícia, tentavam ilibá-lo, ajudados pelos judeus. Mas a influência do fidalgo ferido era grande e abafava os gestos de comerciantes ou mesteirais. A intervenção dos judeus, só o prejudicava, pois o povo de Moisés gozava agora de decrescentes prestígio e simpatia na comunidade, parecendo estar à beira de um infeliz desenlace, o pacífico convívio de séculos entre cristãos e hebraicos. Por outro lado, embora defender uma donzela fosse – por herança da idade velha – considerado um gesto honroso, se a donzela fosse uma judia as coisas mudavam de figura. No meio da sua infelicidade, só a recordação do adamantino sorriso de Débora brilhava como um astro incandescente.

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Perante a ameaça dos inimigos da nossa expansão, el-rei D. João II viu que era preciso tomar medidas. Por isso, promulgara, assim que chegara ao trono, uma série de disposições com o objectivo de reforçar e defender o monopólio do tráfico comercial com as novas possessões e feitorias. Algumas dessas disposições vinham já dos tempos do Infante e exigiam a manutenção de segredo sobre os meios de transporte, rotas, meios de produção, arte da carpintaria naval e da artilharia, conhecimentos náuticos, geográficos e cosmográficos, adquiridos ao longo de quase um século de navegações. Esse segredo não era fácil de manter quando tantos estrangeiros faziam parte da própria estrutura que se queria manter secreta – pilotos, comandantes, tripulantes, desenhadores de cartas de marear, astrónomos, matemáticos, fabricantes de artilharia, mercadores…

Nas suas disposições posteriores, el-rei correspondia a uma petição popular onde havia referência expressa a florentinos e genoveses que «a estes reinos nunca fizeram proveito, salvo roubá-los de moeda de ouro e prata e descobrir segredos da Mina e ilhas». Todos, mesmo a gente do povo, se apercebiam da necessidade de manter segredo sobre os descobrimentos e avanços na ciência náutica e na produção de cartas geográficas. Porém, Portugal nunca praticou, ou nunca terá conseguido praticar, uma política de sigilo com o nível científico com que a República de Veneza o fez, baseando a sua prosperidade na recolha de informação sobre o que Portugueses e Castelhanos iam descobrindo. A informação era a principal matéria-prima de um Estado que carecia de recursos naturais. Por isso, a missão de Dandolo em Lisboa se revestia de tanta importância.

E aqui voltamos mais uma vez à história dos mapas, que, como veremos, estava ligada à vinda do espião veneziano. Como disse atrás, com tantos estrangeiros a intervirem nas nossas navegações, ainda que em muitos e diversos níveis de competência – desde remadores e grumetes até sábios astrónomos e conselheiros do Reino, passando por capitães, comitres, pilotos e cartógrafos, não era possível manter um segredo absoluto sobre as descobertas científicas e sobre os descobrimentos geográficos.

Pela Europa fora, até nas mesas de tavernas das cidades marítimas, marinheiros, animados pelo vinho, no calor de discussões, entre um jogo de dados ou de cartas, lançando bravatas, se trocavam, por vezes, inconfidências. Era um segredo quase impossível de manter. Fazia-se o que se podia para guardar sigilo, mas era uma guerra perdida, pois pouco depois das coisas terem acontecido, as novidades depressa circulavam de porto em porto, de taverna em taverna, e até de corte em corte. O mapa de Vaz da Cunha, baseado na carta de Andrea Bianco e de Fra Mauro, mas muito actualizado com as novas informações colhidas nas navegações das últimas quatro décadas, constituía um caso diferente, pois, a ter alguma exactidão, revelava, a Ocidente, a existência de terras cujo conhecimento convinha resguardar até se firmar com Castela o tratado sobre a partilha dos oceanos e das novas terras a descobrir. Por outro lado, respondia a uma questão que interessava particularmente a Veneza – a rota marítima das Índias era ou não possível? Castelhanos e venezianos, sabendo da sua existência, fariam tudo para o obter.

 

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