A iniciativa é do papa Francisco, jesuíta dos quatro costados. Só podia ser. É o senhor do mundo, pelo que um desejo seu é uma ordem para todos os respectivos súbditos no mundo Cristandade, ainda entranhado nas mentes consciências, apesar de sermos já do Terceiro Milénio. Nenhum deles lhe consegue resistir. Nem sequer os ateus, os agnósticos, ou os crentes de outras religiões. Súbditos, são súbditos, independentemente da crença, não-crença que professem. Só mesmo seres humanos liberdade-sororidade que se mantêm fiéis à sua matriz original são capazes de uma tão fecunda insubmissão. Mas ainda não são tantos assim. Infelizmente. É muito mais cómodo, ainda que ignóbil, o estatuto de súbdito do poder invicto e infalível. Dá uma sensação de segurança, embora mate a originalidade e a identidade de cada qual.
Muito menos resistem aos apelos do papa, o senhor do mundo, os velhos craques do futebol dos milhões. Desde que se lhe venderam, quando mais novos, como outros tantos prostitutos de luxo para diversão das massas, segundo a velha máxima do império, “Pão e Jogos”, são, desde então, pau para toda a colher. A atracção pelos holofotes papais é irresistível. Não têm como dizer Não, a um convite seu,a uma iniciativa sua. Deste modo, no dia 12 de Outubro, à noite, o futebol praticado por antigos craques internacionais de renome rimará com a paz. A dos impérios, já se vê. A única que o império Vaticano e o seu papa, sucessores, respectivamente, do império romano e do imperador Constantino, conhecem, defendem e impõem. A paz dos vencedores. De todas as grandes potências, vassalas do papa de Roma e do seu mítico messias-cristo invicto.
O brasileiro Ronaldinho, o realmadrileno Roberto Carlos e o argentino Maradona são três dos velhos craques que já garantiram ao papa a sua participação no evento. A coisa promete. A paz das grandes potências e dos milhões sairá superfortalecida com o jogo papal transmitido urbi et orbi, desde o Estádio Olímpico de Roma. Nenhum dos grandes diz Não, a um desejo do papa de Roma. Todos querem estar de bem com ele, simultaneamente, deus e o diabo, no ingénuo e infantil dizer dos súbditos que continuam a reger-se pelos mitos, em lugar de pela realidade. Jesus Segundo João (8, 42-47) que, obviamente, não vai nunca pelos mitos, sempre vai pela realidade, é bem mais contundente e já não distingue, como ainda fazem os ideólogos-teólogos do Poder, deus e diabo. Aos doutores e teólogos do Sistema e do Templo de Jerusalém, seus contemporâneos que o odeiam de morte, diz, O vosso pai é o diabo, mentiroso e assassino desde o princípio, e vós sois todos como o vosso pai, igualmente mentirosos e assassinos.
“Unidos pela paz”, é o mote escolhido pelo papa Francisco que, como bom jesuíta, não dá ponto sem nó. Casa futebol dos milhões, praticado por velhos craques num estádio olímpico, com a paz. E, no final, proclama que desta estéril e maquiavélica união, resulta a paz. A dele, obviamente, não a dos povos, vítimas dele, da paz dele e de todos os demais poderosos-com-ele. Entre os quais também se incluem os mais graúdos dirigentes e treinadores do dito. O dinheiro apurado com o evento e, sobretudo, o muito dinheiro sujo lavado pelo evento, tem como destinatário principal – é o que reza a mentirosa Cúria romana – uma organização de muito mau gosto, por isso, do gosto do papa, concretamente, a Fundação Scholas Occurentes e a UNITALSI – União Nacional Italiana Transporte Doentes a Lourdes e Santuários Internacionais.
Para ajudar a disfarçar ainda mais a entrada e lavagem de dinheiro sujo, o papa faz questão de dizer que uma outra parte desse dinheiro destina-se a apoiar “a população de Amatrice, atingida pelo terremoto em 24 de agosto, com ações concretas para a reactivação das estruturas desportivas de base e oratórios, formando educadores e instrutores”. Vejam só este tipo de preocupações corporativas do papa jesuita. Se na Argentina, como bispo emérito de Buenos Aires, ainda tinha algum pingo de humanidade, perdeu-a por completo ao desistir dessa sua condição de emérito e correr logo a tomar posse, como bispo de Roma, apesar da idade canónica o impedir. O sonho de um dia poder vir a ser ele o papa de Roma, ao qual todos os jesuitas fazem um voto especial de obediência, concretizou-se, quando já nem bispo titular de Buenos Aires podia ser. O seu Deus que é o diabo, no teológico dizer de Jesus Segundo João, tem destes impossíveis. E não é que, de então para cá, o Vaticano e a sua Cúria romana vão de vento em popa, mais ainda do que nos longos anos do papa polaco?! O evento “Unidos pela paz”, dia 12 de Outubro, é mais um ás de trunfo que ele tira da sua cartola.
Com papas e bolos se enganam os tolos. Neste conhecido provérbio popular, o plural papas não tem nada a ver com os papas de Roma. Os súbditos são de todo incapazes de tanto. Os seus provérbios são condensação do saber popular, mais do que da sabedoria popular. Só para Jesus Século XXI é que este provérbio popular adquire toda a sua força teológica politicamente subversiva e conspirativa. E é neste sentido jesuânico que o provérbio entra aqui a propósito de mais este evento papal, com tudo de inócuo, pior, do perverso bem-fazer.
Os grandes media do futebol dos milhões vão delirar com o evento, uma vez que os seus jornalistas e comentadores são contratados para servir os interesses dos detentores dos milhões, não o desporto, como salutar prática a promover entre as populações de todas as idades e condições. Todos querem populações alienadas, não populações críticas e politicamente intervenientes. São profissionais da mentira que melhor fora nunca tivessem nascido. Fica a denúncia em forma de alerta. Para que ousem mudar de campo. E sejam profissionais ao serviço das vítimas do futebol dos milhões e dos sistemas religiosos, políticos e financeiros. A vida de qualidade e em abundância para todos os povos agradece.