Há quem acredite, ingenuamente, que quando colocam nas mãos das crianças um tablet ou um iPhone e estas deslizam os seus pequenos dedos no ecrãn, são muito inteligentes porque mexem nestes aparelhos melhor do que os avós.
Que orgulhosos ficam! A família quer ver as habilidades, como antes queriam ver as crianças espetar o dedinho e dizer “a galinha pôs o ovo…..”.
“A galinha pôs o ovo…” parece, no século XXI, uma tontice.
Agora sim, as crianças são mais espertas porque fazem muitas habilidades com os telemóveis.
É pena que não se lembrem que as crianças não têm medo de mexer nos telemóveis ou nos computadores, enquanto os avós receiam poder estragar alguma coisa. Parece que já se esqueceram que há uns anos atrás não era permitido às crianças mexer nos botões da televisão…
Não são nem mais nem menos espertas do que as outras. As crianças adaptam-se a explorar os objectos a que têm acesso.
Há de facto mérito nestas novas habilidades das nossas crianças, mas atenção, o que queremos destas crianças?
Os consultórios dos psicólogos enchem-se de crianças que não comunicam, nem se relacionam com os outros, são incapazes de se concentrar.
É estranho, mas há crianças de 3,4 e 5 anos que exigem aos pais o telemóvel mal acordam, que só comem se o tiverem nas mãos.
O telemóvel não é bom nem mau, mau é os adultos cederem para poderem ter as crianças sem fazer barulho e sossegadas.
E voltemos à “Galinha põe o ovo….”e pensar a relação afectiva que se estabelecia entre a criança e os outros, a criança crescia com ela e com os outros.
Hoje as crianças crescem com os telemóveis, com o silêncio à hora das refeições, com os olhos na televisão, dormem menos horas, não querem nem são contrariadas. Elas crescem, pois crescem, mas com que futuro, com que competências sociais, com que poder de auto regularem as suas emoções…
Hoje as crianças crescem com medo do mundo que as rodeia, é a violência, é a agressividade, é a indiferença, é a guerra, é a pedofilia…
A Criança continua o seu caminho de sofrimento causado pelos adultos, como tem acontecido ao longo dos séculos. Por onde andam os Direitos da Criança? Andam por aí nas mãos dos adultos feitos folhas de papel que se guardam nas gavetas.
Era bom relembrar Sebastião da Gama, professor, que dizia, e com razão, que quando uma aula corria mal era porque os alunos estavam com a cabeça fora da sala era porque ele não a soube dar.