CARTA DO RIO – 119 por Rachel Gitiérrez

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Escrevo no domingo, 2 de outubro, dia de festa cívica porque dia de eleições municipais. Apesar dos que ainda pensam – de forma esdrúxula – que estamos num regime de exceção ou ilegítimo, porque o atual Presidente da República substituiu a mandatária deposta pelo impeachment, hoje é dia de eleição absolutamente legítima, livre e democrática.

E como observa o editorial do Jornal O Globo:

Poucas eleições municipais estiveram tão contaminadas por temas da política nacional quanto esta. Realizada na sequência do segundo impeachment de presidente da história republicana, foi uma consequência natural que candidatos incluíssem no discurso referências à crise política em Brasília. No Rio, Jandira Feghali (PCdoB), apoiada pelo PT, desfilou de braço dado à cassada Dilma e ainda levou Lula, réu em dois processos, para cima do palanque. Pesquisas indicaram que foi mau estratagema – um indicativo de que o PT não terá um domingo risonho, nem uma segunda-feira relaxada.

A previsão é a de que o grande partido derrotado será o dos Trabalhadores.

Ora, a deputada Jandira Feghali do Partido Comunista do Brasil foi quem sofreu, no mês de março, o constrangimento de aparecer, em todas as redes sociais, no primeiro plano de um vídeo, afirmando que o ex-presidente Lula estava tranquilo e sereno após ter sido conduzido coercitivamente para prestar depoimento à Justiça Federal, ao mesmo tempo que Lula gritava impropérios  e palavrões no segundo plano do vídeo que circulou, é claro, em todo o país e foi visto e ridicularizado semanas a fio. Ela, porém, irredutível no seu papel de defensora de Lula e Dilma, voltou a circular na internet depois do impeachment, dessa vez num filme em que era mostrada pichando paredes com os dizeres “Fora Temer”, o que, convenhamos, não condiz muito com seu status de Deputada Federal. Não satisfeita ainda, no último debate dos candidatos à prefeitura do Rio, na quarta-feira passada, insultou a emissora de televisão anfitriã ao começar seu discurso afirmando que aquela TV havia apoiado “o golpe”. Nessa altura, recebeu além da vaia, como era de se esperar, uma reprimenda e a ameaça de ser retirada do debate.

Vivemos dias agitados. Fernando Gabeira, com a lucidez que o caracteriza, escreve também hoje:

No primeiro dia da semana eleitoral foi preso (Antonio) Pallocci (Filho), um ex-ministro da Fazenda, homem importante do PT. Na sua conta, foram bloqueados R$30 milhões. (Poucos dias mais tarde, mais R$31 milhões, o que somou R$61 milhões). Se olharmos para trás, para o início do processo democrático, veremos que todos os que prometiam combater a corrupção acabaram se afundando nela. Collor e Lula foram eleitos com essa bandeira. Ambos, de certa maneira, foram derrubados por aquilo que anunciavam combater.

Quanto aos recentes assassinatos de candidatos que repercutiram na Europa e no mundo, Gabeira esclarece: Não se pode dizer que as pessoas foram mortas apenas por questões políticas. Muitas tinham algum tipo de relação com o crime organizado. A grosso modo, um policial definiu assim a sucessão de crimes: com raras exceções, não morreram porque eram políticos, mas sim porque eram bandidos.

Relembra então grandes eleições da nossa história relativamente recente: Já em 1982, pelo menos no Sudeste, ela (a eleição) consagrou políticos de dimensão nacional: Tancredo em Minas, Brizola no Rio e Montoro em São Paulo. Na de 86, havia grandes expectativas que acabaram canalizadas para a primeira eleição direta para presidente, em 1989. Com a queda de Collor, a rápida passagem de Itamar e os dois governos do PSDB, as esperanças se voltaram para a esquerda do espectro político, encarnada pelo PT. Todos conhecem o resultado, embora alguns militantes, ideologicamente, tentem ressaltar seus aspectos positivos. Os fatos são inequívocos: o governo virou uma quadrilha, organizada para saquear o país.

E só podemos lamentar, com Gabeira, o tempo em que havia esperanças. ( Tempo que me levou a votar no PT em quatro eleições).

Por seu lado, Cacá Diegues, o conhecido cineasta, que vem se destacando como excelente articulista, ao comentar a campanha eleitoral da América do Norte, afirma:

O que está acontecendo nos Estados Unidos e na Europa de um modo geral (e no Brasil também) é um enorme cansaço diante das discussões econômicas e sociais, travadas com certezas intolerantes que apenas disfarçam a corrupção e o abuso de poder em benefício próprio.

Ninguém acredita mais, ninguém quer mais acreditar em quem nos faz excelsos discursos de salvação nacional. As pessoas preferem os que não fingem pensar, os que dizem logo que o importante é vencer na vida, (como Donald Trump) ficar rico e ter sempre o que vestir e comer, sobretudo quando se engana o eleitor dizendo-lhe que isso está igualmente ao seu alcance. Ninguém quer mais saber de quem pensa e tenta dar explicações, as coisas são o que são pela força natural delas mesmas. E é melhor que continuem sendo assim, para sossego de nossas mentes e satisfação de nossos corpos.

E o cineasta conclui seu artigo sem ilusões:

Se não conseguirmos substituir a histeria mística e personalista da esquerda populista por algo mais democrático, efetivo e eficiente, jamais seremos capazes de enfrentar a direita desprovida de sentimentos.

Preciso ainda citar aqui o que disse o presidente do Tribunal Superior Eleitoral, o ministro Gilmar Mendes, e que foi transcrito no artigo de Míriam Leitão:

O desinteresse dos jovens pela política tradicional é um fenômeno mundial, mas no Brasil há partidos falsos, sem vida, que não têm programas, legendas que fraudam a participação da mulher, colocando o nome delas apenas para constar, fundações partidárias que só existem para cumprir a lei.

E acrescentou: – Vamos entender que o ambiente político contribui para este estado de alma, a política está perdendo a credibilidade.

Apesar de tudo, fui votar com a mesma emoção de sempre, e votei com alegria e confiança no dever a cumprir. Os candidatos de minha escolha dificilmente sairão vitoriosos nesta eleição. Mas acredito no que eles defendem – são ambientalistas e bons democratas. Se não vencermos desta vez, será numa outra. Não admito o voto útil e considero covardes tanto o branco quanto o nulo.  Prefiro perder ganhando, do que ganhar perdendo.

 

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