SE O EURO É A CAUSA DE TANTOS POPULISMOS EUROPEUS – por SERGIO CESARATTO, MASSIMO D’ANTONI, VLADIMIRO GIACCHÉ, MARIO NUTI, PAOLO PINI e ANTONELLA STIRATI – enviado por DOMENICO MARIO NUTI

euro

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Se o euro é a causa de tantos populismos europeus

il manifesto

 

***Sergio Cesaratto, Massimo D’Antoni, Vladimiro Giacché, Mario Nuti, Paolo Pini, Antonella Stirati, 

Se è l’euro la causa dei tanti populismi europei

Publicado por Il Manifesto em 30 de Setembro, disponível hoje em muitos blog’s  importantes de Itália.

Enviado por Domenico Mario Nuti 

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O jornal do Partido Comunista Italiano ilustra assim  o presente texto na sua edição de 30 de Setembro de 2016

Intervindo no jornal IL Manifesto de 23 de Setembro Giorgio Lunghini fornece-nos “alguns números sobre a saída da zona euro ”. Em síntese: a saída provocaria uma desvalorização em cerca de 50 % da nova moeda italiana a que se seguiria uma inflação que em média atingiria os 15 % somente no primeiro ano depois da saída e que a seguir se situaria em média de 20% sucessivamente no quinquénio seguinte. A desvalorização faria duplicar o valor dos cupões do Tesouro nas mãos dos residentes, determinando uma queda dos rendimentos disponíveis das famílias na ordem dos 11%. A inflação, além disso, corroeria os salários, causando uma perda média anual de rendimento do trabalho de 10%. O resultado seria, no primeiro ano, uma perda de PIB na casa dos 40% para a Itália seguido de 15% nos anos seguintes pelo menos durante três anos.

Ninguém quer esconder como podem ser críticas as consequências da saída da zona euro. Por outro lado, o mesmo Lunghini admite que essa saída é insustentável. Decorre daqui, por conseguinte, a obrigação de discutirmos os resultados com serenidade e conformando-nos, na medida do possível, com a base factual fornecida pelos dados estatísticos e pela investigação científica.

Nas estatísticas do Banco da Itália lemos que uma perda de PIB na ordem dos 40% como a que é apresentada por Lunghini tem um único precedente histórico: os cinco anos do segundo conflito mundial. Isto para avaliarmos a plausibilidade deste cenário, que além disso é aritmeticamente incoerente. Lunghini cita uma queda dos rendimentos do trabalho de 10%: um valor que é difícil conciliar, sem hipóteses “heróicas” sobre as outras componente de rendimento, com uma queda de 40% dos rendimentos totais.

Mesmo que seja admitida a tese segundo a qual haverá uma perda de competitividade de 30% para a Alemanha, a Itália desvalorizaria em 50% levando a inflação aos 20%. O ministério de Desenvolvimento Económico recorda-nos que no mundo económico podemos ser vistos por duas vias: estamos entre os 30 parceiros comerciais mais importantes para a Itália somente oito pertencem à zona euro. Em relação aos outros parceiros que exprimem 44% do nosso comércio externo, já desvalorizámos 20% entre Março de 2014 e Março de 2015. Daqui decorrem duas considerações. Primeiro: os países que já sofreram a desvalorização competitiva de Draghi dificilmente deixarão cair a taxa de câmbio de um concorrente perigoso como o é a Itália em cerca de 50%. De acordo com: com um euro assim enfraquecido em relação aos países dos quais importamos matérias-primas, a inflação não é sequer visível.

A ideia que os realinhamentos da taxa de câmbio ultrapassem o valor de equilíbrio (o efeito de sobre reação), pelo qual uma perda de competitividade dos 30% levaria a uma desvalorização não de 30% mas sim, por efeito de sobre reação, de 50%, faz parte dos modelos económicos neoliberais que não encontram grande validação na prática. A ideia que existe uma relação direta entre desvalorização e a inflação é mesmo ela desmentida pelos factos: em nenhum dos países europeus que reagiram à crise de 2009 por uma desvalorização  em média de 25,7% (a Inglaterra, a Polónia, a Suécia) se manifestou uma inflação nas proporções evocadas por Lunghini (a inflação esteve em média situada na vizinhança dos 2,5%). Existe uma vasta literatura sobre esta temática e em que se explica porque é que as grandes desvalorizações não estão associadas à grandes inflações (Burstein e outros em J. Pol. Ec de 2015). Desculpemo-nos pela referência pedante: o risco parece‑nos ser muito inferior ao que aqui se fala além de que não é cientificamente rigoroso.

Ao  exprimir as suas opiniões é necessário questionarmo-nos sobre a oportunidade política de as  apresentar como factos,  intervindo num debate tão delicado. Se o que preocupa Lunghini, como todos nós, é o avanço das direitas populistas, devemos então debruçarmo-nos sobre a questão  que combater o populismo com argumentos igualmente tão populistas, é uma estratégia que até agora resultou no efeito contrário. A única esperança de nos diferenciarmos da direita é abrir à esquerda um debate baseado em fundamentos analíticos e factuais bem mais sólidos.

***Sergio Cesaratto, Massimo D’Antoni, Vladimiro Giacché, Mario Nuti, Paolo Pini, Antonella Stirati

Réplica: “Se ninguém explica as consequências positivas da saída da zona euro

Nenhum dos meus muitos artigos publicados durante tantos anos publicados em Il Manifesto tinha suscitado tantos comentários: aparecem agora quase 50 em Il Manifesto e pelo menos outros 50 noutros lugares. Comentários quase todos eles na forma de invetiva e de denúncia do meu enviesamento anticomunista

Inteiramente diferente pela forma e conteúdo, é o comentário de Paolo Pini e outros amigos, a quem pelo contrário agradeço. Recordo-me apenas de que no meu texto tinha falado “de estimativas ”, e não de “dados” ou “de factos”: por conseguinte é bem-vinda qualquer correção, sobretudo se esta é mesmo de autoridade.

É verdade, uma das minhas preocupações é o avanço da direita populista, contudo mesmo à esquerda às vezes também se fala igualmente de uma saída da UEM e do euro. Porém, ainda ninguém deu uma resposta à questão levantada no meu artigo: quais poderiam ser as consequências positivas de uma saída da UEM e do euro, para toda a economia italiana e em especial para os trabalhadores? E desejo mesmo aqui recordar que também em Il Manifesto, há já três anos, foi publicada uma carta aberta sobre a necessidade de alterar as políticas de austeridade e os Tratados, carta que aqui voltamos a publicar.

Giorgio Lunghini

A Carta-Apelo “Inverter a rota”

Ao Presidente da Republica, Giorgio Napolitano

Ao Presidente do Conselho de Ministros, Enrico Letta

Ao Presidente da Comissão Europeu , José Manuel Barroso

Ao Governador do Banco Central Europeu, Mario Draghi

A crise dura desde há seis anos até agora. Desencadeada pela enorme pobreza criada nestes trinta anos de neoliberalismo, esta é ainda exasperada pela precariedade e pela desigualdade crescente. Multiplica-se o exército dos sem-trabalho. Destrói-se o Estado Social e desmantelam-se os direitos dos trabalhadores. Compromete-se o futuro das jovens gerações.

Concebido com o sinal da esperança, a Europa unida foi concebida para ser também um árbitro da cena política continental mas esta representa hoje e aos olhos de muita gente, um poder hostil e ameaçador. E a própria democracia arrisca-se a ser vista apenas como um puro simulacro ou, pior ainda, como um perigoso engano.

Porquê? É a crise, como se ouve sucessivamente repetir, que é a causa imediata de um tal estado de coisas? Ou a sermos mais precisos não são as políticas orçamentais que, sob indicação das instituições europeias, os países da zona euro aplicam para a enfrentar, em conformidade com os princípios neoliberais ?

Acreditamos que a verdade está nesta última explicação. Estamos convictos de que as prescrições de política económica adotadas pelos governos europeus, longe de combaterem a crise e de favorecerem a retoma, reforçam antes as causas da crise e impedem a retoma. Os Tratados europeus prescrevem um rigor financeiro incompatível com o desenvolvimento económico, para além de ser também incompatível com qualquer política redistributiva, de equidade e de progresso social. Os sacrifícios impostos a milhões de cidadãos traduzem-se não somente em indigência e mal-estar social, mas, deprimindo a procura fazem mesmo com que se aniquile um fator essencial ao crescimento económico, o trabalho. Desta maneira, a Europa que é considerada a região potencialmente mais avançada e florescente no mundo arrisca-se a transformar-se numa gigantesca espiral de destruição.

Tudo isto não pode continuar. É urgente uma inversão de caminho, que confie às instituições políticas nacionais e comunitárias, a tarefa de levar a cabo políticas expansionistas e o Banco Central Europeu a assumir uma função prioritária de estimular o crescimento.

É hoje admitido que as Instituições consideram o orçamento equilibrado como uma restrição indiscutível e considerada até agora como a única escolha admissível mas manter essa esta mesma atitude a partir de agora em diante constitui um erro imperdoável e a responsabilidade mais grave que uma classe dominante pode assumir face à sociedade que tem o dever de proteger.

*** Étienne Balibar, Alberto Burgio, Luciano Canfora, Enzo Collotti, Marcello De Cecco, Luigi Ferrajoli, Gianni Ferrara, Giorgio Lunghini, Alfio Mastropaolo, Adriano Prosperi, Stefano Rodotà, Guido Rossi, Salvatore Settis, Giacomo Todeschini, Edoardo Vesentini

 

Texto enviado por Domenico Mario Nuti. Publicado por vários blogs relevantes em Itália  como por exemplo em:
se-o-euro-ii

E disponível em:

 http://www.dirittiglobali.it/2016/09/leuro-la-causa-dei-tanti-populismi-europei/

ou ainda em:

http://www.ilpartitocomunistaitaliano.it/2016/09/30/se-e-leuro-la-causa-dei-tanti-populismi-europei/

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Texto enviado por Domenico Mario Nuti.

Website: http://sites.google.com/site/dmarionuti/
Blog “Transition”: http://dmarionuti.blogspot.com/

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