
Selecção, tradução e montagem por Júlio Marques Mota
ANEXO 2
(Parte IV)
Dinheiro que parece criado a partir do nada pode transformar-se em dinheiro gerado pela produção
Michael Pettis
2015
(CONCLUSÃO)
…
Apêndice – as poupanças são iguais ao investimento
Embora a definição de investimento e poupança enquanto diferentes nomes para a mesma coisa possa parecer, à primeira vista, um exercício sem utilidade, na verdade, como defendi mais recentemente na minha longa análise de The Leaderless Economy (Peter Temin and David Vines), ela é um valioso modo para se compreenderem as ligações entre economias nacionais dentro da economia mundial como um sistema único. “Poupanças” podem ser definidas de diversos modos, mas o modo mais útil, e que é regra em economia, é definir que a oferta de todos os bens e serviços que uma entidade económica produz num determinado período consiste em duas coisas. A primeira consiste em tudo aquilo que é consumido, incluindo coisas que se percam, desperdicem ou deteriorem.
Aquilo que resta e seja acumulado para uso futuro são poupanças. A intuição é bastante óbvia: tudo aquilo que uma economia produz tanto é consumido correntemente (ou gasto de algum modo), como é posto de lado para consumo futuro, e definimos genericamente poupanças como o que quer que ponhamos de parte para consumo futuro e fora do consumo actual. A questão relevante é que estas são igualdades contabilísticas e são verdadeiras em virtude da forma como as definimos.
A oferta é igual à procura (outra igualdade contabilística), de modo que podemos refazer a igualdade contabilística afirmando que a procura de tudo o que se produz tanto são as coisas que desejamos consumir agora como também as que queremos usar em consumo futuro. A este último chamamos “investimento”. Será útil, a seguir, distinguir entre dois tipos de investimento. Um, que poderemos designar de aumento nas “existências [de inventário]”, consiste em tirar alguns dos bens consumíveis e armazená-los para consumir mais tarde. O outro tipo de investimento consiste em bens e serviços que não se podem consumir diretamente, mas que mesmo assim se produzem porque poderão ajudar a produzir mais bens e serviços para consumirmos no futuro. Por exemplo, se produzimos um martelo, ou um tractor, provavelmente não desejaremos “consumi-los”, mas poderão ajudar-nos a produzir mais bens e serviços no futuro.
A aquisição de um ativo existente é muitas vezes designado como “investimento”, mas podemos seguramente ignorar o seu impacto, seja porque definimos investimento como pôr de lado bens e serviços adicionais, seja porque, se decidirmos definir também como investimento a aquisição de ativos existentes, nesse caso o ativo existente é simultaneamente um aumento do investimento e um aumento equivalente das poupanças. Seja como for isso não altera o resultado da nossa igualdade contabilística no momento em que ocorre, embora, claro, quando uma suficiente quantidade de dinheiro é investida em ativos existentes de tal modo que os seus preços sobem, poderemos sentirmo-nos mais ricos e, por isso, reduzir a poupança, ou, o que é a mesma coisa, aumentar o nosso consumo.
Em virtude de a oferta de todos os bens e serviços produzidos pela economia ser igual à procura de todos os bens e serviços que a economia produz então, desde que sejamos consistentes com a nossa definição de consumo, por definição é verdadeiro que o investimento é igual às poupanças. Claro, este é o único caso, num sistema fechado como a economia mundial Num sistema aberto, como no caso de um país, investimento e poupanças raramente são iguais, mas a soma do excedente das poupanças sobre o investimento em alguns países e o excedente do investimento sobre as poupanças em outros países terá de ser sempre igual a zero – outra igualdade contabilística.
Esta é tão somente uma maneira de dizer que os excedentes da conta corrente ou comercial das balanças de pagamentos em todo o mundo terão de somar o mesmo número que todas as contas correntes ou comerciais das balanças de pagamentos que apresentarem défice. Explico porquê na minha análise do The Leaderless Economy. Este é também um modo de dizer porquê a afirmação do St. Louis Federal Reserve Bank, feita para educar o público no seu programa “Ask an Economist” (que irónico), é errada ao ponto de ser quase um despropósito:
Talvez a mais séria questão quanto ao investimento estrangeiro é que efetivamente disfarça a falta de poupança doméstica. Mas as poupanças domésticas são o resultado das decisões dos Americanos, indivíduos e governo, e são pouco influenciadas pela procura estrangeira de ativos nos EUA. Temos o nosso destino económico nas nossas próprias mãos.
Uma vez que poupanças e investimento têm de estar sempre necessariamente em equilíbrio, a ideia de que a taxa de poupança de qualquer país é determinada internamente é um absurdo. Em países que intervenham fortemente no comércio e nos fluxos de capital, isto será quase verdade, mas em países que não apreciam os EUA, a verdade é quase o oposto. Os EUA não determinam a sua própria taxa de poupança, e praticamente não podem enquanto permitirem acesso ilimitado dos estrangeiros aos seus mercados de ativos. Conhecendo as igualdades contabilísticas este ponto terá ficado bem claro.
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Michael Pettis, Thin Air’s Money Isn’t Created Out of Thin Air, disponível em http:
http://carnegieendowment.org/2015/10/19/thin-air-s-money-isn-t-created-out-of-thin-air-pub-61679
ou ainda em:
http://blog.mpettis.com/2015/10/how-to-spend-thin-airs-endogenous-money/
