HOMENAGEM A JOÃO CRAVINHO PELOS SEUS OITENTA ANOS – DE UMA CRISE A OUTRA, DA CRISE DOS ANOS DE 1930 NA ALEMANHA À CRISE DOS ANOS DA TROIKA — A EQUIVALÊNCIA NOS DISCURSOS POLÍTICOS, A EQUIVALÊNCIAS NAS POLÍTICAS ECONÓMICAS APLICADAS – XVII

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Selecção, tradução e montagem por Júlio Marques Mota

ANEXO 2

 (Parte IV)

Dinheiro que parece criado a partir do nada pode transformar-se em dinheiro gerado pela produção

Michael Pettis

2015

(CONCLUSÃO)

Apêndice – as poupanças são iguais ao investimento

Embora a definição de investimento e poupança enquanto diferentes nomes para a mesma coisa possa parecer, à primeira vista, um exercício sem utilidade, na verdade, como defendi mais recentemente na minha longa análise de The Leaderless Economy (Peter Temin and David Vines), ela é um valioso modo para se compreenderem as ligações entre economias nacionais dentro da economia mundial como um sistema único. “Poupanças” podem ser definidas de diversos modos, mas o modo mais útil, e que é regra em economia, é definir que a oferta de todos os bens e serviços que uma entidade económica produz num determinado período consiste em duas coisas. A primeira consiste em tudo aquilo que é consumido, incluindo coisas que se percam, desperdicem ou deteriorem.

Aquilo que resta e seja acumulado para uso futuro são poupanças. A intuição é bastante óbvia: tudo aquilo que uma economia produz tanto é consumido correntemente (ou gasto de algum modo), como é posto de lado para consumo futuro, e definimos genericamente poupanças como o que quer que ponhamos de parte para consumo futuro e fora do consumo actual. A questão relevante é que estas são igualdades contabilísticas e são verdadeiras em virtude da forma como as definimos.

A oferta é igual à procura (outra igualdade contabilística), de modo que podemos refazer a igualdade contabilística afirmando que a procura de tudo o que se produz tanto são as coisas que desejamos consumir agora como também as que queremos usar em consumo futuro. A este último chamamos “investimento”. Será útil, a seguir, distinguir entre dois tipos de investimento. Um, que poderemos designar de aumento nas “existências [de inventário]”, consiste em tirar alguns dos bens consumíveis e armazená-los para consumir mais tarde. O outro tipo de investimento consiste em bens e serviços que não se podem consumir diretamente, mas que mesmo assim se produzem porque poderão ajudar a produzir mais bens e serviços para consumirmos no futuro. Por exemplo, se produzimos um martelo, ou um tractor, provavelmente não desejaremos “consumi-los”, mas poderão ajudar-nos a produzir mais bens e serviços no futuro.

A aquisição de um ativo existente é muitas vezes designado como “investimento”, mas podemos seguramente ignorar o seu impacto, seja porque definimos investimento como pôr de lado bens e serviços adicionais, seja porque, se decidirmos definir também como investimento a aquisição de ativos existentes, nesse caso o ativo existente é simultaneamente um aumento do investimento e um aumento equivalente das poupanças. Seja como for isso não altera o resultado da nossa igualdade contabilística no momento em que ocorre, embora, claro, quando uma suficiente quantidade de dinheiro é investida em ativos existentes de tal modo que os seus preços sobem, poderemos sentirmo-nos mais ricos e, por isso, reduzir a poupança, ou, o que é a mesma coisa, aumentar o nosso consumo.

Em virtude de a oferta de todos os bens e serviços produzidos pela economia ser igual à procura de todos os bens e serviços que a economia produz então, desde que sejamos consistentes com a nossa definição de consumo, por definição é verdadeiro que o investimento é igual às poupanças. Claro, este é o único caso, num sistema fechado como a economia mundial Num sistema aberto, como no caso de um país, investimento e poupanças raramente são iguais, mas a soma do excedente das poupanças sobre o investimento em alguns países e o excedente do investimento sobre as poupanças em outros países terá de ser sempre igual a zero – outra igualdade contabilística.

Esta é tão somente uma maneira de dizer que os excedentes da conta corrente ou comercial das balanças de pagamentos em todo o mundo terão de somar o mesmo número que todas as contas correntes ou comerciais das balanças de pagamentos que apresentarem défice. Explico porquê na minha análise do The Leaderless Economy. Este é também um modo de dizer porquê a afirmação do St. Louis Federal Reserve Bank, feita para educar o público no seu programa “Ask an Economist” (que irónico), é errada ao ponto de ser quase um despropósito:

Talvez a mais séria questão quanto ao investimento estrangeiro é que efetivamente disfarça a falta de poupança doméstica. Mas as poupanças domésticas são o resultado das decisões dos Americanos, indivíduos e governo, e são pouco influenciadas pela procura estrangeira de ativos nos EUA. Temos o nosso destino económico nas nossas próprias mãos.

Uma vez que poupanças e investimento têm de estar sempre necessariamente em equilíbrio, a ideia de que a taxa de poupança de qualquer país é determinada internamente é um absurdo. Em países que intervenham fortemente no comércio e nos fluxos de capital, isto será quase verdade, mas em países que não apreciam os EUA, a verdade é quase o oposto. Os EUA não determinam a sua própria taxa de poupança, e praticamente não podem enquanto permitirem acesso ilimitado dos estrangeiros aos seus mercados de ativos. Conhecendo as igualdades contabilísticas este ponto terá ficado bem claro.

Académicos, jornalistas, responsáveis do governo e de ONGs que queiram subscrever o meu boletim informativo, que por vezes inclui partes deste e outras vezes (como neste caso) não inclui, deverão escrever-me para atchinfinpettis@yahoo.com, declarando a sua inscrição, por favor. Investors who want to buy a subscription should write to me, also at that address. Os investidores que queiram adquirir a subscrição deverão também dirigir-se a mim no endereço indicado.

Michael Pettis, Thin Air’s Money Isn’t Created Out of Thin Air, disponível em http:

http://carnegieendowment.org/2015/10/19/thin-air-s-money-isn-t-created-out-of-thin-air-pub-61679

 

ou ainda em:

 

http://blog.mpettis.com/2015/10/how-to-spend-thin-airs-endogenous-money/

 

Bibliografia Geral

Benoit Chalifoux, Schacht et Hitler contre Roosevelt: pourquoi l’austérité mène au fascisme Texto publicado no sítio Solidarieté & Progrès e disponível em: http://www.solidariteetprogres.org/hjalmar-schacht-hitler-roosevelt.html

Texto publicado no sítio Solidarieté & Progrès, Le crédit productif: le financement des grands projets par une banque nationale. Texto disponível em: http://www.solidariteetprogres.org/documents-de-fond-7/economie/article/le-credit-productif-le-financement-des-grands.html

FM, CRISE FINANCIÈRE: RETOUR SUR LES ANNÉES 30 EN Allemagne, texto publicado no sítio Boulevard Extérieur e disponível em: http://www.boulevard-exterieur.com/Crise-financiere-retour-sur-les-annees-30-en-Allemagne.html

Hansjorg Klausinger, German Anticipations of the Keynesian Revolution?: The Case of Lautenbach, Neisser and Ropke, texto publicado por The European Journal of the History of Economic Thought

Hartmut Cramer, Wilhelm Lautenbach et le concept de crédit produtif, Texto publicado no sítio Agora Erasmus e disponível em: http://www.agora-erasmus.be/Wilhelm-Lautenbach-et-le-concept-de-credit-productif_00373

Jean-François Bouchard, Le banquier du Diable, edit. Max Milo, 2015

Les-crises.fr [Réparations 4] Les défauts des années 1930. Uma série de cinco textos dispóniveis em: http://www.les-crises.fr/reparations-4-les-defauts-des-annees-1930/

Michael Pettis, Thin Air’s Money Isn’t Created Out of Thin Air, disponível em

http: http://carnegieendowment.org/2015/10/19/thin-air-s-money-isn-t-created-out-of-thin-air-pub-61679

Michael Liebig, Recovery program could have blocked Hitler’s ‘legal coup’. Texto publicado por Executive Intelligence Review e disponível em: http://www.larouchepub.com/other/1999/liebig_schleicher_2610.html

Willheim Lautenbach, Möglichkeiten einer Konjunkturbelebung durch Investition und Kreditausweitung, 9 de Setembro de 1931. Texto disponível em:

 http://www.saldenmechanik.info/files/saldenmechanik/Wilhelm%20LAUTENBACH%20(1931)%20Moeglichkeiten%20einer%20Konjunkturbelebung%20durch%20Investition%20und%20Kreditausweitung%20(LAUTENBACH-Plan).pdf

Willheim Lautenbach, Defizitpolitik? «Reichsbankzusage» als Katalysator? Der Verzweiflungsweg –ohne Auslandskapital!, em Zins, Kredit und Production, editado por WOLFGANG STÜTZEL e publicado por J.C.B. MOHR (PAUL SIEBECK) TÜBINGEN, 1952.Texto disponível em:

 http://www.arno.daastol.com/books/Lautenbach%20(1952)%20Zins%20Kredit%20und%20Produktion.pdf

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