CARTA DO RIO – 121 por Rachel Gutiérrez

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Hoje começo com um velho poema que me foi inspirado há muitos anos, por Roger Garaudy, a partir da leitura de seu livro O OCIDENTE É UM ACIDENTE, que tem como subtítulo “Por um Diálogo das Civilizações”, e foi publicado na França em 1976 e, em 1978 em português do Brasil.

O poema em questão – que se chama DIALÉTICA – embora me pareça coerente, na verdade revela um grave mal entendido em relação à arte pictórica que evoca.

Vejamos o que eu dizia: Pintura ou gravura/ da China ou do Japão/ tem branco no papel//- é o longe do aqui/ a morte da vida/ o nada do Ser//também o poema/ não poupe papel// pois cabem no mundo/a Voz e o (silêncio)//o vácuo e a ESTRELA.

Ora, relendo agora o admirável livro de Garaudy, percebi que o branco do papel, ou a parte deixada sem pintar, característica da arte chinesa e japonesa a que se referira o escritor, não significava a morte, ou o nada, mas o invisível e o infinito, ou simplesmente o que não vemos, mas que existe para além dos limites da nossa visão e da nossa imaginação. Porque na China e no Japão, pintar não depende apenas de uma técnica, mas de uma espécie de ascese, ou experiência mística. Lá, como diz o filósofo, “o artista vive em uníssono com a alma cósmica. Nos seus instantes de iluminação, de ressonância do seu corpo e sua alma, comunica essa vida àquilo a que dá forma. Apreendeu, além dos aspectos imediatos do mundo, a corrente de força cósmica que o anima.” E o que para um ocidental pode parecer mera decoração “se traduz, ao contrário, como uma espécie de fragmento de eternidade, marcando os impulsos que se exercem fora da paisagem pintada.”

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O“longe” que evoquei em meu ingênuo poema possui uma grandeza simbólica que me escapou. O “branco do papel” comporta “largas zonas vazias, deixando a impressão de inacabado que libera a imaginação.” E aqui vale a pena ouvir mais longamente o que Garaudy compreendeu:

Contrariamente a nossos quadros da Renascença, não se busca representar um espetáculo, mas comunicar um movimento e um estado de alma da natureza. (…) A perspectiva não tem, por exemplo, nada de comum com as convenções geométricas e científicas elaboradas no Ocidente no Renascimento, que conferem ao observador uma posição central e privilegiada a partir da qual o quadro se ordena. A perspectiva é móvel e tende a nos fazer ver o mundo na sua integridade, desde a própria paisagem, e não em função do olhar individual. (…) uma forma aberta equilibra-se a uma fechada, o céu e a terra fazem o equilíbrio entre a parte alta e a parte baixa da tela. Trata-se sempre de tornar presente e vivo, o infinito, que transborda da paisagem que nos ultrapassa.

O filósofo explica ainda que a simetria, como a entendeu Leonardo da Vinci, por exemplo, nasceu da contemplação do corpo humano, considerado como um módulo universal. A pintura chinesa e japonesa, antípoda desse antropocentrismo, implica necessariamente a assimetria. A disposição na tela lança nosso olhar para o infinito, em vez de centralizá-lo sobre uma imagem.

A alguém que tenha tido a paciência de me seguir até aqui para entender onde quero chegar, explico que ando preocupada com o que se convencionou chamar de aceitação do outro, do diferente, com a diversidade e o possível diálogo entre as culturas e civilizações, neste momento crucial da história do nosso planeta, quando a crise humanitária dos refugiados e imigrantes atinge a todos.

E penso que tanto o livro Orientalismo, do palestino Edward Said, que já citei tantas vezes quanto este que abordo agora, são de uma absoluta atualidade e necessidade, apesar de datarem da década de 1970 do século passado.

E que é que nós sabemos das culturas e das artes dos outros povos para acolhê-los, hospedá-los e ajudá-los corretamente nesta sua/nossa tragédia? Ou será que o homem branco, o ocidental bem sucedido não tem nada a ver com isso? Que temos a ver com todos esses sírios desesperados e os milhares de africanos que de uns tempos para cá enfrentam o mar e todos os perigos para fugir das guerras?

Voltemos a Garaudy:

Lembro-me de ter sentido bruscamente, como um fardo humilhante sobre meus ombros, a vergonha do homem branco, ao visitar, na ilha de Gorea, em frente a Dakar, as celas onde outrora se amontoavam os cativos prestes a partir: traços de discos de pintura negra, sobre a muralha, marcam ainda o lugar que os negreiros assinalavam para cada homem naquele inferno.

E quando fala da arte africana, o filósofo nos faz comoventes revelações:

Para um africano, a natureza é uma espécie de campo magnético de onde se tira a força. (…) Os africanos conhecem uma energia única que anima a natureza em graus de intensidade mais ou menos fortes, uma energia que corresponde às nossas angústias, nossos desejos, a nossas esperanças. Para eles, o problema essencial consiste em captar essas forças esparsas e em formar com elas um núcleo de realidade mais denso. Nesse espírito, a máscara (que tanto apaixonou Picasso e vários outros artistas modernos) age como suporte visível das forças invisíveis. O objetivo a atingir é o de participar numa suprarrealidade que subentende o universo. A arte africana pode evocar o animal, o ancestral ou a divindade por meio da escultura, da música ou da dança – trata-se de um todo único. (…) assiste-se a uma metamorfose do homem pelo desempenho de uma dança ritual obedecendo a leis rítmicas, produzindo uma forte acumulação de energia.

Estamos longe da concepção ocidental da obra de arte!

E foram povos como esses, povos com essas riquíssimas visões de mundo que os brancos escravizaram e aviltaram e humilharam!  E agora eles fogem da guerra.

E por que é que as guerras, que geram tantos refugiados, e que continuam matando tantos milhares de civis inocentes não acabam, não chegam a um fim?

Quem me respondeu a essa pergunta, ontem, foi Frei Betto, em sua coluna dos sábados sobre Espiritualidade:

A guerra não é apenas “a continuação da política por outros meios”, como disse Clausewitz. É, hoje em dia, sobretudo um meio sórdido de se obter lucro fácil, através da indústria bélica, que fatura US$400 bilhões por ano, e do contrabando de armas. São as nações ricas do Hemisfério Norte, que tanto falam em paz, que fabricam artefatos de guerra e promovem intervenções militares em nações periféricas. Praticam o preceito do “armai-vos uns aos outros”

Quando é que a nossa triste humanidade vai despertar para o diálogo das diferenças, das visões de mundo, das religiões e das culturas? Quando é que ao invés de nos enriquecermos com a guerra e com a morte, vamos optar por enriquecer nossas vidas, nossas almas e nossos conhecimentos trocando experiências e histórias, conhecendo os costumes e a arte dos nossos semelhantes/diferentes, porém irmãos, como fez Roger Garaudy em seu livro extraordinário?

Enquanto isso continua difícil, quase impossível, aceitemos ao menos, como aconselha Frei Betto, o convite do Papa Francisco para participar, nem que seja com nossos bons sentimentos, do dia Mundial de Oração pela Paz, o próximo 27 de outubro.

 

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