EDITORIAL – Mudar a vida? Transformar o mundo?

logo editorialNuma conversa de café (no «Gelo»), Herberto Hélder, o grande escritor, o autor de «Os passos em volta», disse uma vez que um grande poeta pode ter apenas 18 anos, mas quanto aos ficcionistas,  não acreditava nos que tivessem menos de 40 –a «poesia nasce da intuição – a ficção é fruto da experiência de vida acumulada», terá dito por estas ou outras palavras. E citou o caso de Rimbaud que aos 16 anos escreveu uma obra genial- Une saison en enfer.

O jovem Rimbaud dissera que é  preciso mudar a vida.  Pessoa disse algo como «o homem é o único ser que tem de aprender tudo». Desculpai-nos esta fúria citacista que concluímos com a frase de Karl Marx que no «Manifesto» – é preciso transformar o mundo. Este editorial comemora o aniversário de Jean-Arthur Rimbaud, nascido no dia 20 de Outubro de 1854.

Ainda hoje, 163 anos depois da sua morte, a sua poesia é hermética. A  sua expressão «Ladrões de fogo», é, no entanto descodificável. Não foram os deuses que criaram a Humanidade, foram os homens que criaram os deuses, pois não conseguiam conviver com a total ignorância da sua origem. Sendo nós seres biologicamente culturais, ou seja, a necessidade de saber, acompanha a nossa evolução, o território dos deuses vai diminuindo enquanto o do conhecimento cresce.

E, neste caso, a frase de Rimbaud supera a de Marx – Transformar o mundo é absolutamente necessário, mas essa transformação só será possível com um Homem diferente e para que essa diferença se produza é preciso mudar a vida, mudá-la radicalmente. Uma sociedade que se apoie no ser e despreze o ter. A história de Rimbaud dá razão a Herberto. O fogo da intuição poética do jovem Jean-Arthur apagou-se. A maturidade transformou-o num traficante de armas e de droga. O poder visionário dissipou-se.

1 Comment

  1. Ser e ter sem saber nada valem. Este tripé, tal como o outro, o da Liberdade, Igualdade e Fraternidade não podem sofrer amputações; infelizmente é o que mais tem acontecido.CLV

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