“A CAÇA AO HOMEM” por Luísa Lobão Moniz

olhem para  mim

A TVi está a dar um curso, com aulas todos dias, sobre “A Arte de Bem Caçar”.

Todos os dias aprendemos algo, e a história é simples: há um homem que é o principal suspeito da morte de duas pessoas e de tentativa de homicídio de outras duas.

O homem era querido por todos os que o conheciam.

Não é pobre nem analfabeto nem tinha comportamentos violentos com a mulher (segundo dizem).

 Após 10 anos na justiça conseguiu ter a guarda parental da filha.

E mais não sabemos a não ser que anda desaparecido por montes e vales e por casas abandonadas de onde tira cobertores e deixa calças com sangue.

Todos os dias o sumário da aula é “A caça ao homem”.

Como aluna não muito assídua, mas não em abandono escolar, tento perceber porque se emprega o verbo “caçar”.

Caçar pressupõe perseguição de animais para os prender ou para os matar, ou ainda, como diversão.

No fim de cada pseudo aula o jornalista promete que a próxima aula trará mais surpresas. Fiquem atentos no Telejornal.

Está o país inteiro a dar sugestões de como encontrar o homem, há declarações das várias polícias, há comentadores, psicólogos a dizer que se calhar ele é um psicopata. E logo se debitam as características de um psicopata, e os alunos dizem “se calhar é mesmo”.

Já lá vai uma semana e ainda ninguém pensou nas crianças que assistem em directo a “Caça ao Homem”

Vivemos a violência, ou as violências, das sociedades transmitida em directo pela televisão…

A maneira como este caso está a ser tratado, por algumas estações de televisão, está a contribuir para uma cultura de violência, não só por se estar sempre a falar destes casos violentos como pelo vocabulário que é empregue.

Tem sido tudo explicado sobre as tentativas de apanhar o tal possível assassino: a maneira como vão equipados e para onde se dirigem.

 Esta é uma boa aula para potenciais criminosos.

Se fosse uma perseguição talvez o homem já estivesse a responder perante um juiz, mas como é uma caça não há falta de lugares onde se possa esconder.

De tantos pormenores terem sido dados ao conhecimento público, não me espantaria que daqui a uns dias já toda a gente comece a opinar sobre as fraquezas das nossas polícias e começar a simpatizar com o “homem” que até consegue enganar tanta polícia.

“A caça ao homem” deve rever a matéria dada e tirar as conclusões sobre o efeito gerado pela repetição da mesma notícia, dia e noite.

Muitos potenciais marginais estarão a fazer os seus apontamentos para ter um Bom no próximo trabalho.

Muitas crianças aprendem que há violência boa, a dos polícias.

A violência sairá reforçada.

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