CARTA DO RIO – 124 por Rachel Gutiérrez

riojaneiro2

Infelizmente, preciso voltar ao assunto da violência contra as mulheres. Na última semana, mais estatísticas vieram a público para confirmar o terror, sim, o terror da realidade que outras revelações parecem escamotear, como, por exemplo, as de matérias televisivas, paradoxalmente alentadoras, sobre o comportamento das brasileiras diante da crise.

De acordo com essas reportagens, nossas mulheres estão conseguindo sobreviver melhor do que a maioria dos homens. São as criadoras de micro e pequenas empresas. Segundo dados de uma pesquisa, o Brasil conta hoje com um contingente de mais de 5,7 milhões de mulheres empreendedoras, “o que significa, aproximadamente, 8% da população feminina”. E apesar dos números não serem extraordinários, os pesquisadores levam em consideração que “vivemos em um país latino, com uma cultura ainda muito carregada de preconceitos, onde o empreendedorismo feminino não era visto com bons olhos até bem pouco tempo”.

E mesmo nas classes menos favorecidas, mulheres começam a trabalhar em casa, produzindo alimentos para vender, o que não raro dá início a pequenos negócios capazes de manter e incrementar o sustento da família. Aliás, no que se refere à família, é preciso lembrar que quase 40 % das famílias brasileiras são sustentadas e geridas por mulheres. Segundo o jornal A Folha, de São Paulo, “no intervalo de um ano, 1,4 milhão de mulheres passaram a exercer a função de chefes de suas famílias no país.”

Isso não acontece apenas no Brasil. Antes de falarmos na violência, e para tentar compreendê-la, precisamos lembrar a discriminação que as mulheres sofrem no mundo inteiro, por exemplo, na área do trabalho. Se incluirmos as africanas, chegaremos a números estarrecedores: 70 % do trabalho do mundo é realizado por mulheres, mas apenas 1 % delas são proprietárias !  “Não há uma relação direta entre renda per capita e participação feminina na força de trabalho.” Ao contrário, por mais que elas se esforcem, a discriminação perversa subsiste.

Nem sequer nos esportes as mulheres são tratadas com igualdade: nos EUA, onde o salário delas equivale a 78% do obtido pelos homens, “a discrepância acontece até onde elas têm muito mais sucesso, como no futebol.” E, em nosso país:

Levantamento com as semifinalistas do Brasileiro de 2015 mostrou que  o salário médio era de R$ 1.800, o que muitos jogadores dos melhores clubes do país ganham em algumas horas.

Para apoiar a seleção feminina, a CBF criou uma ajuda de custo, de R$ 9 mil, uma migalha quando comparada com o salário dos jogadores da seleção masculina.

Passemos, então, à triste questão da violência e suas aterrorizantes estatísticas: a cada hora, 5 mulheres são assassinadas e a cada 11 minutos, uma mulher é estuprada no Brasil. Além disso, o homicídio de mulheres negras aumentou 54% em dez anos. E para além de todas as inúmeras ocorrências que o medo, ou a vergonha das vítimas as impedem de registrar, temos a cada 7 minutos, uma denúncia de violência contra a mulher.

Tenho insistido muito na necessidade da educação sexual nas escolas, com ênfase nos direitos humanos e no respeito às diferenças. E, como diria Mathieu Ricard, o monge budista assessor do Dalai Lama, com ênfase muito especial também no aprendizado da Compaixão. Precisamos, além disso,  estudar e ensinar História, pois a História nos ensina que continuamos no regime patriarcal, cuja origem remonta à Idade do Bronze (ou, na Grécia, ao fim da civilização minoica ou cretense, a que pretendo retornar mais adiante), e se caracteriza pela dominação do homem “em funções de liderança política, autoridade moral, privilégio social e controle das propriedades”, como diz o Google. E, “no domínio da família, o pai (ou figura paterna) mantém a autoridade sobre as mulheres e as crianças.”

Ora, sabemos que a família moderna evoluiu e muito se tem transformado, e que a autoridade exclusivamente masculina tornou-se obsoleta ou, no mínimo, questionável desde que a mulher, do século XX para cá, vem deixando de ser considerada cidadã de segunda classe. No âmbito da família, tanto o pai quanto a mãe são hoje autoridades. No que tange a escolaridade, sabemos que as mulheres superaram os homens e  já vimos que elas são, em grande número, chefes de família e trabalhadoras responsáveis.

Contudo, vivemos ainda numa cultura de dominação masculina, anacronicamente patriarcal, sexista, machista.

Tudo se passa como se os homens – sobretudo os machistas – não aceitassem a emancipação das mulheres, sua autonomia e sua liberdade. E vemos multiplicarem-se os casos de assassinatos das que simplesmente quiseram terminar um namoro ou um relacionamento, ou que optaram, sendo casadas, pela separação ou pelo divórcio.  Os homens, inconformados, passam a maltratá-las, a persegui-las e, como vimos, a cada hora, cinco deles chegam a assassiná-las. Como se elas – seres humanos, iguais a eles – não tivessem direito à escolha, como se deles fossem propriedades, objetos, coisas.

E há também a tragédia do estupro, experiência traumática da qual mulher alguma totalmente se refaz ou esquece. Acontece um a cada 11 minutos!

E há ainda a violência doméstica, difícil de computar porque em geral ocorre entre quatro paredes, na intimidade das casas. E são centenas, são milhares de mulheres que sofrem todo tipo de agressão, inclusive as psicológicas e subliminares, que não disfarçam o desdém ou desprezo que lhes dá a ideologia machista dominante.

 friso-das-mulheres-azuis-no-palacio-de-cnossos

Remontemos à remotíssima Creta. Já citei aqui Riane Eisler, autora de O Cálice e a Espada, “o livro mais importante desde A Origem das Espécies, de Darwin”, segundo antropólogos e historiadores norte-americanos.

Após extensas pesquisas e consultas com paleontólogos, arqueólogos e antropólogos, Riane Eisler menciona “um traço notável da sociedade cretense, […] que a distingue radicalmente de outras antigas civilizações desenvolvidas [e] é a aparente divisão justa da riqueza.” Segundo Eisler e seus colegas, a civilização cretense não configurou, como se acreditava, um tipo de matriarcado, com dominação autoritária da mulher sobre os homens e as crianças, mas uma civilização culturalmente adiantada e pacífica.

1-venuswillendorf

Naquela sociedade que adorava uma figura divina feminina, “a totalidade da vida era impregnada por ardorosa fé na Deusa Natureza, fonte de toda criação e harmonia.” E Eisler acrescenta: “Em Creta, pela última vez na história registrada, um espírito de harmonia entre mulheres e homens, como participantes iguais e alegres na vida, parece difundido, Este espírito parece brilhar na tradição artística cretense, tradição esta que, (…) é excepcional em seu prazer com a beleza, a graça e o movimento” (…) Ali a centralização não acarretou a norma autocrática… não há indicação de que ela fosse sustentada por forte poder armado.”

Até o fim da civilização cretense, Afrodite foi a deusa do amor. Citando agora a mim mesma, no livro Mulheres/A Violência Continua :

 “…na era clássica, ‘o sexo e o amor foram incorporados numa divindade masculina armada’ – Eros ou Cupido, que aparece com uma espada ou uma flecha. Em seus estudos multidisciplinares da História e dos mitos, Riane Eisler aponta a coincidência entre esse acontecimento da esfera mitológica e a nova estrutura da sociedade em que ‘o princípio primordial de sua organização é o medo e/ou a força.’ Alguns historiadores (homens) interpretam a dominação masculina, o espírito guerreiro, a verticalidade autoritária e a escravidão como ‘consequências inevitáveis ‘ de uma ‘maior complexidade cultural e tecnológica’, ou como ‘o preço do progresso’, ou ainda como uma qualidade inerente ao processo civilizatório. Ora, já existem  antropólogos e paleontólogos , homens e mulheres com suficiente isenção e liberdade imaginativa para entender que ao progresso material da falocracia correspondeu um fracasso e uma grande perda espiritual e emocional para a humanidade.”

Oxalá algum dia possamos reencontrar a sensibilidade e a espiritualidade que há tantos séculos perdemos.

 

Leave a Reply