NO INTERIOR DO GOVERNO INVISÍVEL: GUERRA, PROPAGANDA, CLINTON E TRUMP – por JOHN PILGER.

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

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No interior do governo invisível: guerra, propaganda, Clinton e Trump

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 John Pilger, INSIDE THE INVISIBLE GOVERNMENT: WAR, PROPAGANDA, CLINTON & TRUMP

johnpilger.com, 27 de Outubro de 2016

 

Fonte: Le Grand Soir, John Pilger, 28-10-2016

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John PILGER

 

O jornalista americano, Edward Bernays, é frequentemente apresentado como o inventor da propaganda moderna.

Sobrinho de Sigmund Freud, o pioneiro da psicanálise, Bernays inventou o termo “relações públicas” como um eufemismo para designar as manipulações e os enganos.

Em 1929, persuadiu as feministas a promoverem os cigarros junto das mulheres fumando aquando de um desfile em Nova Iorque – um comportamento considerado à época como absurdo. Uma feminista, Ruth Booth, declarou, “Mulheres! Acendam uma nova tocha da liberdade! Lutem contra um outro tabu sexista!”

A influência de Bernays estendia-se bem para além da publicidade. O seu mais importante sucesso foi convencer o público americano a juntar-se à grande chacina da Primeira Guerra mundial. O segredo, dizia, era “fabricar o consentimento” das pessoas a fim de “as controlar e orientar de acordo com a nossa vontade e sem que disso se apercebam”.

Descrevia isso como “o verdadeiro poder de decisão na nossa sociedade” e chamava-lhe “o governo invisível”.

Hoje, o governo invisível nunca foi tão poderoso e tão pouco entendido enquanto tal. Em toda a minha carreira de jornalista e de cineasta, nunca conheci propaganda tão influente sobre as nossas vidas como a que reina hoje, e que seja tão pouco contestada.

Imaginem duas cidades. As duas estão em estado de sítio, cercadas  pelas forças governamentais destes países. As duas cidades estão ocupadas por fanáticos, que cometem atrocidades, como a decapitação.

Mas há uma diferença essencial. Numa das duas cidades, os jornalistas ocidentais embarcados com os soldados governamentais descrevem estes últimos como libertadores e anunciam com entusiasmo as suas batalhas e os seus ataques aéreos. Há fotografias na primeira página com estes soldados heroicos que fazem o V da vitória. Muito pouco se diz sobre as vítimas civis.

Na segunda cidade – num país vizinho – passa-se quase exatamente a mesma coisa. As forças governamentais sitiam uma cidade controlada por gente da mesma laia, ou seja fanáticos.

A diferença é que estes fanáticos são agora apoiados, equipados e armados “por nós” – pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha. Têm mesmo um centro de meios de comunicação social financiado pela Grã-Bretanha e pelos Estados Unidos.

Uma outra diferença é que os soldados governamentais que sitiam esta cidade são os maus, condenados por terem atacado e bombardeado a cidade – que é exatamente o que os bons soldados fazem na primeira cidade.

Desorientador? Não, verdadeiramente. Tal é duplo padrão básico que é mesmo a essência da propaganda. Falo, certamente, do cerco atual à cidade de Mossoul pelas forças governamentais iraquianas, apoiadas pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha e falo do cerco à cidade de Alepo pelas forças governamentais da Síria, apoiadas pela Rússia. Um é bom; o outro é mau.

O que raramente é assinalado é que as duas cidades não estariam ocupadas por fanáticos e devastadas pela guerra se a Grã-Bretanha e os Estados Unidos não tivessem invadido o Iraque em 2003. Esta invasão criminosa foi lançada com base em mentiras espantosamente semelhantes à propaganda que deforma agora a nossa compreensão da guerra na Síria.

Sem este bater de tambores da propaganda disfarçado em informações, o monstruoso Daesh, Al-Qaida, al-Nusra e tudo o resto destas bandas de djihadistas poderia não existir, e o povo sírio não estaria em vias de se bater pela sua própria  sobrevivência.

Alguns recordar-se-ão talvez de todos estes jornalistas da BBC que em 2003 desfilavam na frente das câmaras para nos explicarem que a iniciativa de Blair “era justificada” para combater o que se poderia tornar o crime do século. As cadeias de televisão dos EUA forneciam as mesmas justificações para George W. Bush. Fox-News convidou Henry Kissinger para dissertar sobre as mentiras de Colin Powell.

No mesmo ano,  imediatamente depois da invasão, filmei uma entrevista em Washington com Charles Lewis, célebre jornalista de investigação. Perguntei-lhe, “o que se teria passado se os meios de comunicação social mais livres do mundo tivessem seriamente posto em questão o que se confirmou ser uma propaganda grosseira?”

Respondeu a isto dizendo que se os jornalistas tivessem feito o seu trabalho, “há muito fortes possibilidades de que não teríamos entrado em guerra contra o Iraque.”

Foi uma declaração chocante, e confirmada por outros jornalistas famosos a quem pus a mesma pergunta – Dan Rather de CBS, David Rose de Observer e jornalistas e produtores da BBC, que desejavam permanecer anónimos.

Por outras palavras, se os jornalistas tivessem feito o seu trabalho, se tivessem contestado e tivessem inquirido sobre a propaganda em vez a amplificarem, centenas de milhares de homens, mulheres e crianças estariam ainda hoje com  vida, e não haveria Daesh e nenhum cerco a Alepo ou a  Mossoul.

Não teria havido nenhuma atrocidade no metro de Londres a 7 de julho de 2005. Não teria havido nenhuma fuga de milhões de refugiados; não haveria campos miseráveis.

Quando a atrocidade terrorista teve lugar em Paris, no mês de novembro passado, o presidente François Hollande imediatamente mandou aviões para bombardear a Síria – e mais terrorismo se lhe seguiu, de maneira previsível, produzido pela grandiloquência de Hollande sobre a França “em guerra” e “não mostrando nenhuma piedade”. Que a violência do Estado e a violência djihadista se alimentam mutuamente é uma realidade que nenhum líder nacional tem a coragem de abordar.

“Quando a verdade é substituída pelo silêncio”, declarou o dissidente soviético Yevtushenko, “o silêncio torna-se uma mentira”.

O ataque contra o Iraque, o ataque contra a Líbia, o ataque contra a Síria tiveram lugar porque os líderes de cada um destes países não eram marionetes do Ocidente. O balanço em matéria de direitos do homem de um Saddam ou um Kadhafi está fora de propósito. Desobedeceram às ordens e não abandonaram o controlo dos seus países.

O mesmo destino esperava Slobodan Milosevic uma vez que se tinha recusado a assinar “um acordo” que exigia a ocupação da Sérvia e a sua conversão a uma economia de mercado. O seu povo foi bombardeado  e ele foi prosseguido no Tribunal Internacional de Haia. Uma tal independência é intolerável.

Como  WikiLeaks revelou, foi apenas quando o líder sírio Bashar al-Assad rejeitou em 2009 um projeto de oleoduto que devia atravessar o seu país proveniente do Catar para a Europa, que ele foi atacado.

A partir deste momento, a CIA previu destruir o governo da Síria com os fanáticos jihadistas – os mesmos fanáticos que têm atualmente como reféns os habitantes de Mossoul e os do  bairros de Alepo.

Porque é que os meios de comunicação social não falam disto? O antigo funcionário do Ministério dos Negócios estrangeiros britânico, Carne Ross, que era responsável das sanções operacionais contra o Iraque, disse-me: “ fornecíamos aos jornalistas fragmentos de informações cuidadosamente escolhidos, ou mantenhamo-los à distância. Aí está como isto funcionava.”.

O aliado medieval do Ocidente, a Arábia Saudita – ao qual os Estados Unidos e a Grã-Bretanha vendem milhares de milhões de dólares de armamento – está neste momento a destruir o Iémen, um país tão pobre, tão pobre que, no melhor dos casos, metade das crianças sofrem de desnutrição.

Procurem no YouTube e verá o tipo de bombas massivas – “as nossas” bombas – que os Sauditas utilizam contra aldeias de terra batida, e contra os casamentos e os funerais.

As explosões assemelham-se a  pequenas bombas atómicas. Os que pilotam estas bombas desde a Arábia Saudita trabalham lado a lado com os oficiais britânicos. Não ouvem seguramente falar disso nos telejornais da noite.

A propaganda é mais eficaz quando o nosso consentimento é fabricado pela elite educada – Oxford, Cambridge, Harvard, a Colúmbia – que fazem carreira na BBC, no Guardian, New York Times ou  no Washington Post.

Estes meios de comunicação social são considerados por serem progressistas. Apresentam-se como pessoas esclarecidas, com tribunas progressistas da moral ambiente. São antirracistas, pró-feministas e pró-LGBT.

E adoram a guerra.

Ao mesmo tempo que defendem o feminismo, apoiam as guerras de rapina que negam os direitos de inúmeras mulheres, entre os quais o direito à vida.

Em 2011, a Líbia, um Estado moderno, foi destruída sob pretexto que Mouammar Kadhafi estava em vias de cometer um genocídio contra o seu próprio povo. A informação girava em círculo mas não havia nenhuma prova. Era uma mentira.

Na realidade, a Grã-Bretanha, a Europa e os Estados Unidos queriam o  que eles gostam de chamar  “uma mudança de regime” na Líbia, o maior produtor de petróleo em África. A influência de Kadhafi sobre o continente e, sobretudo, a sua independência era intolerável.

Por conseguinte foi assassinado com uma faca pelas costas  e sodomizado publicamente por fanáticos, apoiados pelos Estados Unidos, pela Grã-Bretanha e pela França. Em frente de uma câmara, Hillary Clinton aplaudiu a sua morte horrível declarando, “nós viemos, nós vimos, ele morreu!”

A destruição da Líbia foi um triunfo mediático. Enquanto se batiam os tambores de guerra, Jonathan Freedland escrevia no Guardian: “Embora os riscos sejam bem reais, o risco de uma intervenção permanece forte.”

Intervenção. Uma palavra polida, benigna, muito à  “Guardian”, em que o significado real, para a Líbia, foi a morte e a destruição.

De acordo com os seus próprios dossiers, a NATO lançou 9.700 “bombardeamentos aéreos” contra a Líbia, em que mais de um terço eram destinado a alvos civis. Incluíam mísseis com ogivas de urânio. Reparem bem nas fotografias dos escombros em Misurata e em Syrte, e as fossas comuns identificadas pela Cruz Vermelha. O relatório da UNICEF sobre as crianças mortas diz que “a maior parte [de entre elas] tinha menos de dez anos.” Como consequência direta, Syrte tornou-se a capital do Estado Islâmico.

A Ucrânia é outro triunfo mediático. Jornais liberais respeitáveis como New York Times, Washington Post e o Guardian, e os difusores tradicionais como a BBC, NBC, CBS e NC desempenharam um papel crucial no acondicionamento dos seus telespectadores para aceitarem uma nova e perigosa guerra fria.

Todos deformaram os acontecimentos na Ucrânia para fazer do que se terá passado um ato maléfico da Rússia, enquanto realmente, o golpe de Estado na Ucrânia em 2014 foi o trabalho dos Estados Unidos, ajudados pela Alemanha e pela NATO.

Esta inversão da realidade está de tal modo omnipresente que as ameaças militares de Washington para com a Rússia passaram sob silêncio; tudo é ocultado por uma campanha de desonra e de medo como o que conheci durante a primeira guerra fria. Uma vez mais, os Russkoffs vêm catar-nos os piolhos, dirigidos por um novo Staline, que The Economist descreve como o diabo.

A ocultação da verdade sobre a Ucrânia é uma das operações de censura mais completas que jamais vi.  Os fascistas que conceberam o golpe de Estado em Kiev, são da mesma têmpera que os que apoiaram a invasão nazi da União soviética em 1941. Enquanto que se espalham os temores de uma subida do antissemitismo fascista na Europa, nenhum líder menciona os fascistas na Ucrânia – exceto Vladimir Putin, mas esse não conta.

Muitos dos meios de comunicação social ocidentais trabalharam duramente para apresentar a população etnicamente russófona da Ucrânia como estrangeiros no seu próprio país, como agentes de Moscovo, quase nunca como Ucranianos que procuram uma federação na Ucrânia e, como cidadãos ucranianos que se opõem  a um golpe de Estado organizado a partir do  estrangeiro contra o seu governo eleito.

Entre os belicistas reina praticamente o mesmo estado de excitação que quando de uma reunião de classe. Os batedores dos tambores do Washington Post que incitam à guerra contra a Rússia são os mesmos que publicavam as mentiras sobre as armas de destruições massiva de Saddam Hussein.

Para a maior parte de nós todos, a campanha presidencial EUA é um espetáculo de monstros, onde Donald Trump tem o papel do grande maldoso. Mas Trump é odiado pelos que detêm o poder aos Estados Unidos por razões que têm pouco a ver com o seu comportamento odioso e as suas opiniões. Para o governo invisível de Washington, o imprevisível Trump é um obstáculo ao projeto da América para o século XXI que é o de manter a dominação dos Estados Unidos e se submeter ao seu poder a Rússia e, se possível, a China.

Para os militaristas em Washington, o verdadeiro problema com Trump é que, nos seus momentos de lucidez, este não parece querer uma guerra com a Rússia; quer falar com o presidente russo, não combatê-lo; diz que quer falar com o presidente da China.

No primeiro debate com Hillary Clinton, Trump prometeu não ser o primeiro a utilizar as armas nucleares num conflito. Disse: “Não quereria certamente lançar a primeira bomba. Uma vez a opção nuclear tomada, acabou-se.” Os meios de comunicação social não falaram disso, sequer.

Pensava-o realmente? Quem sabe? Contradiz-se frequentemente. Mas o que é claro, é que Trump é considerado como uma grave ameaça para o status quo mantido pelo vasto aparelho de segurança nacional que opera nos Estados Unidos, independentemente do ocupante da Casa Branca.

A CIA quer vê-lo batido. O Pentágono quer vê-lo batido. Os meios de comunicação social querem vê-lo batido. Mesmo o seu próprio partido quer vê-lo batido. Representa uma ameaça para os líderes do mundo – contrariamente a Clinton, que não deixou nenhuma dúvida que estava pronta para ir em guerra contra a Rússia e a China, dois países que possuem armas nucleares.

Clinton tem a forma, como ela se orgulha frequentemente. Com efeito, não tem mais nada a provar. Como senadora, apoiou o banho de sangue no Iraque. Quando se apresentou contra Obama em 2008, ameaçou “destruir totalmente o Irão”. Como Secretária de Estado, conspirou pela destruição dos governos da Líbia e das Honduras e encetou as provocações contra a China.

Prometeu apoiar a criação de uma zona de exclusão aérea na Síria – uma provocação direta de uma guerra com a Rússia. Na minha opinião, Clinton poderia bem tornar-se o presidente mais perigoso dos Estados Unidos – um título para o qual a concorrência é forte e dura.

Sem a mais pequena prova, acusou a Rússia de apoiar Trump e de ter pirateado os seus correios eletrónicos. Publicados por WikiLeaks, estes correios eletrónicos revelam-nos o que diz Clinton em privado, o que diz nos seus discursos ao ricos e aos poderosos, ou seja o contrário do que diz em público.

Aí está porque é assim importante fazer calar e ameaçar Julian Assange. Como líder de WikiLeaks, Julian Assange conhece a verdade. E permite tranquilizar todos os que são preocupados, ele está bem, e WikiLeaks trabalha em pleno regime.

Hoje, a maior concentração de forças dirigidas pelos Estados Unidos desde a Segunda Guerra mundial está a caminho – no Cáucaso e na Europa oriental, na fronteira com a Rússia, e na Ásia e no Pacífico, onde a China é o alvo.

Lembrem-se bem quando o circo da eleição presidencial atingir o seu apogeu a 8 de Novembro, se Clinton ganhar, um coro dos comentadores estouvados celebrará a sua coroação como um grande passo em frente para as mulheres. Nenhum deles mencionará as vítimas de Clinton: as mulheres sírias, as mulheres iraquianas, as mulheres líbias. Nenhum mencionará os exercícios de defesa civil efetuados na Rússia. Nenhum recordará “as tochas da liberdade” de Edward Bernays.

Um dia, o porta-voz encarregado das relações com a imprensa de George Bush qualificou os meios de comunicação social “de facilitadores cúmplices”.

Vindo de um alto funcionário de uma administração cujas mentiras, permitidas pelos meios de comunicação social, provocam tantos sofrimentos, esta descrição é uma advertência da história.

Em 1946, o procurador do Tribunal de Nuremberga declarou a respeito dos meios de comunicação social alemães: “Antes de cada grande agressão, lançavam uma campanha de imprensa calculada para enfraquecer as suas vítimas e para preparar psicologicamente o povo alemão para um ataque. No sistema de propaganda, a imprensa diária e a rádio eram as armas mais importantes.”

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John Pilger, A l’intérieur du gouvernement invisible : Guerre, Propagande, Clinton & Trump,  editado por  Le Grand Soir, John Pilger, 28-10-2016. Texto disponível em:

http://www.legrandsoir.info/a-l-interieur-du-gouvernement-invisible-guerre-propagande-clinton-trump.html

E igualmente em:

https://www.les-crises.fr/a-linterieur-du-gouvernement-invisible-guerre-propagande-clinton-trump-par-john-pilger/

 

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