Todos nós precisamos de ideais, de incentivos, de motivações, de conforto social e pessoal para vivermos dando conta da nossa generosidade, do nosso saber, da nossa crença nas democracias, da bondade humana, da nossa capacidade de mudança, de fazer a diferença.
Onde os vamos encontrar?
Muitos nem se quer vão à procura deles nem constroem outros. São pessoas que navegam sozinhas neste mar revolto pronto a afundar quem nele flutua.
Por vezes as motivações vêm da realidade que nos rodeia e que se cola a nós, ora mascarando-se para que não abanemos a paz social, ora gritando bem alto nos nossos ouvidos: quem me pode ajudar?
É difícil viver com outros procurando, ao mesmo tempo perceber de que matéria somos feitos.
Temos mãos para o afecto ou para os castigos? O outro portou-se sem respeito pelas regras sociais, o que fazer? Arranjar uma prisão ou uma pulseira electrónica? Já tantos e tantos milhares de pessoas passaram nas nossas prisões, saíram e entraram e voltaram a entrar, e qual foi o trabalho personalizado que foi feito com eles?
A sociedade não se pode reger entre o não respeito pelas regras sociais e o castigo prisional. O castigo passa e o não respeito pelos outros continua.
Homens com 27 anos mataram a namorada e tiveram como pena 25 anos de efectiva prisão. Fazendo as contas quando ele sair tem 52 anos e certamente vai encontrar mais uma namorada a quem potencialmente poderá fazer o mesmo.
Porque matou a namorada? Porque não consegue lidar com o não, não quero viver mais contigo!
Durante 25 anos de cadeia o que pensou, que trabalho de acompanhamento foi feito com os profissionais de saúde, que trabalho foi feito com a família?
Porque se prende alguém? Para a castigar do delito cometido. Qual foi o delito? O que fez despoletar esse comportamento? Mais do que construir mais cadeias é preciso construir espaços e formar pessoas para acompanhar os detidos, para acompanhar as famílias que o irão receber, a sociedade que terá que lidar com ele. Durante os 25 anos anda tudo calmo porque ele está preso, e depois?
Todas estas pessoas têm um mundo afectivo (?) que é preciso conhecer, têm um percurso de vida social, profissional (ou não) que desconhecemos, são afáveis e simpáticos com quem os rodeia, mas de repente fazem um alvoroço social porque mataram ou agrediram alguém! Como é possível? Como crescem estas pessoas em termos de afectos e de facilidades, de sucesso, de auto estima, de auto confiança.
Há tanto caminho a percorrer para percebermos como funcionam os nossos sentimentos, comportamentos…
Como foi possível a vitória de Trump, como foi possível o comportamento de Pedro Dias? Como é possível pegar em armas e abater tudo e todos os que estão num determinado local? Porque se tem necessidade de seguir um líder, que tanto pode ser uma pessoa, uma ideia, um desconforto pessoal ou social? É preciso matar? Insultar? Considerar-se o melhor?