CARTA DO RIO – 125 por Rachel Gutiérrez

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Recebo mais uma visita de minha pequena amiga Esperança, a que pula fora do poema de Péguy, onde está definida como “uma menininha de nada que nos diz Bom Dia todas as manhãs.”

Ela está triste e assustada, não só com as notícias que abordei na semana passada, sobre a violência contra as mulheres, e com a vitória recente de Donald Trump nos Estados Unidos, mas também por causa de  uma notícia que, como eu, ela viu passar muito rapidamente nas TVs e que muito nos chocou: trata-se de um ataque de terroristas islâmicos, que mataram vários místicos Sufis, enquanto eles praticavam a dança dos dervixes não sei bem em que longínqua região da Ásia.

Nada mais conseguimos apurar sobre tão aberrante ocorrência, que minha sensível amiguinha comparou com a aparição de uma besta diabólica que tivesse entrado na igreja onde São Francisco dançava diante do altar de Nossa Senhora para assassiná-lo brutalmente.  Sim, porque os Sufis, que pertencem a uma irmandade antiquíssima, mais filosófica do que religiosa, impecavelmente pacífica, cultivam acima de tudo a tolerância e, de modo especial, a alegria. Poderíamos até mesmo chamar os dervixes de “saltimbancos de Deus ou do Universo”, porque eles dançam um balé celeste, cuja coreografia evoca os movimentos dos astros do céu, com seus duplos giros: rotação e translação. Fazem isso para alcançar um estado alterado de consciência, transe ou êxtase, em que o iniciado obtém o conhecimento subjetivo da Divindade. 

Há alguns anos, frequentei um pequeno grupo de estudiosos do Sufismo, no Rio de Janeiro, e pude constatar que de fato não se trata de  uma religião, mas, de uma espécie de pesquisa  sobre o conhecimento existente em todas as religiões. A busca da mais abrangente transcendência do espírito religioso, sua base esotérica. Por isso, seus praticantes… aceitam ler os textos sagrados de qualquer religião do passado que considerem verdadeira. Assim, os Sufis constituem um grupo de estudiosos, que não têm ritual ou dogma, cuja tradição remonta a uma época bem anterior à de Cristo.

Não preciso dizer que Esperança se considera uma Sufi e que, como eles cultiva, acima de tudo, a Harmonia, o Amor e a Beleza. E é claro que não se conforma com o assassinato dos Sufis “que nunca fizeram mal a ninguém!”

Outra dificuldade sua consiste em entender como é que continua a existir, no país norte-americano, considerado modelo de democracia, uma seita virulentamente racista como a KU KLUX KLAN, que acabou de anunciar, para os próximos dias, uma manifestação de apoio ao presidente eleito Donald Trump.

E Esperança quis saber detalhes sobre  a KU KLUX KLAN. Fizemos juntas, por isso, uma pequena pesquisa no Google, segundo o qual:

 A Ku Klux Klan (também conhecida como KKK ou simplesmente “o Klan“) é o nome de três movimentos distintos dos Estados Unidos, passados e atuais, que defendem correntes reacionárias extremistas, tais como a supremacia branca, o nacionalismo branco, a anti-imigração e, (…) o anticatolicismo e o antissemitismo, e sempre praticaram terrorismo [contra] grupos ou indivíduos aos quais se opõem. Os três movimentos têm clamado pela “purificação” da sociedade estadunidense e são considerados organizações de extrema-direita.

      O primeiro Klan surgiu no sul dos Estados Unidos no final dos anos 1860 e deixou de existir no início da década de 1870. (…)

O segundo grupo foi fundado em 1915 e começou a atuar em     urbanas do Centro-Oeste Oeste. Opunha-se aos católicos judeus, especialmente aos imigrantes mais recentes, (…). Esta segunda organização adotou um traje branco padrão e usava palavras de código semelhantes como as do primeiro Klan, além de ter adicionado os rituais de queima de cruzes e de desfiles em massa.

       A terceira e atual manifestação da KKK surgiu depois de 1950, sob a forma de grupos pequenos, locais e desconexos que fazem uso do nome KKK. Eles se concentraram na oposição ao movimento dos direitos civis, muitas vezes usando violência e assassinatos para reprimir ativistas. É classificado como um grupo de ódio… e estimou-se ter entre 5.000 e 8.000 membros em 2012. …

A menina logo me pergunta se não vai haver algum tipo de resposta, uma contramanifestação. Afinal, Barack Obama quebrou muitos preconceitos ao se eleger, em 2008, como o primeiro presidente negro do país e do nosso hemisfério. E ela, como eu, é fã de Barack Obama.

Chega a exaltar-se: “Que ingratidão! Os negros, além de tudo que fizeram, trabalhando para os brancos como escravos, deram à cultura dos Estados Unidos o que eles têm de melhor: a sua música – o Jazz !”

Já contei que tenho com a “meninnha de nada” uma relação de amistosa reciprocidade: quando ela me encontra triste, procura me reanimar; quando eu a vejo desalentada e revoltada, como agora, devo me esforçar para estimulá-la a se reencontrar consigo mesma.

Assim, evoquei a bela homenagem, deste 13 de novembro,  prestada em Paris pelo músico de Jazz e de Rock, – Sting – (que é branco e inglês) – às vítimas do atentado na casa noturna Bataclan, onde há um ano exatamente, alegres franceses celebravam a vida quando foram brutalmente assassinados pela insânia terrorista. Ocorreram-me, então, expressões que só a cultura francesa poderia cunhar: la joie de vivrele bonheur de vivre. A alegria de viver e a felicidade de viver, algo que os malfazejos jihadistas não podem compreender nem suportar.

E fiz questão de distrair minha pequena amiga com  um vídeo sobre crianças de ambos os sexos, de 2 a 5 anos que, sentadas em círculo, no chão da sala de aula, fazem um exercício que consiste em se abraçar. Uma primeira criança abraça a que está à sua direita e esta, por sua vez abraça a seguinte, continuando todas assim até fechar o círculo, numa terna e calorosa forma de comunicação.

Comovida, a menina abraçou-me com força e foi embora correndo.

 

 

 

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