INTRODUÇÃO ÀS CANÇÕES DE JOSÉ AFONSO – por ANTÓNIO CABRAL

 

cantares-50-anosJosé Afonso é autor de letras de canções, bem divulgadas em Portugal, cantadas por vezes apaixonadamente pelos jovens, sobretudo pelos estudantes e pelos mais novos ex-estudantes que, mercê dumas tantas circunstâncias, são aqueles que ultimamente vêm sentindo com especial calor alguma temática esboçada nas baladas. Depois de “Cantares”, livro comovente, aparece agora esta nova recolha (“Cantar de Novo”) em que figura a maior parte dos poemas ali publicados e a que se juntam outros, alguns dos quais não destinados (ou destináveis) talvez a interpretação musical. Pergunto: será necessário submeter este livro a uma análise “científica” para o apreciar convenientemente e concluir depois sobre a pobreza ou riqueza dos seus ingredientes artísticos? Nada se lucraria com isso. Em primeiro lugar porque, habituados que estamos a ouvir os poemas na voz do seu autor, dificilmente conseguiríamos situá-los à distância precisa a uma crítica objectiva; depois, porque, embora tal se conseguisse, (consegue-o logo quem os desconhecer) eles não foram escritos para serem lidos, mas ouvidos e, por conseguinte, vêm marcados por um ritmo, constituem-se num modo que oferece resistência a uma simples análise literária.

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Composições como “Balada do Sino”, “Senhor Arcanjo”, “Canção do começo”, “Vai, Maria, vai”, “Chamaram-lhe cigano” oferecem material bastante para longas exposições. Eis alguns pontos mais evidentes:

Em “Balada do Sino” pode falar-se na polissemia bem sugestiva da “barquinha”. É que ela é de Belém, d’Aladim, do marquês, etc. e não é nada disso. É um pretexto musical para criação dum ritmo ondulatório em que sobressai a nota picada das onomatopeias: “Dim Dem, Dão Dim, Dim Dão”. José Mário Branco (“Comércio do Funchal”, 5/4/70) chega a acusar José Afonso de «um certo poetismo, um certo hermetismo das letras». Creio que não tem razão, pois a «canção não deve estar presa à poesia», como ele também diz; embora seja de desejar que o poetismo, ou o poético pelo poético, seja de banir de todos os poemas. Não há poetismo em José Afonso e o hermetismo, se o há, é tão espontâneo como o de certos cantos populares que não se sabe o que querem dizer ou, se se sabe, é porque se vê para além das palavras «uma palavra total, nova, estranha à língua e como que encantatória», para empregar uma expressão de Mallarmé. José Afonso cultiva uma canção de gosto popular e, por isso, as palavras surgem-lhe muitas vezes como num conjuro; trazem consigo um poder mágico, figurando ali simultaneamente como simples ocupantes dum espaço e como presenças abertas à «intuição de sentidos múltiplos» de que fala Roland Barthes. Pois como interpretar os quebrados de redondilha menor de “Senhor Arcanjo” que começam assim: “Senhor arcanjo/ Vamos jantar! Caem os anjos/ Num alguidar.»? Aqui a imaginação e a necessidade rítmica ainda não conseguem estilhaçar a estrutura semântica. O que não acontece na quadra seguinte: «Hibernam tíbias/ Suspiram rãs/ Comem orquídeas/ Nas barbacãs».

Os versos sucedem-se em parataxe e desdobramentos simétricos. O paralelismo frásico é evidente, como na “Canção do começo” e em “Vai, Maria, vai”, onde a anáfora é mais um motivo de marcação rítmica. Por vezes José Afonso não escreve para que o percebam imediatamente: escreve simplesmente, ao embalo da sugestão musical. As palavras aparecem-lhe sem saber como, talhadas para o espaço que vão ocupar no tempo da canção. Estão ali e falam a linguagem sortílega da música – como nas cantigas de amigo, como nos cantos populares de todos os tempos.

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É portanto possível uma análise “científica” da poesia de José Afonso. E o resto que é «imenso», como diria Roland Barthes? Ouçamos o cantor-poeta numa entrevista ao “Comércio do Funchal” (1/6/69): «Se a canção de protesto pretende directa e concretamente atingir uma dada estrutura político-social num dado momento histórico, com referência a factos, indivíduos e lugares, então não sou um cantor de protesto. De resto as minhas canções são predominantemente líricas. Mas elas pretendem opor-se (quer as líricas, quer as intencionais) a padrões de vida, gostos e predilecções vigentes entre nós». Clareza meridiana! Haverá talvez quem desejasse uma declaração mais “social” e “significativa” como a do Padre Fanhais, excelente baladista, ao “Diário de Lisboa” (13/9/69): «A canção é um meio, não deve em si ser considerada um fim, ou corre o risco de tornar-se um narcótico. Se a canção não é o estímulo para passar a uma acção, fica diminuída e então é inútil».

José Afonso, no entanto, é dos que em certa medida consideram a canção um fim – o que está absolutamente certo – embora reconheça que «A palavra morde/ investe/ perfura» e proclame: «Bem cedo/ Há-de o sol queimar», ele que se sente terrivelmente só «neste areal onde não nasce a aurora» e objurgue os que «lambuzam de saliva os maiorais». A poesia e a música não devem ser tratados de economia e de política; podem revelar, podem denunciar, podem ajudar, mas não resolvem. E mesmo quando revelam e denunciam, anté quando antecipam, devem fazê-lo, para serem válidas, dentro do meio que lhes é específico: a comunicação original, isto é, artística. José Afonso toma posição, mas não se esquece de que é sobretudo um artista e, por isso, a sua mensagem é fundamentalmente poética («silêncio dizem as ondas do mar»; «Lá de cima duma montanha acendemos uma fogueira»). Mensagem poética e musical que se situa na linha do Neo-Realismo, que continua a existir, queiram ou não os formalistas e os … “revisionistas”. As canções de José Afonso realizam musicalmente, e a seu modo, os ideais duma das mais válidas correntes artísticas do nosso tempo.

Duas palavras agora sobre o que é isso de balada – palavras necessárias para os leitores menos familiarizados com a morfologia literário-musical. Há ainda quem pense que as canções ou baladas de José Afonso são formas evoluídas do fado de Coimbra. Ora, como diz Luís Góis (“Diário de Lisboa”, 13/9/69), «fado de Coimbra nunca existiu. Existiu sempre, isso sim, um estilo de interpretar próprio de Coimbra! É nesse sentido que em Coimbra se pode localizar uma tradição musical. Tudo o que há e mais válido na actual música portuguesa tem uma raiz em Coimbra». E passo já a palavra a José Afonso: «Designei as minhas primeiras canções por baladas não porque soubesse exactamente o significado desse termo, mas para as dintinguir do fado de Coimbra que comecei por cantar e que, quanto a mim, atingira uma fase de saturação». Fora o Dr. Menano, segundo confessa José Afonso, quem primeiro encontrara o nome de balada para designar a sua primeira composição musical – a “Balada de Outono”. Diz depois (“Comércio do Funchal”, 1/6/69): «Para definirmos “balada” teríamos de recorrer às autoridades que se debruçaram sobre as origens dos cantores vagabundos, plebeus e aristocratas, populares e estudantes, lacaios e clérigos, que na Idade Média interpretavam de uma forma que tornava possível na pessoa do trovador a fusão do canto com o poema, os temas do seu tempo e as preocupações da sua classe».

Baladas ou não, o que José Afonso nos canta comove-nos, agradando-nos. Como diz Manuel Simões, no prefácio de “Cantares” (Nova Realidade), «de tal modo se identifica com as nossas aspirações que nos parece tratar-se de uma voz que sempre nos acompanhou».

Vila Real, Novembro de 1970

(do “prefácio” a José Afonso,“Cantar de Novo”, Tomar, Nova Realidade, 1971).

 

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