O MAPA (A saga do anadel/ 42) – Stultifera Navis – por Carlos Loures

Imagem1 As relações entre Portugal e a Flandres eram boas porque se baseavam não nos ocos princípios e frases bem-sonantes que enchiam os tratados políticos, mas num comezinho interesse comercial, num fluxo de trocas verificado nos dois sentidos. Cerca de meio-século antes (entre 1436 e 1445), o duque de Borgonha, Filipe, o Bom, mandou construir em Bruges um estaleiro naval para fazer face ao esforço de guerra no mar que agora se lhe deparava. Esse estaleiro foi montado e mantido por especialistas portugueses, sobretudo carpinteiros navais. El-rei D. Duarte, fazendo tábua rasa do Tratado de Windsor, que o impedia de prestar auxílio militar a potências terceiras sem o conhecimento de Inglaterra – e não esqueçamos que a Flandres era tributária e aliada da França, inimiga na terra e no mar de Inglaterra – enviou para a Flandres cerca de cem especialistas em construção naval, na sua maioria mestres portugueses (carpinteiros, calafates, petintais, etc.). Ali construíram uma galé e algumas caravelas de diversas tonelagens. A ajuda portuguesa permitiu ainda construir diversos navios em Bruxelas e Antuérpia.

Tinha-vos prometido voltar à Stultifera Navis, o poema de Sebastian Brant, que li na versão latina, pois de germano nada sei. Fala-nos de uma tradição da terça-feira de Carnaval, no alto e baixo Reno. Num extenso poema, Brant faz embarcar todos os loucos do fantástico país da Cocanha, quer dizer, da abundância, numa nave que atravessa a Narragonien (Mattagonia), ou seja, o «reino da loucura». Os passageiros representam todos os estados – clérigos, nobres, mercadores, poetas, camponeses e oficiais mecânicos. A cada louco é dedicado um capítulo do poema o qual, além do prefácio e do epílogo, tem cento e doze capítulos. Brant não de se esquece de si mesmo, referindo-se aos seus méritos e defeitos no prólogo, no primeiro e nos dois últimos capítulos – «O Louco dos Livros» e «Dos Livros Inúteis», falando dos loucos que, como ele (e como eu? como vós?) gente que ama a sua livraria acima das aquisições culturais que ela lhes pode oferecer, transformando-se em coleccionadores de livros, mas, nem por isso, em homens mais sábios. Outros tópicos interessantes são, por exemplo, «A Apologia do Poeta» e «O Homem Sábio e Prudente», em que faz sobretudo o elogio de Sócrates.

Em cada um dos capítulos a obra espelha um vício humano personificado num louco – o louco da moda, o da avareza, o da discórdia, o da luxúria, o da gula, o da inveja, etc. Sobre todos, predomina a tutelar figura de Frau Venere (Vénus), sendo claro que esta enumeração de loucos se apresenta como um travestimento literário dos cortejos carnavalescos característicos da Renânia, em que jovens mascarados, agrupados em torno de Frau Venere, representavam a caricatura de corporações e profissões. Estes cortejos terão dado depois origem aos Fastnachispiele, («espectáculos pré-quaresmais»). Das Narrenschyff é sobretudo um poema moralista e, como tal, nele abundam sentenças bíblicas, aforismos populares alemães portadores da sabedoria conceptual da Idade Velha. Por outro lado, representa-se nas suas páginas uma viva angústia pela trágica situação da Igreja, onde sopravam já os ventos de divisão que desaguaram naquilo que hoje sabemos, e pela inevitável desagregação do Sacro-Império, ameaçado já naquela altura por poderosos inimigos internos e externos. Na verdade, a Nave dos Loucos de Brant, era uma mística barca representando a Civitas christiana à deriva num mar de loucura e de inovações sacrílegas portadas por esta nova idade renascida a partir das cinzas da Grécia e de Roma. Pela mesma época, o grande pintor brabantino Hieronymus Bosch criava o seu Barco ou Nave dos Loucos, também antes do final da era de Quatrocentos, pintura claramente inspirada pelo poema de Sebastian Brant. Como se vê, ao mesmo tempo que as naves sulcavam os mares e oceanos, percorriam também as mentes dos criadores.

 O nosso Gil Vicente, anos depois, escrevia os seus autos das Barcas, obra composta também por textos de moralidade. Cito três exemplos de como a imagética náutica, simbolizando com as navegações um mundo que os filósofos e artistas consideravam louco, invadira as mentes na passagem entre as duas idades. Podia referir muitas mais, incluindo algumas imitações do poema de Brant. Como disse, os autos das Barcas, criados por Gil Vicente cerca de duas décadas após o poema de Brant, e, quanto a mim, revelando uma estética mais rica e ousada, bem como a tal eloquente pintura do grande Bosch de que vos falei, reflectem igualmente em alegorias aos desmandos que o advento de uma sociedade nova transportava nos seus porões, misturadas com as sinistras ratazanas portadoras de peste. A velha idade morria, morriam uns mitos, outros nasciam, finava-se o poderoso senhor feudal e nascia a figura do príncipe. Atentos, alguns escritores, com júbilo ou com pesar, assinalavam-lhe o óbito. Lourenço, na carraca flamenga vai a caminho de Veneza. Nós, nesta nave de loucos em que o mundo se transformou, aonde iremos aportar?

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