O MAPA (A saga do anadel/44) -«Homens das naus» -por Carlos Loures

O dia nascera já, tingindo o céu de uma forte cor avermelhada. Diziam os antigos que, um tal raiar da manhã, era prenúncio de sangue e desgraça. Preferiu pensar que não, pois não cria em presságios, fossem eles proporcionados pelos elementos ou provindos de qualquer fonte que não fosse a sua intuição. Porém, os seus devaneios de homem que, furtado à sua vida normal, mergulhara desde há dias num pesadelo, foram interrompidos. O contramestre, acompanhado de dois sequazes de cariz igualmente desagradável, Joris, um gigante de cabelo comprido e barba hirsuta, e Eduwart, um ruivo pequeno, magro, um rosto sardento e cavalar, veio abrir-lhe as correntes e levou-o aos empurrões para o convés, apontando-lhe depois um canto, junto de uma das amuradas, para que se sentasse. Vislumbrou, à luz difusa do alvorecer, outros companheiros de desgraça. Acocorados junto das amuradas, homens, jovens na sua maioria, tomavam uma gamela de leite quente e comiam pão ou biscoito. O tal Eduwart, com ar de gnomo, trouxe-lhe uma ração. Enquanto mastigava o duro biscoito, apesar de tudo bem melhor do que a comida servida na prisão, olhando de soslaio, foi observando os outros, provavelmente todos eles recrutados à força. Lourenço fora recrutado, não à força, visto que acedera a ser engajado, mas mercê de uma situação em que se envolvera, ou vira envolvido, e para a qual aquela dura viagem acabava por ser uma saída menos má do que a forca ou as galés. O que vinha a dar no mesmo. Todavia, a última frase que o rei proferira mudara a maneira de encarar a missão, transformando-a numa demanda pessoal.

Havia gente de todas as raças. Até um mouro grande e corpulento, que soube depois chamar-se Muhammad. Quase todos permaneciam calados, embrutecidos e apavorados com o que lhes estava a acontecer. Outros trocavam breves palavras em diversas línguas – castelhano, francês, catalão, provençal, neerlandês, italiano, alemão… Em voz sussurrada, o rapaz que estava sentado à sua esquerda, meteu conversa. Era um jovem franzino, mas não magro, moreno de estatura mediana, cabelos escuros e luzidios emoldurando uma face magra onde brilhavam uns olhos grandes e expressivos. Falava castelhano, língua que Lourenço aprendera de pequeno, pois um dos monges que o ensinara na escola catedralícia era oriundo de Toledo. O jovem exprimia-se com fluência e elegância, revelando possuir alguma ilustração. Chamava-se Julián Nuñez. Disse ser andaluz, vizinho de uma pequena aldeia próxima de Sevilha. Já lhe adivinhara a origem pela forma como pronunciava as palavras, não as terminando, e pela abundante tagarelice, coisa comum em andaluzes e extremenhos. Aprendiz de debuxante de cartas de marear, disse, fora, foi contando enquanto comiam, apanhado por homens de armas à saída de uma taverna. Quando, ao cabo de umas horas, ainda com o estômago embrulhado pelo vinho, recomeçara a ficar consciente, estava agrilhoado a bordo da carraca e navegando em pleno mar. Disse ser pouco dado à ingestão de bebidas alcoólicas – a água fresca e pura era a sua bebida de eleição. Por isso, naquela noite, estava muito toldado pelo vinho que bebera com outros amigos que festejavam o dia do santo de um deles e fora muito fácil forçá-lo a embarcar. Nem sequer se lembrava de ter resistido aos homens armados que nele pegaram como se dum saco de favas se tratasse.

Quando, entre vómitos e dores de cabeça, acordara da embriaguês, o barco vinha já do porto de Sevilha para Ocidente do Mediterrâneo em direcção a Lisboa. Os outros eram, segundo foi informando, de forma geral, gente boçal e de má catadura com quem tivera até então dificuldade em relacionar-se. Muhammad, o tal mouro fora embarcado em Lisboa e nunca falava. Embrulhado no seu albornoz, fizera de madrugada as orações e abluções rituais, mostrando-se indiferente a uma ou outra discreta ironia. Aliás, a sua corpulência e o ar duro desencorajavam grandes ousadias por parte dos outros. Não havia, que soubesse, mais portugueses entre a tripulação, acrescentou. Lá para baixo, disse, completando a sua informação sobre aquele universo em que, desde há mais de uma semana, estava confinado, acorrentados aos remos, havia, sobretudo além de alguns escravos, presos flamengos, criminosos – sobretudo ladrões e assassinos, gente assim.

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