CARTA DE VENEZA – DO COMÉRCIO LOCAL AO LUXO GLOBAL – por Vanessa Castagna

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Em Veneza, como em todas as cidades afetadas pelo turismo de massa, uma das tensões prementes é a que vê a resistência do comércio local, de um lado, e a tentativa de oferecer um luxo global, do outro. A essa oposição corresponde, numa perspetiva mais ampla, a dicotomia entre necessidades dos moradores e expectativas dos turistas mais cobiçados. Não é só saudosismo o que nos leva a considerações nostálgicas sobre a existência de lojas de bairro, como padarias, talhos, mas também livrarias, lojas de discos e assim por diante – lojas que tendem a desaparecer rapidamente e que, quando sobrevivem, parecem transformar-se cada vez mais em pequenos museus de arqueologia civilizacional.

Há cerca de dois meses foi inaugurado perto da Ponte de Rialto um luxuoso estabelecimento comercial que ocupou o luxo-globalhistórico edifício denominado Fontego dei Tedeschi, após a saída do serviço central dos correios, que ali funcionava: 65 lojas de marca distribuídas pelos três andares, à volta do pátio interno. O Gruppo Benetton em 2008 adquiriu o espaço e promoveu um restauro arquitetónico não isento de críticas, capaz de transformar a estrutura num centro comercial de luxo, muito frequentado pelos turistas com alto poder de compra: um segmento de mercado importante em virtude do elevadíssimo número de turistas que visitam Veneza diariamente. O T Fondaco, gerido pela Dfs Duty Free, tenta não excluir de todo a população local, possibilitando o acesso ao terraço com vista panorâmica e concordando com os órgãos da administração municipal um calendário de espetáculos e eventos de acesso livre. No entanto o próprio nome revela quem é o público-alvo do empreendimento, já que o “T” do nome é a inicial de “travellers”, isto é viajantes.

No polo oposto, há comerciantes tradicionais que resistem apesar das dificuldades e a cultura unívoca do turismo. Alguns destes resistentes juntaram-se e decidiram exibir as suas histórias, património da cidade, expondo as fotografiasluxo-global-ii de 60 lojas históricas que continuam abertas (em Cannaregio, sala San Leonardo, 5-9 de dezembro). Algumas das lojas retratadas abriram portas há mais de um século, como no caso de uma farmácia que remonta ao século XVI. Este tipo de comércio já se encontra em vias de extinção, devido à falta de normas que o proteja, tanto a nível de aluguer dos espaços como em relação a distâncias mínimas entre lojas do mesmo género. Daí a proliferação de bares, restaurantes, lojas de souvenirs, máscaras nem sempre venezianas e objetos de vidro supostamente de Murano, mas muitas vezes Made in China.

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