Obrigado ao Camilo Joseph
Nunca encontrei Fidel Castro pessoalmente. Nem lhe apertei a mão ou lhe abracei, pessoalmente.
Mas, ele entrou em minha vida há muito tempo, quando eu era uma criança de onze anos que trabalhava e estudava. Vida miserável para qualquer pessoa, mas, eu não tinha ainda dimensão da dureza que vivia.
Vivíamos em um barraco em que o frio sulista entrava sem piedade, com pouca comida, pouca roupa, e muito trabalho. Mas, a vida não era triste, pelo contrário. Estávamos no Movimento Sem Terra, junto de muitas pessoas em situação igual a nossa, animadas em lutar por um pedacinho de chão para viver. Quando um barraco estava sem nada de comida, outro barraco dividia o que tivesse: um pouco de farinha, um pouco de sebo. Quando já não havia o que dividir, e a fome apertava, juntávamos uma turma de criançada – Maristela Danetti, Maristela Brambila, Eliane, Deni, Ângela, Gilberto, Margarida, Glorinha – e saímos em busca de palmito de coqueiro, maxixe, folhas comestíveis, peixe, enfim, qualquer coisa que nos alimentasse.
Eu adorava ler, mas não tinha livros, nem biblioteca onde tomar emprestado. Uma vez encontrei em um lixeiro um pedaço de um livro, era uma aventura infanto-juvenil em Guaraqueçaba, cujo protagonista se chamava Genteboa. Nunca soube o nome do livro nem quem o escreveu, chegou a minhas mãos pela metade, sujo e se desmanchando pela umidade.
Então minha irmã, Salete, foi a Cuba estudar por um ano. Ela conheceu Fidel. Ela voltou de lá com uma mala cheia de livros! Em Cuba, apesar do embargo econômico, era mais barato comprar livros que no Brasil.
O primeiro Machado de Assis que li, Quincas Borba, foi em espanhol. Aliás, comecei a devorar aqueles livros maravilhosos como se tivesse lido em espanhol toda a vida. Quincas Borba, El General en su Laberinto, La Madre, Cien Años de Soledad e outros, caíram como chuva benfazeja em meu sertão árido de literatura.
Aprendi que era possível ser pobre – muito pobre – e ter alguns livros na prateleirinha de taquara. Quando eu olhava enamorada para aquelas lombadas bonitas e desejadas, pensava no tal de Fidel, que junto de outras pessoas havia feito uma revolução em um pais pequeno e longínquo, mas que me permitia ler, no Brasil, um livro inteiro e em bom estado.
Minha irmã voltou com livros e com saúde: ela tinha um problema respiratório, e uma cirurgia feita pelo sistema público de saúde cubano lhe devolveu a vida normal.
Fidel e a Revolução Cubana nunca mais saíram de minha vida.
Agora me disseram que Fidel morreu. Mas, aqueles livros continuam comigo. Também graças a eles, agora faço o doutorado, pesquiso, escrevo, não passo fome. Como alguém pode me dizer que Fidel morreu? Ele está aqui, presente em minha vida.
Ele me deu meu primeiro livro.
