Há diversas rotas possíveis por mar entre Lisboa e Veneza. Caso se pretenda escalar determinados portos, a via mais segura será a de contornar a costa europeia da bacia mediterrânica, indo por Cádis, Cartagena, Valência, Barcelona, Marselha, passando a Ligúria por Génova, percorrendo o mar Tirreno, ladeando as costas da Córsega, da Sardenha e da Sicília, atravessando o estreito de Messina e subindo o mar Adriático para Norte, de Bari a Veneza. Sendo mais demorada, era também naquele tempo tal como agora, a rota mais prudente, pois na proximidade dos portos europeus os ataques dos piratas não eram, nem são, tão frequentes. Porém, com um navio robusto e bem provido de artilharia, Van der Meer iria seguir um caminho mais directo, navegando a partir de Gibraltar próximo da costa africana, inflectindo à vista de Argel para Sudeste, na direcção do porto sardo de Cagliari, contornando a Sicília e ascendendo, depois pelo mar Tirreno, até Veneza. É uma rota que permite encurtar a viagem, mas era e é a mais arriscada, embora, de momento, isso não constituísse problema para Lourenço ou para os demais tripulantes. Os seus problemas eram outros.
As primeiras semanas foram ocupadas com as tarefas de bordo. Lavar o convés, polir metais, escorvar canhões, coser rasgões abertos no velame, reparar troços de cordame, entrançando-o e reforçando-lhe a resistência, subir por enxárcias e mastros para ferrar ou desferrar as velas, ajudar na cozinha ou até mesmo remar se faltava o vento, o que acontecia com frequência, pois se estava no Verão. O vento era fraco, o mar bonançoso, com ondas leves, e o céu limpo de nuvens, principalmente quando, uma semana após a partida, atravessaram o estreito de Gibraltar e entraram no mar Mediterrâneo. Estas duras ocupações e o quase permanente apelo à energia física dos tripulantes tinha a vantagem de os fazer dormir de um sono só, sendo despertos pelos gritos brutais, quando não pelos safanões do contramestre ou dos seus sequazes, que se não os acordavam à primeira, os puxavam para o chão ou lhes despejavam água em cima. Lourenço sentia um quase irreprimível ímpeto para aplicar um bom correctivo ao alarve. O mesmo acontecia quando um deles lhe entregava um balde e uma vassoura para fazer limpezas: era assaltado pelo desejo de lhe atirar com o balde à cabeça ou de lhe enfiar a vassoura pela boca abaixo ou pelo rabo acima. Eduwart (o «anão vermelho», como Lourenço e Julián o designavam entre si), era particularmente odioso. Então, a figura austera do rei irrompia-lhe no pensamento – lembrando-se das ordens reais, baixava a cabeça e cumpria as humilhantes tarefas. Adivinhando a luta que se travava no seu íntimo, os flamengos, riam-se, o que tornava mais difícil adoptar uma atitude submissa. Consolava-se com a ideia de que um dia pudesse pagar, pois seu pai e o seu avô sempre lhe tinham ensinado que não é honesto ficar a dever seja o que for, seja a quem for. Cordatos como eram, por certo, pensavam num outro tipo de dívidas…
Porém, não nos esqueçamos de que, Lourenço e Julián, apesar dos maus tratos e da vida dura que levavam a bordo, eram privilegiados, pois só em condições excepcionais eram postos a remar. Apenas quando, devido a súbitas e leves intempéries ou, mais frequentemente, à pouca força do julavento para enfunar as velas e impelir a nave, se tornava imperioso reforçar a chusma de escravos ou de prisioneiros acorrentados que permaneciam nos porões dia e noite, ali se alimentando, dormindo, defecando, pois muito raramente são autorizados a levantar-se e as necessidades primárias são muitas vezes satisfeitas no banco. Quando se levantam é arrastando correntes que os impedem de praticar algum desmando ou de fugir, se é que é possível fugir de um barco em pleno mar aberto. Se o conseguissem, muitos daqueles desgraçados se lançariam às ondas, preferindo a morte à vida sem esperança que vivem naqueles porões. Remar é a tarefa mais dura de bordo, pois, não havendo vento suficiente para enfunar as velas e impulsionar à carraca, são os remadores, à custa de braços, a substituir uma força em que a Natureza, sobretudo no Estio, se mostra avara. Era, pois. a mais dura tarefa de bordo, a dessas duas centenas de homens, acumulados, confinados num espaço reduzido, empurrando cada quatro o seu remo de cinco ou seis braças. No Verão, sobretudo no Mediterrâneo, era frequente o vento ser substituído por uma brisa que, em termos náuticos, equivalia a nada.
Quando Lourenço, Nuñez, Muhammad e outros, iam ajudar os forçados, recebiam insultos cuspidos em idiomas na sua maior parte incompreensíveis. Mas os insultos dos remadores permanentes, quando ouvidos pelo comitre de serviço, eram silenciados com chicotadas. O comitre Wouter, homem corpulento, completamente calvo e desprovido de barba, devido a qualquer doença, distinguia-se pela ferocidade com que chicoteava os remadores. Ao grito do chicote, extinguiam-se as palavras, mas os olhares tornavam-se assassinos. O mouro, com o rosto coberto pelo capuz do albornoz, vendo-se-lhe apenas a barba, parecendo nada compreender do que lhe diziam («porco», «herege», «cão»…), ripostava com murros ou cotoveladas, o que não o tornava popular. Havia outros maometanos. Mas as religiões pouco contavam: a raiva era sobretudo contra «os de cima», os privilegiados que vinham por vezes ajudar na escravizante tarefa. O escorbuto que lhes descarnava as gengivas e os consumia em febril suor, o cansaço que lhes destruía os pulmões e os punha a cuspir sangue, as frequentes rixas em que se assassinavam, estrangulando-se com as correntes, punham por vezes termo ao suplício daqueles desgraçados. Os corpos eram atirados ao mar, sem qualquer oração, e, mesmo que tivesse havido crime, ninguém era punido pois nunca se descobria o culpado – e como era possível punir quem sofria já castigo mais cruel do que a morte?