DE POL POT AO GOLDMAN SACHS – UMA TRAJETÓRIA QUE É CHANCELA DESTA UE – OS VERDADEIROS BASTIDORES DE BRUXELAS, por JEAN-LUC GRÉAU

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Selecção e tradução por Júlio Marques Mota

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Os verdadeiros bastidores de Bruxelas

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Jean-Luc Gréau, Les vraies coulisses de Bruxelles  –  Quand même Zemmour n’y va pas assez fort

Revista Causeur.fr, 6 de Dezembro de 2016

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O escândalo da falta de ética da ex-Comissária para a concorrência Neelie Kroes na Uber e o de Durão Barroso no Goldman Sachs ilustram a conivência extrema entra os meios de negócios e as Instituições Europeias. Um dia, será mesmo necessário pedir contas aos Comissários.

“Quando eu crescer, vou ser Comissário. Digam-no aos vossos filhos, não há nada melhor. Vive-se confortavelmente; é-se muito bem pago. Não se é sequer eleito mas sim escolhido. E depois podemos dizer ou fazer não importa o quê, não se tem de dar contas a ninguém.” O insuportável Éric Zemmour continua o seu trabalho de demolição das autoridades que nos governam com uma delicadeza que só pode agravar a sua situação pendente. (1)

Por uma só vez, no entanto, Zemmour fica aquém da verdade. A sua posição sobre o assunto só incrimina a irresponsabilidade ordinária de comissários ideólogos ou incompetentes. Ora o caso Neelie Kroes exposto nas páginas dos jornais em 22 de Setembro, dá-nos conta de um outro escândalo e bem diferente. Ao que parece a senhora Kroos, que exerceu dois mandatos consecutivos de 2004-2014, primeiro assumiu o cargo de Comissário para a Concorrência, em seguida, o cargo de Comissário para o digital tendo sido também, de 2000 a 2009, dirigente de uma empresa localizada num paraíso fiscal das Bahamas. Este é, em termos morais e legais, um conflito de interesses, tanto mais grave quanto ele atinge uma personalidade que tem nas suas mãos um tremendo poder de decisão. Portanto, é imperativo examinar as atividades da senhora Kroes durante as suas funções em Bruxelas.

Neelie Kroos, responsável pela liquidação de Arcelor

A senhora Kroes abriu o caminho para a liquidação do maior ator europeu no campo da siderurgia, a Arcelor, que reagrupava entidades francesas, espanholas, belgas e luxemburguesas. Esta resultou do grupo Usinor, nacionalizado em 1982, depois modernizado nos anos seguintes com um monte de subsídios do Estado francês e de planos sociais (dois terços da força de trabalho tinha sido suprimida). Vinte anos mais tarde, a Arcelor fazia figura de joia da coroa no campo da siderurgia europeia e mundial. Especializada em aços especiais, os mais rentáveis, Arcelor foi classificada entre as melhores no setor, ao lado da coreana Posco e de Nippon Steel do Japão.

Agora, no mundo neoliberal, a eficiência aumenta o apetite dos especuladores, o que pode ser mais perigoso do que a mediocridade. A família Mittal, colocada à frente de um negócio de sucata indiana com sede em Londres, cobiçava Arcelor. Mittal lançou um ataque em força sobre Arcelor, em 2006, não sem contar previamente com enormíssimos empréstimos. É quase uma regra: o especulador aposta sobre a transferência da dívida da empresa adquirida comprada a força de muito pulso. Mas este ataque, o que não se considera como tal, foi sujeito à aprovação prévia das autoridades da concorrência. Neelie Kroos, teve então a oportunidade de nos dar uma ilustração ao vivo do que os tratados europeus chamam de “concorrência leal e não falseada”. Ela autorizou o ataque de Mittal sobre Arcelor. Melhor ainda, ela humilhou Dominique de Villepin, o primeiro-ministro francês, que estava a tentar estabelecer uma operação de defesa para Arcelor. “Dominique de Villepin defende um pato coxo. “Como se um pato coxo poderia alguma vez valer um dos ataques mais caros pelo prêmio significativo concedido aos ex-acionistas e pela carga do empréstimo que foi concedido a Mittal antes do resgate. Os patos coxos não se compram na bolsa mas no Tribunal das falências, Senhora  Kroos!

O que resta hoje da Arcelor, em França, Espanha, Bélgica e no Luxemburgo?

Mario Monti, responsável pela liquidação do grupo Pechiney

Mas Neelie Kroes tinha colocado os seus passos sobre os de Mario Monti, o seu antecessor, que tinha decidido ele o destino da Pechiney. Que semelhanças entre Pechiney e Arcelor! Pechiney também tinha sido nacionalizada, apoiada, e reestruturada em 1980, sob a liderança de Georges Besse, uma das futuras vítimas de Action Directe. Pechiney tinha também feito figura de joia da coroa no campo de alumínio. O grupo francês foi mesmo considerado como o mais produtivo, com o processo de eletrólise mais económica.

Precisamente depois de Jean-Pierre Rodier, o presidente, ter sido suficientemente imprudente para revelar ao público e, especialmente, aos seus acionistas que os seus engenheiros acabaram de desenvolver este processo, que o seu grande rival, o canadiano Alcan, lançou o ataque ao assalto da empresa. Um ataque que foi também financiado por um empréstimo previamente concedido e ainda mais necessário porque a empresa atacante estava a ter prejuízos e estava a ser subsidiada pelo governo de Otava! A incongruência da situação não impediu que lhe fosse dada luz verde pelo Comissário Mario Monti. Assaltada Pechiney, paradoxalmente comprada por um verdadeiro pato coxo do Canadá. Agora, a aeronáutica francesa grande consumidor de alumínio, compra‑oao estrangeiro.

A decisão de Neelie Kroos, relativamente a Alcan, foi um verdadeiro escândalo. O de Mario Monti, um escândalo pura e simplesmente isso. Desde o final do seu mandato, em Bruxelas, oProfessor Monti juntou-se, como conselheiro, ao banco Goldman Sachs, que tinha montado o ataque a Pechiney assim como o seu financiamento… Eric Zemmour deve compreender que o cargo de Comissário é generosamente bem pago, mas é contudo menos bem pago do que estes emolumentos aos quais acedem os titulares que bem têm merecido seja do mercado mundial seja da prosperidade dos bancos de negócios.

José Manuel Barroso, de Pol Pot à Goldman Sachs, passando por Bruxelas

E que dizer do camarada Durão Barroso, que acaba também ele de se juntar ao banco emblemático da globalização para ajudar a gerir o Brexit [sic]? A sua trajetória desafia a imaginação. Enquanto estudante da Sorbonne fez campanha a favor dos Khmers Vermelhos Reciclado na política politiqueira na idade adulta consegue chegar a Presidente do Conselho de Ministros de Portugal quando Portugal acaba de integrar a zona euro. O seu grande feito de armas foi, então, realizar a cimeira nos Açores, onde recebeu George Bush filho, Tony Blair, Silvio Berlusconi para se fazer a programação do desembarque no Iraque. Levado depois à Presidência da Comissão Europeia onde esteve dez anos antes de aterrar a seguir no Goldman Sachs – pelos serviços prestados como Mario Monti? – Barroso teve de gerir as falências da zona do euro, incluindo o do seu próprio país arrasado pela moeda única. Juntamente com o chefe do BCE Mario Draghi, ele próprio um ex-Goldman Sachs. Pelo menos entre eles, entendem-se.

O comportamento suspeito de Kroos, Monti e Barroso são apenas sintomas de um problema mais profundo. Os Comissários europeus são os principais agentes da globalização americana. Eles sofrem de uma corrupção intelectual, a que a sua eventual corrupção financeira apenas dá mais relevo. O seu militantismo a favor da globalização é a verdadeira face da Europa vista de e por Bruxelas.

Hubert Védrine apela a colocarem-se as cartas da construção europeia na mesa em vez da fuga para a frente que aparece como sendo uma estratégia para o sistema. Hubert Védrine ainda acredita numa remodelação positiva desta atolada Europa. Gostar-se-ia de saber se, na nova Europa com que ele sonha, não haverá uma comissão que não seja nem responsável nem culpada. Enquanto isso, Eric Zemmour poderá dizer-nos que, se a Europa estiver mal, os seus servidores  estão bem, obrigado  meu Deus.

Jean-Luc Gréau, Les vraies coulisses de Bruxelles  –  Quand même Zemmour n’y va pas assez fort. Texto disponível em : http://www.causeur.fr/ue-mario-monti-bruxelles-zemmour-41382.html#

 

1 Comment

  1. Existe um erro, ou uma imprecisão, no texto.Quando são nomeados os participantes na cimeira das Lajes, realizada a convite de Barroso é omitido o nome de José Maria Aznar e incluído o de Sílvio Berlusconi que, não esteve na cimeira.Sabendo que se trata de um texto traduzido, sendo a responsabilidade do texto, apenas, do próprio autor, ainda assim , penso que o rigor deve ser uma regra de ouro, principalmente, quando as campanhas do boato, agora denominadas como post-verdades, aí estão em alegre proliferação para confundir os menos prevenidos.

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