A Galiza é território de antiga e continuada habitação. A presença de marcos institucionais, políticos e geográficos remotíssimos é ainda hoje o indicativo da existência de tribos, de coletivos autoidentificados, mais ou menos conscientes do seu relacionamento e do seu vínculo (mesmo prolongado na separação física dos indivíduos ou dos grupos noutros territórios) com espaços geográficos, entidades de população e lugares simbólicos de memória.
Os espaços mortuórios, os associados a rituais de celebração e festa e os espaços de reunião e mercado, têm um valor para além do simbólico e do utilitário: continuam a definir os relacionamentos humanos e identificar boa parte dos ciclos temporais dos membros da tribo com um espaço geográfico definido.
Já tamanhos, já pequenos, a Galiza conforma assim um mosaico colorido de terras, costumes, dialectos e referentes, um puzzle para o estrangeiro de certa complexidade.
A estrutura social da Galiza conforma-se em função disto, em dous planos: o primeiro articula-se no relacionamento e trato das estruturas de poder local, que interferem, se relacionam, convivem, coincidem ou se enfrontam em diversa medida de tolerância ou rejeitamento às estruturas administrativas e de poder do Estado espanhol, com as suas complexas capas de articulação e estruturas de época diversa. O segundo é o plano definido pelas estruturas clánicas tradicionais.
A estrutura tradicional do clã, por igual no campo que nas cidades, era onipresente até não há muito, hoje em fase acelerada de substituição pelo modelo urbano de capitalismo, ainda se conserva caracteristicamente presente como elemento conformante da identidade, da coesão e da economia galega.
O universo (camponês e subproletário urbano) que subjaz a isto é – como destacou tantas vezes o olho agudo de Pasolini e nos recorda dia sim e não o Carlos Calvo – é um universo transnacional ou simplesmente um universo anterior que não reconhece estados ou nações. É o resto (um dos restos) de uma civilização anterior, regida por ritmos, ciclos e leis anteriores ao cristianismo que em boa medida os sintetizou formalmente.
A estrutura clánica rege-se por eras, ciclos e gerações, mas conserva arredor de um espaço central identificado como núcleo, um conjunto de roles ou papéis especializados que se transmitem por via educativa e de experiência e que conformam o caráter da pessoa a que se adjudica o papel de especialista.
No clã, a família funciona como um conjunto educativo, social, político e económico autónomo, normalmente articulada numa casa central, em muitos casos por via materna, mas com patriarca ou matriarca que os representam e unificam. Nela existiam roles ou funções: desde sanadores/as, até conselheiros/as, negociadores, reparadores, provedores, diplomatas, guardiões da memória da tribo, humoristas, agitadores e até chefes de paz e guerra.
Máscaras, ou funções nos que se preparava, “treinava” coletivamente a gente, e se escolhia desde pequenos em função das necessidades, das habilidades e da pessoalidade; que reproduziam os roles por gerações, e garantiam essa autarquia familiar e coesão tribal para além da mera subsistência agrícola ou comercial.
Quanto maior a estrutura familiar implicada, mais os efetivos, maior a complexidade da estrutura e reparto de roles e mais os agentes e substitutos disponíveis. A maior número de integrantes do clã, maior número de especialistas e maior potência do clã e mais complexa a rede de alianças internas e externas, vínculos entre clãs e sub-clãs, por sua vez também especializados.
É dizer; o clã é a unidade política, económica e social básica. Tem uma representação social e política (que como tal pode ser alterada, cedida, negociada ou usurpada), tem também um Conselho de clã reunido por inteiro nas consultas ou decisões importantes e nos grandes atos ou improvisado com os seus elementos básicos permanentes. Conta também com equipas e figuras perfeitamente definidas que conformavam a educação coletiva dos novos membros do clã: os tios, tias, tias e tios avós, cunhados, amigos, parentes mais próximos e distantes, amizades da casa, e nomeadamente os padrinhos e madrinhas. Conselhos, cantigas, ditos, anedotas conformam a memória tribal que se modifica e altera ao ritmo do tempo e no que o papel das mulheres por gerações, como centralidade, motor da economia, ligação e arquivo, foi tão importante.
A urbanização e a progressiva adaptação a um sistema moderno e capitalista, foi desgastando estas estruturas a favor do indivíduo isolado, e com elas vai-se indo em parte a sólida integração das pessoas ao seu entorno, a transmissão cultural, o sentido dos atos e dos relacionamentos. A estrutura basal da identidade galega foi-se alterando e também com isto foi-se efetuando uma modificação nas estruturas económicas e sociais relativas às necessidades e funções do indivíduo, que se por uma parte não cede ao grupo a conformação da sua especialidade também não conta com a ajuda, nem pode descarregar trabalhos noutros especialistas do grupo.
A emigração quando definitiva ou prolongada, em muitos casos rompe também a continuidade do clã (por muito que o papel possa ser substituído) ao perder tanto o elemento emigrado como o clã o rol no que o ausente é especialista, por sua vez o emigrado, ao perder o conjunto do clã, perde não apenas os vínculos como também essa estrutura económica e política.
A rotura destas máscaras, do papel individual e desta estrutura conformante coletiva, na modernidade, a liquidação da estrutura por causa das exigências da sociedade plenamente capitalista, determina muitas outras ruturas e desvinculações dolorosamente profundas, por mais que aparentemente inexplicadas no indivíduo.
O clã é ainda uma estrutura (ou uns restos de estruturas e pautas aprendidas sem sentido) na profundidade das leis, procedimentos, hábitos, costumes, festas e ritos. Conserva-se ainda como um espaço de aprendizado e socialização, diplomacia e comportamento, um refúgio, um vínculo e um conformante de identidades e da identidade coletiva, mui por riba da nacionalidade ou da ideologia.
O conjunto de clãs vinculados a um espaço permanentemente conformava a estrutura sociológica e a base da estrutura da paróquia e da comarca; e assim sucessivamente nos espaços maiores da pirâmide, em função do espaço no que os indivíduos (e com eles o clã e a rede) se movimentarem.
A sua transposição às estruturas modernas da representação política, administrativa, sindical, económica, cultural e académica, no sentido da permanância de relacionamentos “inter pares” (de chefe a chefe, de conselheiro a conselheiro, de druida a druida, de legado a legado, de intermediário a intermediário), ou o “a quem conhecemos aí” e o “de quem vens sendo”, definem ainda muitos dos encontros e desencontros comunicativos na sociedade galega e oferecem também um interessante campo de estudo à Antropologia social. São de qualquer jeito para o observador treinado um método seguro para entender e explicar a complexíssima rede de alianças, decisões, percorridos dos mais variados acontecimentos, associações e projetos no mundo dos galegos de ontem e no de hoje.

Magnífico. Adorei. Que bem escrito e explicado. A típica ou mítica frase e logo ti de quem vens sendo? é uma boa síntese da mentalidade do clã. Antes de mais, cumpre reconhecer o outro como próximo ou como alheio. Isto tem as suas cousas boas e as suas cousas más, obviamente. Se calhar ainda é um velho substrato celta na Galiza tradicional, dos antigos clãs celtas. Há cousas, é incrível, que apesar de miles de anos passarem, ainda estão lá. Ou se calhar é apenas um elemento comum de todas as sociedades rurais, mas eu acho que a Galiza é o território da Península Ibérica (também quiçá o norte de Portugal), onde isto se observa de jeito mais claro. Na minha opinião, o elemento positivo do clã é a capacidade para manter no tempo a identidade comum, e o elemento negativo é o obstáculo para atingirmos uma consciência nacional, no sentido popular, abrangendo todos os territórios (comarcas) e microterritórios (aldeias) . Esta tarefa é imprescindível, esquecida ou desprezada pelo nacionalismo convencional, facilmente substituída pela ideologia.