CARTA DO RIO – 130 por Rachel Gutiérrez

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         Saudade do tempo em que ler uma crônica fazia parte da nossa vida. Tivemos cronistas extraordinários, ou antológicos, como então se dizia, que nos proporcionavam pequenas pausas bem humoradas ou poéticas num quotidiano já agitado, mas com algo de sólido e permanente ainda palpável. Suas palavras sabiam evocar acontecimentos sutis, pequenas surpresas, momentos mágicos como quando Clarice Lispector encontrou um louva-deus atrás de um quadro, ou quando o grande Rubem Braga seguiu o voo de um passarinho pela cidade; Fernando Sabino nos fazia rir ao surpreender o homem nu no corredor; e Paulo Mendes Campos nos comovia ao descrever o domingo azul do mar.

Assim comecei minha colaboração, em forma de crônica semanal, em 15 de abril de 2014, a convite de Carlos Loures para esta nossa Viagem dos Argonautas. Resisti durante muito tempo por me considerar incapaz de cumprir a tarefa, embora a editora Madana do Rio já tivesse publicado, em 1987, uma coletânea de 14 crônicas selecionadas entre as que eu escrevera para a revista CLAUDIA quando substituí Carmen da Silva, após sua morte ocorrida em 1985.  O pequeno livro se chamou Mulheres em movimento /Homens perplexos. E eu explicava, na Apresentação:

O título geral da coletânea, tomado de um dos artigos, não quer dizer que eu subestime o número incontável de mulheres que continuam tão perplexas quanto os homens, nesta fase de grandes transformações de nossa história. É principalmente para essas perplexas que sigo escrevendo. Acredito, porém, que as protagonistas deste processo de mudança qualitativa nas relações entre os sexos somos nós, as mulheres e que o mundo dos homens, assim como a sociedade em seu todo, já vem refletindo essas transformações.

Espanta-me agora o tom confiante e, em certa medida, romântico de tais afirmações. Quando pensamos nas violências que ameaçam as mulheres da Síria, por exemplo, a ponto de alguns de seus parentes homens chegarem a cogitar assassiná-las para evitar que sejam estupradas pelos inimigos; quando pensamos na prostituição infantil nos países mais pobres; quando pensamos na violência doméstica, que continua e recrudesce tanto nas classes mais pobres, e ignorantes, quanto entre os ricos e educados  em todos os níveis da sociedade…

Voltemos às crônicas e ao que eu dizia sobre minha colaboração daqueles começos.

A seção que Carmen da Silva assinava, em   CLAUDIA, com o título “A Arte de Ser Mulher”, passou a chamar-se simplesmente “Feminismo”, assinada por mim. (…) E até mesmo a mudança da “retranca” para “Feminismo” se deve ao espírito desbravador dessa grande pioneira. Graças a ela, ao menos nas páginas [da revista], o termo feminismo perdeu seu caráter ameaçador.

Minha primeira crônica de CLAUDIA, assim como a da coletânea mais tarde publicada foi, como não podia deixar de ser, uma homenagem à minha amiga Carmen. E uma das últimas foi sobre A Mulher na Constituinte. Pois a nossa atual Constituição, de 1988, foi promulgada no ano seguinte.

Comovem-me ainda as últimas palavras que fecham o artigo:

E não esqueçamos que uma transformação social verdadeira, passa necessariamente pela transformação da condição da mulher. Apesar dos limites ideológicos da consciência masculina, apesar dos limites históricos da consciência feminina, nós mulheres brasileiras, estamos em luta.

Muito tempo passou e muitas águas rolaram. Ainda não me detive para verificar quantas vezes nestes dois últimos anos, nestas bem mais recentes 130 Cartas do Rio mencionei, examinei e denunciei as injustiças que sofrem as mulheres. Queiramos ou não, o assunto é e continua a ser, infelizmente, inesgotável.

Contudo, tive também oportunidade de falar em muitos poetas, em filósofos e artistas, escritores e jornalistas construtores de esperanças. Pude escrever sobre meus autores prediletos: Rilke, Bachelard, Proust, Colette, Fernando Pessoa, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e tantos outros. Pude invocar muitas vezes a menininha Esperança, principalmente nos momentos difíceis deste último ano tumultuado e caótico. E ainda, na defesa das mulheres e da nossa juventude, escrevi incansavelmente sobre a necessidade da educação sexual nas escolas, sobre o abandono das nossas crianças, sobre muitas tristezas e algumas alegrias do nosso insensato Brasil e do nosso não menos insensato e injusto mundo.

Como disse Fernando Gabeira neste domingo: Os cientistas estão trabalhando para pesquisar a região do cérebro onde se depositam as memórias recentes. Não sei que lugar ocupará 2016 em nosso escaninho, sei apenas que o cérebro é elástico e viver no Brasil é educar-se para a complexidade.  Como viver no mundo, eu acrescentaria, é educar-se para a perplexidade. Sobretudo depois da eleição de Donald Trump na América do Norte.

Não há dúvida também, como diz Gabeira, que um ano como o de 2016 num ritmo de roda-gigante nos traz uma nostalgia da estabilidade.

E é com os melhores Votos para que 2017 nos permita emergir pouco a pouca das sombras e das inquietações que me despeço até Janeiro e desejo a todos Boas Festas, com Saúde e Alegrias.

E que o Rio de Janeiro possa sair do estado de falência financeira em que se encontra.

 

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