Uma Análise das forças geradoras do tsunami económico e social presente a partir do seu epicentro, os Estados Unidos – Salário misto ou salários americanos muito elevados

Selecção de Júlio Marques Mota

Revisão de Francisco Tavares

Uma Análise das forças geradoras do tsunami económico e social presente a partir do seu epicentro, os Estados Unidos

Uma série de 8 textos

(TEXTO IV) Salário misto ou salários americanos muito elevados

O alargamento nas diferenças salariais inscreve-se num projeto de polarização mais geral dos rendimentos. Mas esse projeto deve ser organizado. Portanto, neste artigo trata-se de compreender como é que a diminuição dos salários de uns é acompanhada do aumento dos salários dos outros.

Temos, portanto, de nos entregar a uma espécie de anatomia salarial dos 10% dos salários de topo. Esta anatomia supõe questionar o salário para nele examinar as componentes reais para além da sua simples designação fiscal. Ao fazê-lo, temos de explicar a diferença entre simples salário e salário misto.

A – Anatomia do salário: salário simples e salário misto, Atores–participantes.

Salário simples e salário misto (SM = (SUS+RS) +J +D)

É tradicional opor-se Trabalho e Capital. No caso que aqui nos interessa, esta oposição é suscetível de induzir em erro [ou: tem toda a probabilidade de ser enganadora]. Na verdade os salários mais altos – medidos pelo IRS – são apenas a forma exterior dos vencimentos.

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As variações do salário do milésimo de topo (Vermelho) vão imediatamente ilustrar este facto. Os salários dos que compõem o milésimo de salários mais elevados conseguiu captar partes crescentes de salário. Mas nos factos, esta parte não cessa de variar com as crises. Caiu fortemente com a crise do milénio e com a crise de 2008-2009. Por conseguinte, os salários superiores a 1 milhão de dólares registam fortemente a repercussão das crises. Não é o caso dos salários comuns.

Esta variação dos salários, consecutiva às crises, distingue-se por uma segunda característica. Esta variação é tanto mais fraca quanto mais nos afastamos dos salários do milésimo de topo. Esta caraterística é ainda sensível para os salários dos 3 milésimos de topo seguintes, ou seja para os salários situados do milésimo 996 ao 999 milésimo (Azul) e é também sensível para 30 milésimos abaixo, ou seja, os milésimos entre o milésimo 965 e 996 dos salários (Verde), embora este último não a tendo refletido em 2008-2009.

Reveja-se o gráfico. Esta variação é nula para os salários inferiores, 100 milésimos abaixo na escala da repartição (intervalo dos 866- 965 milésimos) o que é assinalado pelo traço preto contínuo) que se encontra entre o intervalo dos milésimos 800 -900 dos contribuintes das classes médias superiores englobando os 8,3 milésimos dos salários de topo (Preto em picotado).

As variações dos salários mostram que estamos perante uma forma original dos salários situada entre os 965 e o milésimo mil das partes de salário. Digamos, 3,5% dos assalariados americanos de topo têm salários que não obedecem à lógica do salário comum.

A variação dos salários consecutiva às crises resulta do cálculo do salário que reveste uma forma mista. Este salário dos 35 milésimos de topo compõe-se de uma remuneração fixa (R), de juros (J) e dividendos (D). A parte fixa retribui a utilidade social do trabalho (SUS ) e uma renda salarial (RS) que excede a remuneração legítima deste trabalho.

O salário misto dos 35 milésimos dos assalariados de topo, os 3,5% dos salários mais elevados, assume por conseguinte a forma seguinte: Salário Misto ou SM = (SUS+RS) +J+D). Os restantes 965 milésimos de assalariados americanos satisfaz-se com um salário comum – à baixa como parte salarial e em valor real – para 90% de entre eles.

Esta decomposição do salário misto reflete o fato de que as discrepâncias entre os salários dos mais altos quadros passaram de 1 a 40 vezes o salário mais baixo das suas empresas (em 1960) para serem atualmente entre 200/400 vezes o salário mais baixo das empresas do índice S &P 500.

Atores/Participantes

A análise da distribuição dos salários mistos permite ainda fazer uma distinção essencial. Para os rendimentos superiores (1 Milhão de $ e + no gráfico a vermelho), o nível de remuneração é 3 vezes superior ao dos assalariados que ganham entre 500.000 e 1 Milhão de $ (Azul) e trinta vezes superior ao dos assalariados que ganham entre 200.000 e 500.000 $ (verde). A repartição dos salários em parte não deve fazer esquecer esta desproporção flagrante.

Devemos fazer aqui uma distinção essencial, ou seja, que retomamos dos trabalhos de Général Poirier. Um ator distingue-se pela sua autonomia de decisão. Um participante é subordinado a um ator de quem ele põe em execução as suas decisões, mas dispõe de alguma margem de liberdade nessa sua tarefa.

Propomos por conseguinte esta delimitação: os atores de um crescimento desigual recrutam-se no primeiro milénio de topo dos assalariados americanos. Os participantes recrutam-se principalmente nos 3 milésimos de topo seguintes dos assalariados americanos, grupo este que ultrapassa muito provavelmente as franjas superiores dos salários mistos situados entre 200.000 e 500.000 $. Esta zona é provavelmente intermédia entre salário misto e salário comum.

Pode-se distinguir por conseguinte dois grupos de assalariados de salários mistos SM = (SUS+RS) +J +D). Por um lado, um grupo de atores que correspondem aos quadros dirigentes do sistema americano e, por outro, um grupo de participantes que corresponde aos assalariados a quem são confiados as tarefas de execução essenciais à reprodução de um sistema de crescimento cada vez mais desigual.

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A tese que defendemos recebe uma confirmação incontestável desta segunda estatística. Os salários expressos por milésimo fazem aparecer como uma evidência incontestável os salários mistos dos atores do sistema económico americano. Estes salários mistos variam com a função ocupada: os salários dos atores do sistema (Vermelho) variam muito fortemente em volume em cada crise. Os que são sobretudo participantes de responsabilidades mais limitadas variam muito menos intensamente. Pode-se supor que a variação dos rendimentos que vão de 200.000 aos 500.000 dólares exprime a presença menos intensa de participantes no interior desta parcela dos assalariados americanos.

Existe bem ao lado dos salários comuns respeitando a distinção capital-trabalho dos salários mistos ou SM = (SUS+RS) +J +D)

B – Os salários mistos e rendimentos mistos das empresas

1° A retribuição da apropriação do capital.

Se analisarmos a função dos salários mistos, podemos então perceber porque motivo é complexo compreendê-los. Enquanto salário misto, estes salários confundem-se com a remuneração do capital dado que contêm rendimentos sob a forma de bónus e de dividendos que ultrapassam a parte fixa do salário ((SUS+RS).

A variação da remuneração do salário misto explica-se pela relação íntima entre os atores e os participantes no processo do sistema económico. Não são retribuídos como proprietários de capital mas sim como um grupo que se apropriou realmente do capital para o porem ao serviço de um crescimento desigual que favorece os 10% de topo na escala dos rendimentos na América.

Esta remuneração supõe que se dissequem os salários na sua relação íntima com o aumento das desigualdades nos EUA. Se os salários mistos aumentam, isso significa que os atores e participantes do sistema económico têm por missão organizar esta subida das desigualdades que beneficiam uma fração sempre cada mais reduzida dos Americanos

Quando analisámos a distribuição global dos salários, mostrámos que ela resultava de um processo interno aos EUA no qual a globalização desempenhava um papel secundário.

A remuneração dos atores e participantes nas empresas tem primeiramente a ver com o facto do papel desempenhado por este pequeno grupo. Nas empresas americanas, os atores e participantes têm a função não só de tomar as decisões estratégicas próprias à vida das empresas, mas devem também velar para que o nível dos salários da maioria da população seja compatível com os quadros gerais do mercado de trabalho que permitam organizar o seu refluxo.

2º O jogo dos salários mistos numa economia de desigualdade crescente

Que não nos enganemos: a subida em proporção do total do rendimento e em valor dos salários dos atores e dos participantes é sobretudo a consagração de uma política salarial própria às empresas que agem em conformidade com o resto do sistema económico.

A força deste sistema supõe que se respeite e se faça respeitar várias regras macroeconómicas sem as quais o crescimento cada vez mais desigual é uma impossibilidade.

1° Manter ao nível macroeconómico lucros elevados para garantir uma divisão do valor acrescentado favorável aos acionistas em número sempre mais reduzido que captam partes e volumes crescentes de valor. Os salários devem por conseguinte ser contidos.

2° Conservar salários baixos de modo a que o sistema de crédito permita uma transferência de juros a favor do topo da pirâmide social pelo simples jogo da desigualdade das detenções de património – essencialmente imobiliário – e das dívidas (crédito ao consumo e crédito imobiliário). Este jogo supõe o endividamento crescente das famílias a partir da parte baixa do decil 80-90 e o endividamento das empresas anónimas obrigadas a fazer uma dupla acumulação de capital.

3° Encontrar um equilíbrio entre investimento e rendimento de modo que a parte do valor acrescentado atribuído aos Americanos mais ricos não seja agravada por um investimento demasiado pesado, o que supõe que se façam escolhas de estratégia empresarial judiciosas e que se otimize a utilização dos fatores de produção para que se gere valor com um salário comum fraco. A substituição do trabalho pelo capital sobre um fundo de baixa das taxas de juro incentivando esta substituição, não tem outra causa.

Assumindo as funções de um capitalismo desigual sob constrangimento de limitação da grande massa dos salários de 80 a 90% da população, o grupo atores-participantes do mundo das empresas americanas vê ser-lhe reconhecido uma vantagem essencial. Dispor de remunerações que os fazem entrar nos 10% de mais elevados rendimentos das famílias americanas onde o seu lugar será tanto mais elevado quanto o serviço realizado for grande. As condições gerais do mercado do trabalho favorecem as tomadas de decisões internas às empresas que permitem fazer baixar o valor dos salários comuns e a parte dos salários relativamente ao rendimento global.

3° Os rendimentos mistos – os salários mistos

O grupo dos salários mistos funciona à maneira da formação dos rendimentos mistos dos proprietários diretos de empresas. A diminuição do valor dos salários, os investimentos criteriosos e os salários muito baixos permitem aumentar o rendimento misto do proprietário de uma empresa inserida num mercado do trabalho desfavorável à formação de salários normais.

A diferença entre salário misto e rendimento misto tem a ver com a dimensão das empresas anónimas que permitem pagar os salários mistos muito elevados aos atores e participantes do sistema produtivo mas a finalidade permanece a mesma: libertar lucros partilhados de modo imediato (rendimento misto) ou mais mediatamente pela forma complexa do salário misto. Toda a parte do salário que ultrapassa a utilidade social [(SUS +J +D] assemelha-se pois à parte do lucro imediatamente puncionada pelos rendimentos mistos dos detentores de empresas.

O salário misto nada mais faz senão retribuir muito generosamente aqueles que se apropriam do capital produtivo, prosseguindo os mesmos objetivos que os proprietários de empresas: o recuo dos salários comuns e a divisão do rendimento por meios certamente mais complexos para os atores e participantes do sistema produtivo.

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O fenómeno que se verifica para os salários reproduz-se para os detentores de empresas. A parte dos chefes de empresas que capta o essencial dos rendimentos compõe-se dos rendimentos mais elevados (+ de 500.000 $) que constituem uma parte muito reduzida dos proprietários das empresas. Há uma flutuação sensível das partes dos rendimentos mistos com as crises. Esta flutuação é a consequência de os rendimentos mistos serem variáveis e dependerem das evoluções da economia; para os salários mistos, a remuneração variável dos atores e participantes tem a ver com o facto de que o seu salário depende do desempenho das empresas e do envolvimento dos seus quadros dirigentes e superiores com prémios (expressos também em J) e Dividendos (D).

4° A camada de direção do sistema produtivo.

Existe por conseguinte uma camada social cujos interesses são comuns mas cujas modalidades de enriquecimento são diferentes. Esta camada social é constituída essencialmente pelos gestores que têm em comum o exercício de funções de comando com os constrangimentos que temos estado a enunciar.

Esta camada não pode senão ter uma conceção desigual da distribuição da riqueza; organiza-a e ganha com ela. É a força motriz da organização das desigualdades de que também tira muitas vantagens.

As ideias desta camada são conservadoras e autoritárias devido à concentração dos poderes de comando que têm entre as suas mãos e que condicionam o enriquecimento do grupo rentista muito reduzido de americanos a que está ligada.

Esta camada tem ideias políticas compatíveis com um quadro democrático por pouco que este último incomode os negócios de uma camada social que tem vocação produtiva e de rentista. A renda toma a forma por um lado de uma parte dos rendimentos salariais mistos (SUS) +J +D e, por outro, da remuneração do património.

C – Gestão conservadora das empresas e efeitos do enriquecimento distribuído

1° Os salários mistos dos gestores de sociedades anónimas

Os salários mistos dos gestores atores brilham por uma total desproporção entre a remuneração e a utilidade social dos gestores estrategas e os seus afiliados, os participantes do sistema. O salário misto é com efeito um salário de classe que visa a reprodução dos interesses dos acionistas e dos credores de capital-dinheiro sob diversas formas de créditos portadores de juros e dividendos. Veremos num outro texto a relação íntima entre salário misto e as MVVA que fazem dos 10% de topo das famílias os credores estruturais do sistema económico e o motor mais dinâmico do crescimento.

A forma do salário trai a relação estreita entre a razão social desta remuneração e os modos de enriquecimento das camadas superiores da sociedade americana. Assim como os juros e os dividendos desempenham um papel essencial no enriquecimento dos membros das classes superiores aos EUA, o salário misto dos gestores é constituído de uma forma de juros e de dividendos que retribuem a sua função social.

Esta forma original do rendimento deixa de permitir que se veja no salário dos atores estratégicos das empresas uma forma salarial comparável aos salários comuns. Com efeito, trata-se de um salário que tem uma dupla vocação: permitir aos seus detentores fazer parte do milésimo dos americanos mais ricos; conferir à combinação destes elementos não salariais (juros e dividendos) um meio de alimentar o salário misto com a remuneração das outras formas de capital (juros de aplicações financeiras e sobretudo dividendos).

Concebe-se que nestas condições, os gestores-atores sejam pagos por ações e por compensações de desempenho, de que a proporção fixa de salário não é independente.

Para os salários mistos dos gestores participantes, a lógica é a mesma, a forma mista de salário desempenha o papel de cimento entre os membros deste grupo unido pelas suas funções, tanto quanto os salários lhes permitem aumentar o fosso que os separa de todo o resto dos assalariados.

2° Rendimento misto das empresas

Para o rendimento misto dos gestores de empresas privadas a remuneração tem uma forma mais simples: o rendimento é tirado diretamente dos lucros da empresa pelos proprietários. Estas empresas de tamanho menor do que as sociedades anónimas e com menos empregados e quadros não são casos tão exemplares como as empresas anónimas. Portanto, não é de grande utilidade serem aqui abordadas em extensão. É suficiente dizer que a questão dos rendimentos mistos das empresas e dos salários mistos dos seus quadros decalcar-se-á tanto mais sobre a análise dos salários mistos de sociedades anónimas quanto maior for a sua dimensão económica e que estas irão pagar rendimentos mistos significativos aos seus dirigentes e poderão dispor de quadros de atores e participantes muito bem pagos.

Os efeitos do enriquecimento dos salários mistos e dos rendimentos mistos das empresas não podem ser contestados. Eles representam a existência de uma camada salarial que exerce funções de gestão do capital e que permitem uma partilha interna nos Estados Unidos cada mais inigualitária dos rendimentos salariais comuns.

D – Uma camada social dominante alargada.

1° As práticas de dominação

Desenvolvendo a análise do grupo dos 10% de topo, continuamos na análise das relações económicas centradas no par investimento e componentes do rendimento (salário, juros, dividendos). Até agora não tivemos em conta outra coisa que não fossem as funções de gestão, o que é insuficiente. O poder de comando económico não pode ser suficiente para manter uma sociedade. De modo que a maior parte dos assalariados suporte uma baixa do valor dos salários recebidos e uma baixa igualmente nos rendimentos salariais, é necessário que a sua reflexão seja objeto de um condicionamento permanente. Às ilusões patrimoniais da grande massa da população, é necessário também acrescentar uma ideologia que justifica o bom funcionamento do sistema económico.

Quereríamos insistir sobre o papel determinante que podem ter a valorização das formas de modo de vida e de consumo pela publicidade e pelas indústrias do espetáculo para reproduzir o sistema americano. É necessário acrescentar a produção ideológica dos meios de comunicação social (imprensa, rádio, TV) onde se ilustram editorialistas, publicistas, ideólogos patenteados e universitários servindo de caução científica.

Paralelamente à análise dos salários mistos e dos rendimentos mistos, as práticas de dominação transbordam para as empresas individuais. A remuneração deste serviço cultural – com canais de influência múltipla e com agentes numerosos – faz entrar os mais úteis de entre eles nos 10% dos rendimentos salariais de topo.

2° As práticas anexas

Não insistiremos sobre o facto de que existem também atores e participantes nas administrações públicas. Mas o seu nível de rendimento não os pode ligar ao cume dos 10% de topo.

Partilham, no entanto, com os 10% de rendimentos salariais de topo uma dupla preocupação: limitar ao máximo o investimento e os salários no sector público a fim de evitar que a despesa pública venha comer nos rendimentos do sector privado. A operação foi perfeitamente conseguida: os salários da função pública seguiram a tendência dos salários do sector privado, o investimento das administrações públicas não deixou de se reduzir em percentagem bruta e líquida no PIB dos EUA. Quanto aos gestores dos fundos sociais, estes tiveram êxito em limitar os défices estritamente ao mínimo compatível com os défices públicos contidos pelo menos até à crise de 2008.

Esta despesa pública contida ajudou a que a fiscalidade dos rendimentos salariais e do capital exercesse uma pressão à baixa desde os anos Reagan. Tem sido uma das condições básicas para a acumulação de património nos EUA e da concentração dos rendimentos de capital.

Há pois também atores e participantes nas Administrações Públicas, mas o seu nível de salários – que não é uma forma mista – não pode competir com os níveis salariais do setor público.

Conclusão

O nosso objetivo não era fazer aqui uma análise completa dos rendimentos dos 10% de topo. Quisemos, isso sim, tentar explicar porque e como é que os salários tinham caído e quem é que se aproveitou desta queda. O grupo dos 10% de topo é um grupo mais largo, não estaria pois na nossa intenção analisar o conjunto das componentes que são quadros médios assalariados, engenheiros, investigadores que assumem funções úteis, raramente sobre‑remuneradas nas empresas ou no sector público.

Não fazemos nesta série de textos um estudo das componentes dos 10% do grupo de topo, nós examinamos a forma como o crescimento se pôs em prática, organizando uma transferência crescente de valor e de parte do rendimento para o topo da escala social. Esta análise não se interessa por conseguinte pelas profissões liberais ou pelas vedetas do desporto e dos meios de comunicação social que estão ligados a este grupo de topo ou mesmo aos seus milésimos de topo. Dizer que a maior parte dos médicos ou dos advogados está ligada ao grupo dos 10% de topo (ou aos 20% de topo ) não apresenta nenhum interesse. Esta ligação não foi acompanhada neste caso de nenhuma mudança rápida do seu lugar na hierarquia dos rendimentos. Quanto aos que enriqueceram, vedetas do desporto e dos meios de comunicação social, constituem uma quantidade de indivíduos muito reduzida para que seja relevante dar-lhes atenção.

Tentámos também fornecer o segundo elemento da análise do processo interno que explica o alargamento das desigualdades salariais. Para compreender a dinâmica de enriquecimento de uma fração dos americanos e as suas relações com a organização económica americana, teremos que nos voltar para a interação entre património, dividendos, juros e modelo de crescimento patrimonializado. Não se pode compreender o crescimento americano senão na perspetiva da repartição dos patrimónios e dos efeitos sobre uma organização desequilibrada do crescimento.

Desta forma, ficamos com os meios para compreender como é que a detenção de capital e a apropriação do capital produtivo permitem a uma fração reduzida da população americana enriquecer-se. Esta fração não está ainda presente na sua globalidade e, no melhor dos casos, mostrou-se que é a apropriação do capital produtivo pelos gestores atores ou participantes que lhes permitiu enriquecer-se em virtude de uma analogia do salário misto com o rendimento misto e do salário misto com os rendimentos do capital dinheiro (juros e dividendos, J e D). As noções de rendimento de renda ou de renda salarial vão-nos ser particularmente úteis a seguir

Voltaremos aos salários mistos de forma mais aprofundada quando publicarmos a série de tópicos relacionais. Neste texto, optamos por não complicar a análise do salário misto a fim de manter uma linha de leitura essencial, ou seja, para evitar a dispersão de leitura.

 

Onubre Einz, III – Salaire mixte ou très hauts salaires américains. Texto disponível em : http://criseusa.blog.lemonde.fr/2015/10/15/iii-salaire-mixte/

 

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