

Gosto do Natal.
Natal é quando um homem quiser. Puder, descobrir, pretender, propuser, perpetrar, contextualizar, subscrever, consciencializar, inquirir, onomatopeizar, empreender, soletrar, referenciar.
Natal lava mais branco. Natal não faz pregas no peito nem rugas no colarinho. Seja aos homens de boa vontade, seja aos outros, aos de manifesta má vontade. Ou mesmo aos sem vontade, submissos, concórdios, anoréticos, abstrusos, eventualmente abjectos. Ou estúpidos tout-court, sem causa nem história.
Natal é intervalo. Os cavalheiros acompanham as damas ao bufete, mijam, fumam um cigarro, a mistificação segue dentro de momentos, a História desculpa, a História perdoa, o capitalismo compreende, capitula por momentos e recapitaliza por mais uns 364 dias, mais coisa menos coisa.
Natal é diferente: é paz, é amor e fraternidade de um dia pró outro.
Os pobrezinhos têm uma ceia, um cobertor, um palito, até uma escova de dentes, quem sabe. Comem bacalhau do bera e do barato e ainda por cima agradecem. A Deus, aos organizadores e ao bom Estado que os patrocina. Podem depois voltar para as suas camas de cartão, felizes por terem nascido. E por serem pobrezinhos, pois claro.
Sim, o que seria da religião e dos católicos sem pobrezinhos?
Meu Deus, nem quero pensar.
carlos

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