A CRISE DA FINANÇA – O CASO ITALIANO – 7. BENITO LI VIGNI: “AS PRIVATIZAÇÕES FORAM UM CRIME. A ITÁLIA ESTÁ NAS MÃOS DA FINANÇA.”

guardia-di-finanza

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota. Revisão de Francisco Tavares.

picenooggi-logo

Benito Li Vigni: “As privatizações foram um crime. A Itália está nas mãos da Finança.”

 

 De PIER PAOLO FLAMMINI, Benito Li Vigni: “Le privatizzazioni furono un crimine. Italia in mano alla finanza”

Picenooggi, 17 de Novembro de  2012

 

O antigo colaborador de Enrico Mattei, em Ascoli para um Debate sobre os 50 anos da morte do criador da ENI, utiliza palavras duríssimas: “venderam o nosso país. Draghi deu milhões de milhões de ativos ao Goldman Sach, em troca de uma só lira “.


benito-li-vigni

Para ver o vídeo da entrevista com Benito Li Vigni clique em:

https://youtu.be/kB5MDW0yOz8

 

Ascoli PICENO – Paul Barnard parece um cordeirinho, por comparação. Sim, Paul Barnard, o jornalista que denunciou Mario Monti e Giorgio Napolitano por ataque à Constituição e pediu na televisão, na Rai, para ser indiciado pelo atual primeiro-ministro por difamação, a fim de levar a tribunal as provas das suas afirmações.

“Crime e criminosos” são as palavras com que Benito Li Vigni, siciliano classe 1935, colaborador da Eni num momento épico da política industrial italiana conduzida por Enrico Mattei, acusa a política italiana e sobretudo a Finança (não só a italiana) dos últimos vinte anos.

Durante toda a sexta-feira, 16 de novembro, em Ascoli, numa sala superlotada, com muitos jovens, que realmente fizeram reviver o “mito” Mattei 50 anos depois da sua trágica morte provocada por um acidente aéreo. Organizado por Piceno Tecnologie, estavam presentes o Presidente da província Piero Celani, o prefeito Graziella Patrizi, o presidente da Assembleia Regional Vittoriano Solazzi, o Conselheiro Giulio Natali; o encontro contou com a presença do jornalista Giovanni Fasanella e ainda de Benito Li Vigni, braço direito de Enrico Mattei na Sicília e no Mediterrâneo

No vídeo, que dura nove minutos, Li Vigni responde a duas questões principais: a primeira é relativa à figura de Enrico Mattei; a segunda parte, porém, explica o desmantelamento da Eni e do Iri nos anos 90.

“Mattei foi um grande patriota e um grande homem de negócios, um verdadeiro empreendedor e teve a intuição de que a energia era necessária à Itália enquanto país destruído pela guerra, com um PIB que estava em metade do que era 1938. Assim, opôs-se à liquidação da Agip quando foi nomeado para esse papel: todas as potências vencedoras, Estados Unidos, França e Inglaterra, queriam a extinção da Agip por considerarem que a Itália era exclusivamente um mercado comprador de petróleo. Mattei desobedeceu”, afirma Li Vigni, que compara com muita lucidez a dignidade de Mattei com os atuais ” best-seller “da política italiana, caracterizados estes como favoráveis aos desejos do estrangeiro e indiferentes à vontade nacional.

“Mattei, potenciou a Agip, instalou depósitos no Vale do Pó, uma rede de gasodutos e, depois, a sul, em Basilicata e Sicília, onde eu o conheci, e para onde ele levou pela primeira vez, o trabalho e a indústria – recorda Li Vigni. Mattei colocou a Itália no centro da atenção do mundo com, por exemplo, o acordo que ele fez com o Irão foi revolucionário: não era um contrato típico de grandes empresas americanas imperialistas, mas um acordo paritário. Os lucros da extração da extração do petróleo eram divididos a meias e, depois, a Eni pagava os impostos no Irão: no final, restava 75% para o Irão e os 25% restantes para o país importador. Isto provocou uma forte reação das sete irmãs, as sete multinacionais americanas dominantes no mundo do petróleo. Mas Mattei não parou por aqui: ofereceu o mesmo tratamento aos países africanos e em 1958 virou-se para a União Soviética, em plena guerra fria, e isto também escandalizou o Ocidente. Mas o petróleo soviético não era pago mas garantido com produtos industriais italianos através do trabalho criado pela Finsider. Em África, apoiou a revolução argelina envolvendo os franceses, e conseguiu ganhar o apoio no Iraque, onde tínhamos concessões desde os anos 30, levando-os a retirar concessões aos ingleses.”

“De Gasperi foi convencido por Mattei a dar à Eni, ou seja ao Estado Empresário, a gestão da energia, porque isso era uma necessidade estratégica nacional, ” conclui Li Vigni.

E depois abre-se o obscuro capítulo da liquidação do património público nos anos 90: infelizmente à época a Internet não existia e algumas informações eram completamente ocultadas do público, ou difíceis de aprofundar. Mesmo agora é assim, evidente, embora haja uma minoria de cidadãos em condições de compreender o que aconteceu  com o iate Britannia e que foram “os assassinos” e “os mandantes” da economia nacional. Mas sendo este tema idêntico ao atual, que é indubitavelmente mais sombrio e mais perigoso, ocorre então ouvir e estudar com muita atenção as palavras de Li Vigni.

“Estávamos perante uma crise económica e tínhamos saído do Sistema Monetário Europeu, mas isto não justificava a abolição do sistema que tinha garantido o Milagre Económico Italiano. Por conseguinte, houve um ataque cerrado ao Estado empresário organizado pelos grandes bancos de negócios, que convenceram Ciampi e Amato a liberalizar o sector público. Mario Draghi, então Diretor Geral do Ministério do Tesouro, empurrou-os para a privatização. Foi destruído o Estado empresário, a Eni que tinha 130 mil empregados ficou reduzida a 30 mil, descarregando sobre os cidadãos o custo desta operação “.

Li Vigni parece sofrer como se o caso fosse ainda atual, e usa textualmente as palavras de Paul Barnard: “Operação verdadeiramente indigna, porque se encerraram atividades que traziam lucros para o estado como Nuovo Pignone [fundição de ferro de segunda fusão], Lebole [têxtil], a química de base. Destruiu-se a Eni. O parque imobiliário da Eni, que valia 1 milhão de milhões de liras, foi vendido à Goldman Sach’s por uma só lira (levanta a mão e o índice indica “um”). Cometeu-se um crime que na minha opinião deveria ser levado à justiça, e em vez disso continuou-se a fazer o mesmo: destruiu-se IRI, Imi, o sistema bancário italiano e até mesmo o banco da Itália que já não existe e agora já nem sequer temos um sistema de controlo financeiro”.

A amargura torna-se então num sorriso irónico: “Claro, Mario Draghi foi premiado e tornou-se presidente da Goldman Sachs para a Europa – não sei se num país pode ser possível um conflito de interesses desta dimensão, deste género. E Draghi permaneceu no Goldman Sachs Europa durante dois anos e, em seguida, mudou-se para governador do banco da Itália, e, depois, para governador do BCE, criando a situação que estamos agora a viver.”

Porque é que não existem políticos que denunciem, com palavras idênticas às suas, o que aconteceu, perguntámos a Li Vigni? “Nós já não temos a política, acabou – é a resposta seca. Temos a oligarquia: em 2005, aprovou uma lei para impedir que o cidadão possa nomear os seus representantes para o Parlamento. Temos uma oligarquia de castas e de grupos. A política faz outras coisas. Sabemos o que acontece, a apropriação criminosa que rouba o dinheiro público para financiar coisas diferentes de escolas, saúde, desenvolvimento, e isto é um crime. A Itália é um país que começa agora a percorrer a via do crime. O facto de que sobre os jovens que protestavam fossem atiradas bombas de gás lacrimogénio pelo Ministério da Justiça sugere que estamos a caminhar para uma guerra entre as instituições, geridas desta maneira por certas razões, e o próprio país. Se continuarmos assim vamos chegar a um beco sem saída.”

“Mattei” conclui Li Vigni – não sonhava com uma Itália assim, mas com uma outra Itália. Atenção: nós temos os acórdãos arquivados que testemunham como Mattei não foi morto pelas Sete Irmãs, mas por setores das instituições italianas que queriam destruir um homem que estava a trabalhar pelo interesse nacional “.

 

Benito Li Vigni: “Le privatizzazioni furono un crimine. Italia in mano alla finanza”. Texto disponível em:

https://www.picenooggi.it/2012/11/17/14121/benito-li-vigni-le-privatizzazioni-furono-un-crimine-italia-in-mano-alla-finanza/

Leave a Reply