O MAPA (A saga do anadel/56)- Lourenço vagueia

Veneza, tarde de domingo, 29 de Setembro de 1487.

 

Sobraçando o seu pequeno saco de burel, foi percorrendo as ruas quase desertas, pois começava a anoitecer e, seguindo as indicações dadas pelo capitão, atravessou a Praça de São Marcos e, encaminhando-se sempre para noroeste, fazendo uma ou outra pergunta aos raros passantes, Lourenço depressa chegou à albergaria situada no Campo de Santo Stefano onde iria pernoitar. Uma velha igreja presidia ao amplo largo onde esta se situava. Era a igreja de Santo Stefano, segundo veio depois a saber. À entrada estava sentado o proprietário, um velhote simpático, rotundo e vivaz. Após ter ultrapassado algumas dificuldades e equívocos linguísticos, lá logrou negociar as condições da sua estada reduzindo para quase metade a quantia que o ancião começara por pedir. Arrumado este importante assunto, seguiu os passos de um criado que, à sua frente, subiu umas escadas de madeira ao fundo do salão onde funcionava uma taverna. Apesar de já ser tarde, a sala estava ainda cheia de barulhentos clientes, marinheiros na sua maior parte. Foi a esse salão da taverna que desceu pouco tempo depois de, arrumada a escassa bagagem no quarto e feita uma ligeira ablução, para comer uma escudela de sopa, um pedaço de pão com queijo e um copo de vinho. O ambiente era bastante animado e ruidoso por aqueles lados.

Tal como acontecia – e continua infortunadamente a acontecer – em muitas das estalagens mais humildes do nosso Reino e mesmo noutras menos humildes, havia, sentadas a muitas das mesas, algumas mancebas que, como era de uso, ou os próprios estalajadeiros, ou os experientes tafuis, que são os sujos e criminosos negociantes dos corpos das raparigas, se encarregavam de colocar à livre disposição dos clientes que estivessem dispostos a pagar pela compra dos seus serviços. A Lourenço pareceu, pela garridez dos trajes e pela alegria, talvez falsa, mas deveras estridente, das vozes com que cantavam, que algumas não seriam bem vulgares meretrizes, mas sim aquilo a que em Portugal chamamos soldadeiras, ou seja, acompanhantes de jograis, bobos ou bufões, saltimbancos, viajantes de terra em terra, que, como veio a saber depois, ali eram designados por mattaccini. Para tornar mais rendíveis as digressões, pois os proventos obtidos com os espectáculos, dependendo sempre da generosidade e disponibilidade dos espectadores, as mais das vezes, nem chegavam para pagar as contas das hospedarias, as mulheres, irmãs e filhas dos pobres actores, vendiam seus favores aos viajantes. A diferença entre umas e outras era, portanto, mais do que subtil e quase meramente terminológica, pois mancebas, meretrizes, barregãs ou soldadeiras, todas elas tinham o corpo a soldo de quem o quisesse e pudesse alugar. Para falar bem claro, não passavam de pobres putas.

Depois de ter comido com algum apetite a frugal ceia, regressou ao aposento que lhe coubera. Fechou muito cuidadosamente a porta que deitava para um corredor e ao longo do qual se alinhavam os quartos da estalagem, divididos uns dos outros por finos tabiques que mais pareciam feitos de papel. Na falta de chave e de fechadura, não confiando na frágil tranqueta de madeira, encostou um banco ao batente. Acendeu depois uma vela e sentou-se num escano em frente da janela. Os papéis que Van der Meer lhe entregara, guardara-os zelosamente por dentro da camisa, numa bolsa pendurada ao pescoço e que ficara junto do peito. Foi com ansiedade, que quebrou o selo da carta real e leu as suas ordens.

As instruções eram afinal muito breves, mas também muito precisas e suficientemente pormenorizadas. Deveria, já na manhã seguinte, uma segunda-feira, contactar um livreiro, um tal Saul Navarro, que era um judeu há anos saído de Portugal (Lourenço compreendeu que Navarro fugira das crescentes perseguições que aqui se verificavam contra os hebreus). O homem era proprietário de uma tenda de livros situada na Calle della Masena. Seria, segundo o curto texto da carta, o senhor Saul Navarro, esse tal livreiro judeu quem lhe iria descrever o teor da sua confidencial missão em Veneza. Aliás Lourenço sabia quem era Saul Navarro, um dos grandes amigos de seu pai. Embora não o conhecesse bem, por diversas vezes entrara com Lopo na sua tenda da Rua Nova dos Mercadores. Era um dos sábios das reuniões das sextas-feiras.

 Conforme lhe era também formalmente ordenado numa nota final do documento, após uma repetida leitura e memorizados os dados neles contidos, destruiu o papel, rasgando-o e queimando depois na chama da vela os seus pedaços. Junto com o rolo, havia ainda uma carta, igualmente selada com lacre, mas com a indicação bem expressa de que se destinava a ser apenas aberta pelo judeu. Continuava, portanto, após ter lido muito atentamente e por diversas vezes o documento antes de o queimar, sem conhecer o verdadeiro objectivo da sua viagem. Nada a fazer, quanto a isto, senão tentar dormir tranquilamente durante a noite que tinha pela frente e esperar pela chegada da manhã seguinte. Mas, não estava com sono. Abriu a janela de par em par e ficou, mergulhado nos seus pensamentos, olhando a silhueta da cidade sobre a qual as sombras da noite iam lentamente caindo, adensando-se como um escuro manto.

No quarto ao lado, entrou um casal. O homem, perdido de bêbedo gritava obscenidades em bom provençal. A mulher, por certo uma das cómicas, limitava-se a soltar gritos estridentes e a dar sonoras gargalhadas. Ao cabo de algum tempo de gritos e de risadas, a cama começara a ranger ritmicamente. E sobre este assunto mais não disse, dada a presença de minha mãe, que só aparentemente estava absorta no seu bordado, e de meu irmão José, rapaz ainda escolar e que bebia sofregamente todos os pormenores da narrativa – o petiz perguntou o que queria dizer «ritmicamente», parecendo não ter dúvidas sobre o restante da descrição. Todos rimos, mas, prudentemente, meu pai não proporcionou mais elementos sobre a noite da sua chegada a Veneza. Acrescentou apenas que, ao deitar-se, deixou à mão a espada e a adaga, pois as condições de segurança não eram naquele tugúrio as melhores.

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