A CRISE DA FINANÇA – O CASO ITALIANO – 10. TODOS MENTEM SOBRE O MPS. A ITÁLIA PERDE MAIS UM PEDAÇO DE HISTÓRIA. OS ANTECEDENTES, por ROBERTO CASALENA

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota. Revisão de Francisco Tavares.

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Todos mentem sobre o MPS. A Itália perde mais um pedaço de história. Os antecedentes

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Roberto Casalena, Tutti mentono su Mps. L’Italia perde un altro pezzo di storia. I retroscena

L’Economico, 12 de Dezembro de 2016

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Todos os protagonistas têm andado a mentir. O acordo sobre o Montepaschi já estará celebrado em salas secretas do poder entre Renzi, Padoan e JP Morgan. Não surpreendentemente, há alguns dias, o primeiro “banco” no mundo esteve presente na mesa com o ministro Padoan e com o Presidente do Conselho e para decidirem o destino do banco. Mas o que é que fazia ali, naquela reunião, JP Morgan? E porquê só este poderoso banco americano? Simples. Cerca de 55% do MPS está nas mãos de pequenos acionistas que, na grande maioria, não irão subscrever mais outro aumento de capital de 5 mil milhões. Montepaschi, como revelou o Conselho de administração, não está apenas interessado em se recapitalizar, mas a tentar envolver os atuais detentores de obrigações, para a conversão desses títulos em ações, desde que a Consob, a autoridade de supervisão dos mercados financeiros, autorize a operação. E pela parte que faltar, seria o Estado a intervir. Mas isso não será já necessário, porque o JP Morgan, está já à espreita pronto para engolir o terceiro banco italiano, o mais antigo do mundo. E para não fazer aparecer a sombra dos jogos já realizados sob a mesa, ser-se-á tentado a uma certa sedução, com prorrogações e fantasmagóricas conversões de obrigações. E isto para tranquilizar os mercados e os obrigacionistas, pensou Padoan. É admissível que não haja muitos detentores de obrigações disponíveis para aceitar a conversão em ações, porque acham que perderiam o pescoço. Portanto, uma intervenção de fachada feita pelo governo e um acordo por baixo da mesa feito com o JP Morgan a atuar como a espinha dorsal. Traduzido em termos práticos, isto significa que o tubarão JP Morgan está destinado a engolir de uma dentada o Monte dei Paschi, como de costume à custa dos pequenos acionistas, que viram os seus investimentos queimados e que dificilmente irão voltar a por a mão na sua carteira de títulos.

Vejamos os detalhes da operação. O banco JP Morgan dirigido em Itália por Guido Nola, com o ex-ministro Vittorio Grilli como dirigente do Banco Europeu de investimento, está ainda na ribalta das crónicas financeiras por ter assumido um papel de primeiro plano no resgate de Monte dei Paschi di Siena, ainda não concluído e com uma série de obstáculos pela frente. A entrada em ação foi precedida, como muitas vezes acontece quando no jogo estão presentes bancos de importância mundial, de uma reunião de “quatro-olhos”, entre o número um mundial Jamie Dimon e o primeiro-ministro italiano Matteo Renzi, encontro este arranjado, dizem, por outro banqueiro de prestígio internacional, Claudio Costamagna, presidente da Cassa Depositi e Prestiti. Um encontro fatal, é o que deve ter sido, uma vez que a partir daí Renzi abandonou a ideia de intervir com dinheiro público no capital de Monte dei Paschi, para ficar preso de pés e mãos atadas sob os cuidados do grande banco americano, pedindo apenas a presença ao seu lado da Mediobanca. O conjunto já estava a trabalhar desde há cerca de um ano com o Tesouro para negociar com os burocratas da Direção da Concorrência em Bruxelas a possibilidade de criação de um bad bank em que se colocariam os créditos do banco considerados de crédito mal parado ou de cobrança quase impossível sem causar qualquer colisão com a legislação relativa aos auxílios estatais. JP Morgan e Mediobanca inventaram pois o mecanismo de Gaacs, ou seja, as garantias públicas sobre tranches de titularizações, o único meio capaz de ultrapassar o obstáculo de auxílios estatais [como são concebidos pela autoridade da concorrência em Bruxelas]. Uma esquema, em seguida, transferido para o banco Montepaschi onde JP Morgan terá dito estar disponível para assegurar uma parte importante dos empréstimos-ponte necessários para colocar fora do balanço do banco de Siena 10 mil milhões de créditos não recuperáveis. Depois, em conjunto com Mediobanca, formou-se um consórcio de pré-garantia para um aumento de capital de 5 mil milhões para o que irão contribuir outros gigantes como Credit Suisse, Bofa Merryl Lynch, Deustche Bank, Santander. O jogo que JP Morgan está a jogar em Itália é talvez o mais visível de sempre, tanto pelas suas eventuais consequências em termos de reputação como em termos de remunerações (uma estimativa um pouco por alto dá-nos 500 milhões de comissões que irão agravar as contas de Monte dei Paschi se for concluído o empréstimo-ponte e o aumento de capital). Existe mais do que uma boa razão para deixar de fora o principal assessor das recapitalizações anteriores do Monte dei Paschi, cuja parte de leão foi feita pela UBS da Suíça. Por outro lado, como o governo sabe muito bem, e também os reguladores europeus, evitar um resgate interno no MPS, dito um bail-in, é um objetivo principal para não se criar um efeito de contágio no sistema bancário europeu e italiano. O que, como mostra a falência do Lehman Brothers, poderia ter custos exponenciais e pesadas repercussões para todos os protagonistas.

Roberto Casalena, sitio L’EconomicoTutti mentono su Mps. L’Italia perde un altro pezzo di storia. I retroscena, disponível em:

http://www.economicomensile.it/2016/12/tutti-mentono-mps/

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