CONTOS & CRÓNICAS – CARLOS REIS – OS ARTIGOS IMPUBLICÁVEIS – FIQUEI A SABER QUE EXISTEM VULNERABILIDADES QUE TÊM DE SER CORRIGIDAS

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E já agora: era bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto.

É este o título notável de um livro também notável, um dos mais interessantes e curiosos do escritor Mário de Carvalho. Se repararem com atenção, há uma similitude, uma acentuação, um ritmo em tudo semelhante, por parte do Professor Cavaco Silva, naquela sua transcendente frase que fez parte do seu magnífico discurso de hoje, que ficará certamente para a História e que decidi viria a ser o título desta despretensiosa (porém entusiástica) crónica sobre esse evento ímpar, ou seja o discurso final, a apoteose, que foi, que é, aquela impressionante comunicação ao país.

As pessoas andam distraídas com outras coisas insólitas e incomuns (as eleições dia sim dia não, o indeciso enterro do Michael Jackson, as vitórias do Benfica, etc.) e ninguém parece ter ainda compreendido o alcance e a magnitude, a subtileza e a perspicácia daquela verdadeira palestra, capaz de definir O Estadista, de identificar O Presidente.

Ouvi toda uma série de politólogos, jornalistas credenciados e representantes de vários partidos manifestarem-se, mas infelizmente ninguém parece ter compreendido o significado, o ênfase, o alcance quase mitológico daquela comunicação ao país. Quem me lê com alguma frequência, conhece e sabe da minha admiração profunda e do respeito que tenho e manifesto sempre que posso pelo Presidente da República. Tenho imensas publicações que o atestam, podíeis consultá-las se acaso não chegassem estas minhas palavras para o evidenciar.

Mas é a sua inteligência, a sua lucidez, a sua perspicácia, o seu incomensurável sentido de humor, a sua rapidez de resposta e raciocínio que mais me impressionam. Alguns dos politólogos e jornalistas entrevistados depois do inteligente e inquestionável (embora subtil, insisto) dicurso, tornaram-se irritantes e agressivos, no seu pretensiosismo bacoco. Chegando mesmo – embora disfarçada e canhestramente – a insinuar haver alguma eventual dose de estupidez, de inconsistência e incoerência em toda aquela conversa. Que era de chacha. Que era incompreensível, que o timing (sempre esta mania pedante do timing) não era o correcto, que havia uma data de confusão e contradição nas suas palavras. Como é que são possíveis tais afirmações? Depois de um discurso límpido, claro, inspirado, dirigido de peito aberto a todos os portugueses – confessando corajosamente coisas que ao contrário do que lhe é habitual (sic) vinha partilhar, factos secretíssimos e inconfessáveis, com esses mesmos portugueses, coisas que habitualmente não são partilháveis nem confessáveis! Que os senhores jornalistas e politólogos me perdoem, mas o problema parece-me ser vosso. Depois de uma partilha daquelas, de um confessar de importantes factos e raciocínios seus, com o povo que (não tenho a menor dúvida) tudo entendeu e ficou assim deveras ciente de todas as conspirações, de todos os mistérios escabrosos e de toda uma espionagem acerca do que o Presidente faz, pensa, planifica, exerce – coisas absolutamente secretas e intimamente computadorizadas. De como O Presidente “ficou inteligentemente a saber que existem vulnerabilidades que têm de ser corrigidas” (reparem, tem a ver com o também inteligente e vocacionado título desta crónica) e vai com certeza passar à acção, instaurando e muito bem um processo a toda a execrável informatização que por lá existe, na Presidência da República.

Mas pior que toda a malévola incompreensão de jornalistas e politólogos, pior ainda, é o facto de alguns deles aventarem – com alguma discrição mas ainda assim palpável – a hipótese (aliás subscrita por um amigo meu, que me abstenho de nomear) de uma crescente insanidade do Presidente de todos nós. De uma nota de iniciante loucura iluminada, a disfarçar e a distrair as atenções da já por demais evidenciada e compacta estupidez, da completa ausência e incapacidade de um raciocínio, da falta absoluta e congénita de humor e de uma postura cada vez mais hirta e forçada, até mesmo no acto de respirar.

Irritam-me estas insinuações por demais torpes e fatelas que jamais subscreveria, como é mais  do que evidente – se é que me conhecem os que me lêem.

Da mesma vulgar desonestidade e aproveitamento estão eivados os políticos (que no íntimo pensam o mesmo que todos os outros, acerca das capacidades intelectuais do Presidente) que compareceram de imediato para se pronunciarem. Todos eles, à excepção de um que ficaria lá mais para o fim, foram unânimes em bater no Professor Cavaco, admoestando-o por não ter falado antes, agora era tarde, poderiam até (todos) ter afinal ganho as eleições, o povo fora enganado, foi votar ao engano, se soubesse daquelas malvadezas teria votado neles (todos) em vez de votar no outro e os resultados seriam com certeza diferentes, com vitórias retumbantes, percentagens abundantes, doses maciças de deputados coloridamente depositados no Parlamento. Todas eles se pareceram incrivelmente uns com os outros como nunca, naquele abominável zurzir num homem indefeso, mas não posso deixar de uma especial chamada de atenção para o primeiro que por lá apareceu, uma espécie de Madame Pompadour do PPD que até fez sorrir a jornalista, de tão primário e grotesco que foi, nas suas asserções incendiadas sobre uma possível vitória pepedesca.

Fiquei a saber que existem vulnerabilidades que têm de ser corrigidas, também eu. Eu e todos os portugueses, ou não fosse tão claramente claro mais este discurso deste essencial Presidente desta incomensurável República absolutamente portuguesa.

Carlos

Lx, 29 de Setembro 2009

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