É um Partido a que eu aderiria, se acaso ele existisse. E isto tem a ver com Democracia, Informação, Ideologia, Pragmatismo, Eficiência. E ainda (e especialmente) com o Mário Soares, cujo carnaval post-mortem e televisivo ainda decorre nos Jerónimos, para gáudio dos media e dos que buscam sempre algum (mesmo que modesto ou possível) protagonismo – políticos, politicozinhos, jornalistas, jornalistazinhos, figuras públicas ou a tal pretendentes e demais desmesurado ou anódino lúmpen de classe e evidências pardas. Para além de muito (?) povo, como nos bons velhos tempos estadonovenses, que acorre a estas coisas, sobretudo por não ter mais nada que fazer ou a que acorrer.
O costume, dir-se-á.
Sim, o costume. Mas a perplexidade – que faria de mim um adepto daquele inventado Partido – tem a ver com o Mário Soares, ele próprio. Com a dúvida, o desconforto, a salvaguarda, o bom nome, o jogo à defesa, a deambulação, o amor de muitos, o crispar de tantos.
Eu explico, eu passo a explicar.
Antes, porém, lembro o dia do enterro do Álvaro Cunhal, em Junho de 2005, um mar de gente pelas ruas fora e acima (um amigo meu veio expressamente de Aveiro e fomos, ambos e anónimos, para o meio da multidão) um mar de gente – importante ou não – que não deixava, nunca deixou dúvidas a ninguém. Eram os todos, pensei eu na altura.
Vou então explicar.
(Prefácio) Com o Mário Soares é diferente. Perplexamente diferente. Toda a gente sabe (mas finge não saber) que o Mário Soares era odiado, odiadíssimo, pela Direita (não interessa agora os motivos, por mais estranhos e incipientes que sejam) e também odiado, odiadíssimo, pela Esquerda. A Esquerda a sério, quero eu dizer, não essa amorfa, moderada e razoável massa a que chamamos de socialistas.
(Enredo) Ah, é? Mas e então quem resta, afinal, na indescritível expedição aos Jerónimos, na inequívoca e motorizada peregrinação a Belém (Belém, logo ali a seguir à Junqueira, nada de confusões) nas lágrimas, baba e respectivo ranho de tanto aparente crente, na própria caravana ou por entre os percorridos caminhos de Canaan?
Essa é, ou faz parte, da minha perplexidade. Aqui os cães não ladram e a caravana passa, como dizia o proverbial provérbio. Não. Aqui ninguém ladra e as câmaras esforçam-se mazé por mostrar montes de crentes (recorrendo sempre e o mais possível a repetitivos flashbacks ou cansados playbacks, num louvável, exaustivo, tecnológico e meritório esforço, honra lhes seja.
Da minha perplexidade fazem parte a data de pessoas – por quem tenho algum respeito, mesmo que mais ou menos moderado – que práli estão, firmes e especadas, ou então entrevistadas e opinadoras, a tecer históricos elogios e tremendas hossanas ao Mário, ao seu percurso político, à sua vida, às suas opções políticas de momento e de Direito, já que ele foi tudo, desde primeiro ministro a presidente ou vice-versa, já não me lembro bem.
Parece-me, isso sim, que o bom povo nele votou, não haja dúvida e isso é importante. Tal como – mais tarde e já então muito mais mais lúcido e crescido – votou no Cavaco.
Houve até uma altura em que o próprio PCP – após profunda, aturada, inteligente e dolorosa reflexão – nele se viu obrigado a votar, alternando a habitual dieta de criancinhas com sapos vivos, o que provocou de imediato imensos refluxos e cenas de diarreia desmesurada.
Da minha perplexidade (eu que não sou comunista, nem pouco mais ou menos) fazem parte as afirmações em off de todos os meus amigos comunistas ou pretendentes a tal, acerca dos seus conluios, das suas vacilações e traições. O Carlucci, o Kissinger, os demais etcs, justamente denominados de fsdp, fascistóides e cheios de medo, à época, que um comunismo qualquer europeu tivesse as suas raizes por cá, investisse daqui, deste macaco de nariz da Europa até aos Montes Urais.
Da minha perplexidade fazem parte, por um lado as veemências enraivecidas dessa minoria pêcepêsca (porque de uma minoria se trata – que pode até ser razoavelmente esclarecida, para lá do espumar e da raiva, mas não chegam a encher um campo de futebol, não tarda) mas também as hossanas e o choro convulsivo das hostes socialistas e afins, mesmo sabendo que aquilo do Carlucci & Cia talvez não fosse muito decente, talvez que metendo o socialismo na gaveta (até hoje!) não fosse uma boa ideia, enfim, vamos falar do tempo.
O Mário Soares não foi nunca um fascista, ou um reaccionário, na verdadeira definição de tais epítetos. Lutou contra o Salazar, esteve preso, fugiu, fundou um Partido. Era um burguês, gostava de bons vinhos, de bons quadros, ópera e boa mesa?
Era. Gostava. Mas tantos (enfim, pelo menos alguns) comunistas há, bons vivants e toma lá dá cá, por amor de Deus!
O Mário Soares não foi nunca uma pessoa realmente de Esquerda da autêntica, da Bayer, na verdadeira acepção da expressão e significado?
Não. Convenhamos que não. A sua defesa (não, não sou eu, estou a citar) foi, talvez, o pragmatismo, dizem alguns. A necessidade e possibilidade política de momento – de onde aquelas curvas, contra-curvas, travagens e slaloms. Ao contrário do PC, que achava que uma ditadura do proletariado ou uma república soviete aqui em Portugal, era uma coisa de caras, perfeitamente exequível e de adesão imediata do (pobre e inculto) povo portuga.
Sonhadores? Mentirosos (para si próprios)? Estúpidos, apesar de uma certa pureza de ideias?
Não sei. Nem sei se o Soares, o falecido Mário, terá sido o sacana que eles invocam que foi. Se assim fosse (for) então há uma data de gente importante que está ali, a mentir(-se) e a hipocrisar, nos claustros dos Jerónimos.
Donde (e entre outras dúvidas e preplexidades) o meu futuro PDP. Partido Democrático Perplexo.
Politico que tenha sabido construir uma boa reputação já não dispensa um funeral muito parecido com o de Fidel. Acontece não conseguir. Isso faz que morram duas vezes. Menos probabilidade de voltar. CLV
Politico que tenha sabido construir uma boa reputação já não dispensa um funeral muito parecido com o de Fidel. Acontece não conseguir. Isso faz que morram duas vezes. Menos probabilidade de voltar. CLV